sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Revolução Nudista

Na manhã de ontem, frequentadores de um parque em Porto Alegre assistiram uma cena surpreendente. Uma mulher corria nua pelo local. Não, ela não corria de maneira desvairada em meio a natureza, ela corria como correm vários corredores em parques, só que sem roupa. Ela acabou sendo detida por policiais, foi considerada doida e internada em um hospício.

Você pode imaginar que esse é um caso isolado, fruto desses tempos loucos em que nós vivemos. Tempos em que pessoas se digladiam virtualmente por conta de dois partidos com currículos sujos, tempos em que uma galinha pintadinha inflável gigante atrapalha o trânsito em São Paulo e provoca um acidente. Mas você se engana. O que nós estamos presenciando é uma verdadeira invasão nudista.

Vamos aos fatos. Também ontem (30.10) uma mulher foi vista andando nua na região central da cidade de Apucarana no Paraná. Diziam que ela estava visivelmente alterada. No dia 19 de outubro, um homem foi flagrado nu no telhado de uma casa em São Luís no Maranhão. Aparentemente, ele tomava sol de uma maneira extrema.
Tomar sol em cadeirinhas na praia é para os fracos

Na noite do dia 16 de outubro, um homem ficou nu em um posto de gasolina em Salvador, após brigar com um travesti. No dia 15 de outubro um homem ficou pelado em plena linha amarela no Rio de Janeiro, atrapalhou o trânsito e só foi contido com um extintor de incêndio (não, o extintor no foi inserido no ânus do sujeito). No dia 14 de outubro, dois casos: um homem andou nu pelas ruas de Santos e outro ficou sem roupa em pleno aeroporto Santos Dummont no Rio de Janeiro.

Ainda não se convenceu de que algo estranho está acontecendo? Pois saiba que no dia 12 de outubro uma mulher foi vista sem roupa na praia de Meaípe, no Espírito Santo. Em 6 de outubro, um eleitor foi votar nu no município gaúcho de Agudo. No dia 1º de outubro um aluno foi detido por estar sem roupa dentro da UnB. No dia 29 de setembro, um homem nu tentou invadir uma casa em Medeiros Neto, na Bahia, e foi preso.

Observem que os casos ocorrem em várias regiões do Brasil, nas cidades grandes e em cidades pequenas. Todos estão devidamente registrados na internet e se formos mais além, encontraremos muito mais do que esses 11 casos citados por aqui. Não pode ser coincidência.

O nudismo é uma filosofia de vida que busca a liberdade das amarras do mundo, um contato maior com a natureza por meio da não utilização de roupas. Todas as pessoas detidas pela ausência de roupas foram descritas como “alteradas”, não necessariamente pelo uso de substâncias alcoólicas. Podemos concluir que pressionadas pelo mundo contemporâneo, eles procuraram se libertar das suas roupas, medos e amarras. No Brasil, o não uso de roupas em lugares públicos é considerado um atentado ao pudor e pode te colocar na cadeia. A ausência de roupas deve ficar restrita aos poucos lugares onde ela é permitida.

O cartunista Vinícius Gressana, adepto do nudismo teórico, concorda que os seguidos casos de nudez não são uma coincidência. “Quem nunca sentiu vontade de tirar a roupa em lugares públicos, correr por aí balançando as bolas, sentindo o vento nas partes baixas? Heim? Todo mundo já quis fazer isso”, afirmou.

Por isso, enquanto muitos aí se preocupam com supostos golpes comunistas orquestrados por setores do poder, todos deveriam, na verdade, é se preocupar com golpe nudista que está para acontecer. Em breve, os sem roupa tomarão o poder – por força do constrangimento, ninguém quer lutar contra alguém pelado, por medo de se esfregar no pinto do cara – e instaurarão uma ditadura nudista, obrigando todo mundo a andar sem roupa.

Tomem cuidado.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Arremesso de Vegetais

Ao longo da história, dezenas de pessoas já foram vítimas de tomates arremessados por populares em fúria. Se alguém está se apresentando em um palco, já está correndo o risco de ser atingido por um tomate disparado por alguém descontente com essa situação. Outra boa alternativa é arremessar ovos, principalmente se eles estiverem podres, mas o tomate adiciona um charme patético a cena.

No entanto, a vida dos populares descontentes se complicou no último ano. Todos nós sabemos que o tomate foi uma das principais vítimas da inflação – alguns dizem que a inflação é que foi vítima do tomate, num processo que professores de economia poderiam explicar. A fruta virou a piada popular da internet durante um mês, mas o seu preço jamais voltou aos patamares de outrem.

