sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Estimativa de Público

Se você quiser promover um jogo de futebol, um show de dupla sertaneja, uma manifestação popular pela queda da presidente da república, ou um ato público em favor da coprofagia, uma coisa é essencial: público. É necessário que pessoas compareçam ao evento organizado por você, para que este momento tenha legitimidade, ganhe repercussão e alcance o objetivo ao qual foi proposto. Um evento sem público é fadado ao fracasso.

Para que esse público compareça ao local combinado para a reunião, você deve se utilizar dos meios que tiver a disposição. Anúncios no jornal, na internet, propaganda boca-a-boca, convites impressos individuais entregues diretamente na casa dos envolvidos, ameaças de agressão física e eventualmente condução coercitiva com singelas lesões corporais.
Segundo os organizadores, 90 mil pessoas compareceram a este tackle

O público é extremamente importante, principalmente nesse mundo moderno em que podemos qualificar um produto pela quantificação de pessoas que o curtem. Se muitas pessoas foram no evento planejado, isso significa que ele foi um sucesso. A divulgação do público presente é um dos momentos mais esperados de qualquer grande evento. O problema, é que não é tão fácil assim saber quantas pessoas de dispuseram a apoiar as causas defendidas naquele momento.

Se jogos de futebol ou eventos em locais fechados cuja entrada é liberada somente com a entrega de um pedaço de papel adquirido legalmente em algum posto autorizado e isso facilita a contagem de público, uma manifestação popular em uma avenida enorme não conta com esse benefício. É extremamente difícil, diria impossível, saber a quantidade exata de pessoas que estiveram lá manifestando seu nacionalismo onipresente.

Por isso, toda e qualquer manifestação trabalha com as estimativas de público. São elas que garantem números díspares, que não nos fazem saber se 80 ou 400 mil pessoas foram até a Avenida Paulista. E essa dificuldade é enorme por um simples fator: o método para essas estimativas não costuma a ser outro que não o bom e popular chutômetro.

Há sempre o número de presentes divulgado pelos organizadores da parada¹. Um número que, podem ter certeza, foi absolutamente inflado pelos interesses de que aquilo ali parecesse ser algo muito maior do que realmente foi para dar legitimidade aos questionamentos propostos. Saiba que os organizadores geralmente duplicam, ou até mesmo triplicam o número de presentes no movimento.
Segundo a PM, 3 mil pessoas estavam no estádio

Certa vez, da janela do meu trabalho, observei uma manifestação de uma categoria de servidores públicos. Contei-os manualmente e eles chegavam no máximo a quarenta pessoas. Mais tarde, vi matérias nos sites em que o movimento afirmava que 150 pessoas pressionaram o governo. Não havia possibilidade.  Em alguns casos, os organizadores utilizam como base para a sua estimativa o número de pessoas que confirmou presença no evento anunciado no Facebook. O que é um claro sinal de desespero.

Sempre há a contagem oficial realizada pela Polícia Militar, que geralmente é o número absoluto e verdadeiro para os veículos de imprensa. A PM vaticinou: 60 mil pessoas estiveram lá na praia de Copacabana e isso é o que vale. No entanto, o fato é que os policiais também utilizam o chutômetro para definir esse número. Baseados em sua vasta experiência na promoção da segurança em eventos públicos, eles olham aquele monte de gente e dizem “olha, acho que tem 50 mil pessoas aí”. O número pode variar de acordo com a simpatia dos militares para/com a mobilização.

Alguns lugares se prestam a utilizar algum método. Utilizando imagens de fotógrafos localizados no alto de prédios ou em helicópteros, ou de drones, ou de satélites. Mas no final, o que vale é um bom chute.
De acordo com a margem de erro do Datafolha, esta rua pode estar vazia

O que concluímos ao final desse texto frustrante? Que nós não podemos fazer nada, que somos seres minúsculos diante das grandes complexidades matemáticas do universo.

¹ Notem que a utilização da palavra "parada" aqui, foi amplamente proposital, propondo uma dupla interpretação a nível de gíria ou a nível mais formal. Não sei porque eu estou explicando isso.

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