Assim sendo, com o seu intuito apocalíptico de ajudar toda e qualquer exaltação popular, o CH3 realizou uma pesquisa na tentativa de encontrar alternativas para o tomate. Fomos até uma feira popular ao lado do pesquisador colombiano e restaurador de geladeiras, Alfredo Humoyhuessos. O objetivo era testar outros vegetais que poderiam ser arremessados contra pessoas.

Começamos com o bom e velho tomate, para entender a magia que esse momento proporciona. Com um sinal, Alfredo ordenou que seu ajudante arremessasse um tomate contra uma cobaia. Redonda, a fruta é de fácil manuseio e mantém uma trajetória constante até atingir o alvo, com boa velocidade. O tomate se amassa todo, deixando manchado o peito do cidadão atingido.

Na sequência, o teste foi realizado com um ovo, que se espatifou no nariz da cobaia. Alfredo notou que, com sua forma oval, o ovo descreve uma trajetória inconstante, trazendo menos precisão para o ato. É preciso utilizar mais força no arremesso e o ovo se parte ao atingir o alvo. Essa é uma certeza que acompanha a ovada, enquanto que a tomatada deixa dúvidas e a graça da vida está justamente nas dúvidas.

O formato redondo é fundamental para que um vegetal obtenha sucesso no seu objetivo de atingir uma pessoa. Isso ficou provado quando uma banana foi arremessada contra a cobaia. A banana não chegou a se partir, mas percorreu uma trajetória giratória que pode fazer com que o arremesso saia completamente de controle. Além do mais, atirar uma banana em alguém pode configurar ato de injuria racial, com pena prevista de até três anos de prisão.

O tamanho também é importante. Alfredo demonstrou isso arremessando uma uva contra a cobaia. Como o atingido não era o José Serra, a uva não chegou sequer a arranhar a vítima. Arremessar um cacho de uvas não se mostrou mais efetivo, além de ter feito uma sujeira danada. O máximo que poderia ter acontecido é que um dos galhos do cacho acabasse por cegar o indivíduo alvo do arremesso.

Por outro lado, frutas maiores também não são boas. Fizemos um exemplo com uma melancia. Extremamente pesada, a fruta já é difícil de ser escondida, é bem difícil entrar com uma melancia dentro de um teatro, por exemplo. Também não é fácil levantar a fruta e arremessá-la. Nosso ajudante sofreu bastante. Além disso, o peso da fruta acabou matando a nossa cobaia, configurando um homicídio doloso – quando há intenção de matar, que pode acarretar em uma pena bem grande que pode ser pesquisada no Google.

Enquanto aguardávamos a chegada da perícia e da polícia, realizamos um teste com um coco, que acabou matando uma segunda cobaia, complicando bastante a situação do nosso ajudante. Enfim, a ciência muitas vezes deixa vítimas pelo caminho. É um preço a se pagar.

Acabamos por descartar realizar um teste com um melão e definimos que o tomate tem um tamanho ideal. Passamos a testar outras frutas. Laranjas e limões são duros demais e o limão ainda pode manchar a pele. Maçã também é dura, cebola é dura e tem um cheiro forte, o maracujá quase chegou lá, mas aquela história de ele parecer meio oco dá uma sensação ruim na hora do arremesso. Assim como o pelo do Kiwi.

Parecia que nada iria igualar o tomate, mas logo chegamos a alguns resultados. A ameixa tem um bom tamanho, um peso razoável boa consistência e ocupa uma faixa de preço bem próxima ao tomate, dependendo da sua localidade. A goiaba também é uma boa alternativa, diria que ótima. Só que ela está um pouco cara, então, só opte pelas goiabas caso você tenha acesso a um pé da fruta.

Também há a hipótese do caqui, que é praticamente um tomate que deu errado, frutas irmãs que foram separados em algum momento pela evolução darwiniana. No entanto, ele também passou por uma safra ruim elevando o seu preço.

Assim sendo, o tomate continua sendo a fruta ideal para arremessar em pessoas que mereçam ser atingidas por alguma coisa. Compare sempre com o preço do caqui e tenha goiabas e ameixas como alternativas. Evite morangos, batatas e – acima de tudo – evite as jacas. Além de pesadas, difíceis de manusear e certeza de morte instantânea, as jacas podem se partir e uma jaca partida adquire um visual extremamente nojento, fazendo que o homicídio se torne culposo e triplamente qualificado, por motivo torpe e de maneira nojenta. A pena para isso é bem severa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A Nova Guerra Fria

A Guerra Fria foi um dos períodos mais sombrios da história da humanidade. Por mais de quarenta anos o mundo se dividiu em dois grandes blocos que representavam modelos de vida opostos. Esses lados se enxergavam como inimigos mortais, construíram muros para se separar e, por cima da divisória, enxergavam a pátria de tridentes do outro lado.
Por mais que você tente, não irá enxergar PT e PSDB em lados opostos deste muro

Os opostos se armaram com bombas atômicas e durante anos a população ficou paranoica com a possibilidade de um colapso nuclear. O curioso, é que essa guerra nunca aconteceu de verdade, ficou apenas nas ameaças, nos confrontos bélicos em países terceiro-mundistas e nos golpes de Estados financiados estrategicamente para manter a sua influência mundial.

Já se passaram 25 anos desde que o Muro de Berlin caiu e que Cindy Lauper cantou Another Brick in The Wall, como prova de que aquela discussão capitalismo/comunismo não era a pior coisa que poderia acontecer no mundo. E agora, em pleno 2014, podemos dizer que existe uma nova guerra fria em andamento.

Sim, o confronto PT x PSDB pelo controle da pátria é a nossa guerra fria. Fria, porque eles jamais irão as vias de fato e, se não tem bombas nucleares, seus seguidores conseguem provocar pequenas hecatombes nucleares com suas postagens em redes sociais. Sim, notícias falsas compartilhadas no Whatsapp matam tanto quanto os testes nucleares na polinésia francesa.

Os adeptos de PT e PSDB se enxergam como representantes legítimos da verdade e que quem não concorda com eles merece a forca. Não importa se você não gosta de nenhum dos dois. Se você não estava com Aécio era um petralha, se não estava com Dilma era um coxinha. Se você anulou o voto, era uma espécie de petralha/coxinha, um verdadeiro objeto de estudo.

O principal problema da nova guerra fria é que, digamos, ela é fria até demais. Seus eventos acontecem a cada quatro anos, com breves eventos a cada dois anos, nas eleições municipais. Todo o ódio travestido de civismo fica adormecido até as próximas campanhas eleitorais, período em que o civismo vai embora e fica apenas o ódio direcionado as mais diversas camadas da população.

Povo brasileiro, largue de ser idiota. Se você quer realmente colaborar para um país melhor, não adianta nada ir na urna e escolher 45 ou 13 a cada quatro anos e se comportar como um militante xiita nas redes sociais. PT, PSDB ou as tantas outras legendas, não representam as forças do bem ou do mal, eles não são como He-man e Esqueleto. Cobre os erros, aplauda os acertos e tenha tolerância para o debate de ideias. A democracia se constrói nos mais de 1.400 dias que passam entre duas eleições.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Campanha Voto Nulo

Hoje a noite a Rede Globo de Televisão realizará o último debate de todos os tempos da campanha de 2014. Hoje, também termina toda e qualquer propaganda eleitoral na rádio e na TV. A campanha, infelizmente, não vai acabar no único lugar em que ela jamais deveria ter começado: no Facebook. Lá, provavelmente o debate prosseguirá por toda a eternidade, até que uma nova polêmica merda seja criada.

Vocês já sabem o que esperar desses últimos encontros midiáticos. Dois candidatos tentando se mostrar como dois lados completamente opostos, tentando encarnar o mal e o bem. Um dirá que o Brasil estava chafurdado em fezes suínas até ele ter assumido o poder e transformado o país no paraíso prometido em alguma passagem bíblica. O outro dirá que nós vivíamos num arco-íris colorido onde jorrava nutella do céu, até que o Mal tomou o poder e desencaminhou o país para o mau caminho.

Nisso tudo, você sentirá a falta de um elemento importante: alguém que defenda os votos em branco e os votos nulos, duas opções democraticamente legítimas que jamais são defendidas em campanhas na TV e nos debates. Opções que se constituem em verdadeiros fenômenos.

Veja você que o Zé Maria sempre irá reclamar da falta de espaço na mídia burguesa e que por isso ele não vai além dos 91.209 votos que ele recebeu no último dia 5 de outubro. Pois, sem ninguém para defender os votos nulos em lugar nenhum, 6.678.592 brasileiros decidiram anular seus votos para presidente. Outros 4.420.489 votaram em branco. Isso supera em muito os votos que Luciana Genro, a quarta colocada, alcançou. Se os votos brancos e nulos fossem defendidos na televisão, eles poderiam, quem sabe, encostar nos 22 milhões de votos que Marina Silva recebeu.

Uma campanha pelo voto em branco não daria muito certo,
porque ela seria considerada racista
Os votos brancos e nulos conseguiram a terceira colocação para governador em Santa Catarina, em São Paulo, em Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso e Pará. No Rio de Janeiro, eles ocuparam a 2ª colocação. Aliás, no RJ, se somarmos as abstenções, descobriremos que mais pessoas preferiram não votar em ninguém do que votar no primeiro colocado. Assim sendo, ao invés de um segundo turno entre Pezão e Crivella, os fluminenses deveriam estar escolhendo se preferiam o Pezão ou a ausência de poder.

Nos debates desse segundo turno, deveríamos ter os dois candidatos, mais um terceiro cidadão, defendendo que o voto fosse anulado. Ele funcionaria como uma espécie de ombudsman e ao final de cada bloco pontuaria que os dois só falam besteira e que o eleitor consciente, o eleitor de bem, não vai querer se comprometer com nenhum desses projetos e por isso vai anular o seu voto no dia 26 de outubro. Ele apontaria quais deveriam ser as boas propostas e na ausência delas, dia 26 é dia de votar 00.

A propaganda na televisão contaria com algum jingle e imagens das pessoas felizes declarando que anulariam seu voto. Depoimentos de pessoas declarando porque irão anular o seu voto. Sim, eu sei que seria difícil convencer algum pirocudão da MPB a falar que anula seu voto, então, poderíamos conseguir depoimentos alternativos.

Ao invés do Neymar, Zé Alcindo, reserva do Grêmio campeão brasileiro de 1996 diria que anula seu
"Faça como o Moreno e vote em branco", ou
ainda "seja nulo como o Moreno"
voto. Teríamos outros esportistas, como o Pampa, medalha de ouro no vôlei nas Olimpíadas de 1992, algum participante do triatlo nos jogos pan-americanos de Santo Domingo, e, principalmente, Roberto Pupo Moreno.

A apresentação do programa seria feito por Celso Portioli que entrevistaria ex-paquitos contando como o voto nulo contribui para a saúde mental. O jingle seria cantado por Maurício Manieri, Jorge Vercilio, o saxofonista do Kid Abelha, o baixista do Legião Urbana e integrantes dos Engenheiros do Hawaii. O cara do Polegar foi descartado porque ele apareceu estar meio pilhado.

Receberíamos apoios internacionais, como o de ex-integrantes do Village People e aquele cara que foi derrotado pelo Rocky Balboa, no Rocky V, se lembram? O cara era aluno do Rocky, traiu o garanhão italiano e acabou apanhando feio em uma briga de rua no pior filme de toda a trilogia dupla.

Com sorte, Nana Gouvea e o Rei do Camarote agregariam valor a campanha do voto nulo, mas acho que ele já deve estar votando no Aécio. Por isso, dia 26 vote 26.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Três programas em conflito

Há quinze anos, a Rede Globo resolveu investir pesado na sua programação, ao mesmo tempo em que desfalcava os seus principais adversários. Fez algo parecido com o que faz o Bayern de Munique em todas as temporadas. Contratou Luciano Huck que fazia sucesso com mulheres seminuas na Bandeirantes, contratou Jô Soares que tinha um talk show no SBT e também trouxe Ana Maria Braga da Record.

Um papagaio, incomoda muita gente.

Ana Maria Braga chegou para dominar as manhãs da programação global. Seguia a sua fórmula anterior, de preparar as mais variadas receitas, acompanhada de um papagaio humorista, que é uma espécie de amigo imaginário e ombudsman do conteúdo exibido. Námaria é mais do que uma apresentadora, ela é a melhor amiga da dona de casa que está preparando o almoço da família na parte da manhã.

Assim, caberia a ela a função de manter a dona de casa informada sobre os mais variados temas. Saúde, notícias gerais do mundo, cuidados domésticos. Uma responsabilidade e tanto. De fato, por vezes poderíamos assistir uma matéria sobre furúnculos antecedendo uma torta de bacon.

De um tempo para cá, surgiu na manhã global o programa “Bem Estar”. O programa versa sobre assuntos gerais relacionados à saúde, práticas de exercícios. Recebe especialistas e mantém um tom apocalíptico sobre os temas mais bestas como: lavar as mãos, posição na hora de dormir, coçar a cabeça. O programa mostrará a forma mais correta de fazer isso e advertirá que proceder de outras maneiras irá te matar.

No programa de hoje iremos discutir se frutas decorativas podem, ou não, fazer parte da alimentação.
A existência dos dois programas já criava um conflito entre os telespectadores. A impressão era que o “Bem Estar” seria apenas um quadro da Ana Maria Braga. Mas como tudo que é confuso pode sempre piorar, ainda surgiu a Fátima Bernardes na história. Ela desfez seu matrimônio profissional com Willian Bonner e passou a comandar outro programa matinal na Globo.

O Encontro com Fátima Bernardes é uma mistura entre entretenimento e jornalismo, o que não costuma a dar certo. Ela recebe convidados, músicos, atores, pessoas comuns, que contam histórias, relatam experiências e discutem temas de atualidade. Sim, eu concordo com você. Esses três programas poderiam ser muito bem resumidos em um único programa com uma hora e meia de duração, ao invés de ocuparem as três horas atuais.

Se esses programas fossem condensados em um só, iria, entre outras coisas, contribuir para a saúde mental dos roteiristas e pauteiros da Rede Globo. Imagine como não sofre os editores responsáveis por arrumar assuntos para esses três programas? Acredito que eles conversam entre si e que rola um stress quando se descobre que dois deles iriam discutir o tema “tipos de travesseiro”. Igual a quando duas amigas vão a festa com o mesmo vestido.

Em um momento surreal, tivemos um Encontro com Fátima, sem Fátima. Algo como o Rock in Rio Lisboa.
Sério, o Bem Estar já discutiu como lavar as mãos. A Ana Maria Braga já fez matéria de mais de 20 minutos sobre o parto humanizado. Só no programa de hoje, a Fátima discutiu operações policiais, greve de sexo, amizades rompidas. Não deve ser fácil montar uma pauta para esses programas, dia após dia.

Será que existe uma espécie de banco de pautas repetitivas?Algo como o Globo Repórter, que sempre varia na tríade “novas descobertas da ciência para a sua alimentação”, “as maravilhas da Amazônia, imagens inéditas do acasalamento da jiboia” e “Glória Maria viaja para um país exótico”.

Quanto tempo é preciso para que a escovação de dentes volte para o Bem Estar? Depois de hoje, quando é que uma operação policial voltará a ser discutida no programa da Fátima? Quando é que alguém vai mandar o Louro José calar a boca? Gostaria de saber.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Com certeza é câncer

A boa notícia é que o que você tem não é
câncer. A má notícia, é que mesmo assim
você vai morrer
A internet revolucionou a forma como o ser humano se relaciona com o conhecimento. Veja o exemplo dos trabalhos escolares. Antes, o aluno precisava ir até um local com uma enciclopédia, munido de caneta BIC e folhas de papel para transcrever todo o conteúdo sobre um tópico qualquer. Hoje, tudo o que o estudante precisa é de uma conexão com a internet e as teclas Ctrl C e V.

Todo o conhecimento humano, ou quase todo ele, está na internet. Estudos sobre a evolução do eletroencefalograma, a idade do Sílvio Santos, a discografia do Led Zeppelin, os resultados do campeonato carioca de 1948. Alguns cliques podem satisfazer toda a sua sanha assassina pelas mais variadas informações.

Não poderia deixar de ser diferente quando queremos buscar informações sobre um dos assuntos de maior interesse do ser humano: sua própria saúde. A internet democratizou a informação sobre as mais diversas doenças, desde as mais frequentes, até as mais raras. Existem sites especializados em dar diagnósticos exatos, baseados nos sintomas que você descreve. E não há dúvida de que o que você sente são os primeiros sinais de um câncer que irá te matar lentamente.

Jogue na internet o que você tem que provavelmente é febre, dor de cabeça, eventualmente alguma dor no corpo, uma mancha no corpo, talvez. Isso que você tem é câncer. Não dá para saber exatamente em que parte do corpo é que está esse seu câncer, mas o tumor já está crescendo lentamente dentro de você e irá te provocar muita dor e sofrimento.

Ok, talvez não seja câncer. Mas é uma doença terrível. Pode ser que você esteja com diverticulite, leishmaniose, tétano, gonorreia, tuberculose. Não importa a doença, o seu destino será sempre o mesmo: uma morte lenta e terrível.

Na melhor das hipóteses, será um simples resfriado. Mas, que se não for tratado, logo irá evoluir para uma pneumonia, seus pulmões se encherão de secreção e você vai começar a tossir seus alvéolos, seu pulmão irá sair pela boca, numa morte, adivinhem, lenta e dolorosa. Candidíase? Irá corroer seu sistema reprodutor, atingirá todos os órgãos internos e você morrerá por dentro.
Dr. Drauzio tem um site que mostra que você vai morrer de câncer.

A internet é um paraíso para os hipocondríacos e acredito que os médicos devem estar sofrendo bastante com os pacientes que aparecem desesperados dizendo que viram na internet que eles vão morrer e nisso vai um tempão até o médico explicar que não há motivos para desespero que isso tudo não passa de uma virose.

Mas é assim. A maior parte das doenças, seja gripe, dengue, ebola, leucemia, começam com febre, dor de garganta e moleza no corpo. O tempo e o tratamento é que irão dizer se você ficará espirrando por alguns dias, ou se você começará a suar sangue. Geralmente você só vai ficar espirrando mesmo.

Se fosse algum sintoma mais grave, do tipo, todas as unhas da sua mão caíram de repente, ou, está saindo sangue pelo seu ouvido, ou, nasceu um nódulo na sua coxa e ele cresceu e passou a conversar com você, com certeza você iria ao médico direto sem perguntar na internet o que é que está acontecendo. Deixe o testamento para depois.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Torcida Eleitoral

Depois de alguns debates interessantes no primeiro turno destas eleições, os encontros do segundo turno tem sido modorrentos. Também pudera, o formato com os dois se perguntando mutuamente, transforma esse debate numa espécie de Discussão de Relacionamento interminável. Um dos dois tenta mudar de assunto, mas o outro volta a questões que pareciam encerradas, mas que não cicatrizaram. Os dois trazem de volta assuntos do passado que já pareciam esquecidos. É bem irritante.

O fato de que os dois se confrontarem olho no olho, aumenta ainda mais o ódio entre os seus seguidores, que se comportam como verdadeiros torcedores dos candidatos. No meu caso, de um eleitor neutro que não enxerga o MAL e o BEM personificados metafisicamente em nenhum dos dois candidatos, essa percepção da torcida fica patética em alguns momentos.
Aqui tem um bando de louco! Louco por ti, ó Dilma! Praqueles que acham que é pouco! Eu vivo por ti, ó Dilma!

Acontece muito de você estar vendo o debate e pensar “ih, Dilma, nessa você foi mal”. E então se depara com um comentário “ESSA FOI NO FÍGADO, DILMA ESTÁ MASSACRANDO O AÉCIO”. Ou ao contrário, quando você vê o Aécio falando uma proposta demagoga e sem nenhum sentido e se depara com um “AÉCIO 7X0 NA DILMA!”. Também acontece de no momento em que você vê um candidato mandando bem numa resposta, se deparar com um opositor sacramentando que a fala foi grotesca.

E isso não tem como ser mudado. O ser humano é assim, passional em determinados momentos e quando ele se envolve em alguma coisa, não há o que fazer. Não há como impedir que as pessoas falem merda na internet, uma vez que merda é o combustível da internet.

Acredito até que as torcidas podem se tornar a grande salvação dos debates deste segundo turno. Ao invés de ficarem no Twitter, elas deveriam ser colocadas nos estúdios onde as discussões são realizadas. Acabaríamos com essa história de que a plateia não pode se manifestar, deixando com que vaias, gritos de guerra, apupos e xingamentos fossem liberados.
Vamo Aécio! Vamos ser eleitos, vamos Aécio! Minha maior paixão, vamos Aécio! E essa eleição nós vamos ganhar!

Podemos imaginar a torcida do PT gritando “Ole-lê, ola-lá, Dilma vem aí e o bicho vai pegar” antes das perguntas. A torcida do PSDB vaiando a presidente durante a sua fala, xingamentos do mais baixo calão e que afetem e muito a honra dos envolvidos. O mediador seria xingado de filho da puta. Em um glorioso momento, a torcida poderia até atirar radinhos de pilha, tomates ou sapatos em um dos dois candidatos, ocasionando na perda de pontos percentuais na próxima pesquisa.

Diante de um mau desempenho do seu candidato, a torcida poderia gritar “vergonhaaa, vergonhaaaaa, candidato sem vergonhaaa”. E claro, no final do debate, as torcidas se encontrariam no metrô e provocariam uma carnificina. Diria até que isso pode salvar o debate e também a internet.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Coisas que o dinheiro não compra

Já faz algum tempo que alguma agência publicitária criou uma campanha com o slogan “existem algumas coisas que o dinheiro não compra, para todas as outras existe Mastercard”. Com forte apelo emotivo, não dá pra negar que a ideia foi muito boa e até hoje está na memória afetiva de muitas pessoas.

Como nem a melhor das campanhas publicitárias resiste muito tempo, o mote foi sendo alterado aos poucos, dando sempre a entender que nessa vida você não precisa de muita coisa além de um mastercard na carteira. É o que demonstra a propaganda a seguir, ainda em cartaz nas televisões brasileiras.



A ideia do comercial é chamar a atenção para o cachorrinho bonitinho e amolecer o seu coração em busca de consumismo frenético. Mas, o comercial tem um lado oculto e perverso.

O simpático cãozinho é, na verdade, a própria encarnação do demônio. Veja que ele é capaz de puxar o pano de uma mesa cheia de pratos e panelas e que ele faz isso em poucos segundos, mais rápido do que qualquer ser humano faria. Observe que ele desligou a energia da casa apenas para acabar com a diversão da família. Não duvido que ele aproveitaria a escuridão para realizar uma execução sumária.

O pior, é que o cachorro satânico não teria dificuldade em realizar o seu plano. A família é completamente retardada. Que casa é essa em que é possível desligar toda a energia retirando um cabo da tomada? Não tem um quadro de distribuição? E, ao invés de recriminarem o cachorro destruidor, eles acham superdivertido e o recompensam.



Pouco tempo depois, surgiu a sequência desse comercial, mostrando agora a família em férias. Percebe-se novamente a falta de limites. O que você acharia de ter uma filha que utiliza termos como “máster bláster?”.

Pois bem, a família estava lá se divertindo, tirando selfies com comida. As fotos são misteriosamente enviadas para um computador misteriosamente ligado na casa da família em férias. Este computador estava ligado para que o cachorro pudesse ver as fotos. Oras, todos nós sabemos que cachorros não conseguem interagir com telas e seriam incapazes de reconhecer rostos na tela de um computador. Exceção feita a... um cachorro possuído pelo capeta.

E esse cachorro está sozinho dentro de casa! A família sai de férias e deixa a casa nas mãos do Cão, com duplo sentido. Um risco enorme. Em breve a Mastercard irá terminar essa trilogia da seguinte forma.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Grande Prêmio da Rússia

O Circo da Fórmula 1¹ chegou na Rússia, neste último final de semana. O território soviético foi uma das últimas fronteiras alcançadas pela maior categoria do automobilismo mundial, que já passou por China, Índia, Mundo Árabe, Turquia. Mas, a Rússia sempre representa um desafio imponente, já que é o maior país do mundo em extensão territorial, uma potência esportiva e militar, protagonista da política internacional.

A cidade escolhida para receber a corrida foi Sochi, localizada na região sudoeste do país, na beira do mar negro. A cidade recebeu os Jogos Olímpicos de Inverno, em algum momento desse ano, evento que ficou eternizado pela aberração das privadas duplas e quádruplas. Mesmo assim, havia expectativa para a corrida. Russos adoram dar demonstrações públicas do seu poder.

Uma tradição que vem desde os tempos da União Soviética. Aquele que um dia já foi o maior país comunista do mundo, terra de dezenas de vilões hollywoodianos e sobre o qual pouco sabíamos. Apenas conhecíamos seu gosto estranho por descer montanhas em carrinhos abertos, atingindo altas velocidades. Terra também de uma brincadeira perigosa, na qual um grupo coloca uma bala no tambor de um revólver e então se atira contra a própria cabeça, até o momento em que a bala é engatilhada e a pessoa morre com os seus miolos esparramados pela rua.

Hoje em dia as coisas já não são assim. Sabemos muito da Rússia, que aderiu fortemente ao capitalismo, se tornando uma das pátrias com a maior concentração de bilionários do mundo, muitos deles frutos de golpes em antigas empresas estatais. Um país que continua sendo bem ortodoxo em suas decisões, que não hesita em invadir um teatro e matar os espectadores/reféns para matar também os sequestradores. Um país que não tolera homossexuais e que costuma a ser bem rígido contra quem, digamos, conspira contra a pátria.

A forma preferida dos russos para executar seus inimigos é com veneno. Não, não se trata simplesmente de colocar raticida na comida do cidadão e vê-lo agonizar até a morte. É algo muito mais sútil e específico. Coloca-se a substância mortífera em algum objeto cotidiano, como um frasco de adoçante, um vidro de perfume, loção de barbear. Sutilmente, o envenenado começa a sentir os sintomas, como cansaço, dormência nas extremidades do corpo, feridas aleatórias, perda de coordenação motora, alucinações, suar sangue, até que o sistema nervoso para de funcionar de vez e a morte chega.

O maior símbolo dessa nova Rússia é o seu presidente Vladimir Putin. Ele assumiu o comando do país no lugar de Boris Yeltsin, um bonachão velhinho que curtia uma vodca e eventualmente aparecia completamente embriagado em eventos públicos. Putin se reveza entre os postos de presidente e primeiro ministro e, se quisesse, se tornaria um Czar. Basicamente, ele faz o que quer.

Putin é um cara atlético e um tanto quanto exibicionista. Se você procurar na internet, achará facilmente fotos dele praticando os mais diversos esportes. Sendo goleiro de hóquei, jogando squash, praticando tiro, nadando borboleta em lagos gélidos, esquiando, sem camisa montando cavalos, caçando ursos, há uma foto dele montado em um urso, segurando-o pelas orelhas e, se bobear, comendo o cu do urso. O presidente russo também aparece como astronauta, piloto de avião, piloto de helicóptero e piloto de Fórmula 1.

Voltamos a Fórmula 1. A corrida, vocês já devem saber, foi o mesmo de sempre do que aconteceu em 2014. Domínio total da Mercedes, Lewis Hamilton vencendo com um pé nas costas, a transmissão da Globo tentando nos fazer acreditar que Felipe Massa tinha chances de vencer a corrida, Luís Roberto confundindo os nomes o tempo inteiro, a Globo insistindo em colocar Felipe Nasr para dar entrevistas no meio da corrida, como se alguém se importasse com ele. A única novidade foi a aparição flamejante de Vladimir Putin.

Geralmente, a transmissão da Fórmula 1 foca uma celebridade ou outra durante a corrida. Artistas, jogadores de futebol, ex-pilotos que estão de bobeira nos boxes. Mostra ali uma vez, e pronto. Chefes de estado dificilmente dão as caras na transmissão, até porque eles costumam a ficar em confortáveis áreas VIPs, ao invés de se misturar no meio dos mecânicos. Presidentes e primeiros-ministros só aparecem na hora de entregar os troféus.

Com Putin foi completamente diferente. No momento em que ele chegou ao autódromo, com a corrida praticamente definida e meio monótona, a transmissão cortou para ele sendo recebido por Bernie Ecclestone, o chefão da F1. Putin chegou acompanhado de, sem brincadeira, uns onze seguranças que no mínimo devem fazer parte do time de futebol que joga contra Putin, sozinho, em jogos que sempre terminam com vitórias do Vlad, porque senão, o perfume de alguém vai amanhecer com substâncias radioativas.

Depois da chegada do todo-poderoso-russo, a TV se revezava entre mostrar um carro andando sozinho na pista e a trajetória dele. Mostraram-no conversando animadamente com Ecclestone - Putin sem credenciais, afinal, se alguém negasse sua entrada, iria se ver com o seu cafezinho diário - em pé, depois numa arquibancada completamente vazia, onde Ecclestone segurava uma caixinha, que talvez fosse o pagamento pela corrida. Na cena seguinte, a arquibancada já estava cheia, talvez porque ele não tenha gostado de ter aparecido sozinho na TV e queria se mostrar no meio do povo. Mas, eu não descarto a hipótese de que toda aquela arquibancada estivesse cheia de seus seguranças.

Ao final da corrida, Putin foi até a área onde os pilotos esperam para ir ao pódio - nunca vi ninguém lá, para conversar com eles. Todas foram bem respeitosos - sabem o que acontece com quem faz pouco caso de Putin, e devem ter conversado sobre... a mãe Rússia. Ou algo do gênero. No pódio, em outra cena inédita para mim, Putin entregou o troféu para o vencedor da corrida e para o diretor da equipe. Nunca vi ninguém entregar duas taças na Fórmula 1 e por determinado momento achei que ele iria entregar todos os quatro troféus. Mas deve ter tido um surto de humildade.

Nenhum piloto jogou champanhe em Putin, porque todos sabiam o que ia aparecer nesse champanhe depois. Acredito que eles nem pensaram nessa hipótese, porque é provável que o russo leia pensamentos. Putin deixou o pódio sorrindo e com a certeza de que é melhor piloto que qualquer um daqueles lá. E esse foi mais um dia glorioso em sua vida.

Quanto a mim, só digo que não vou fazer a barba ao longo dessa semana e que sempre preferi sucos ao natural.

¹Por alguma razão, a grande mídia gosta de associar a Fórmula 1 a um circo, mesmo que ninguém jamais tenha notado um único palhaço, mágico, malabarista, trapezista ou domador de leões por lá. Talvez, a comparação surja pelo caráter itinerante da categoria, mas, existem tantos outros esportes assim e você nunca viu ninguém falar em o "Circo do Tênis".

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

COMENTÁRIOS RADICAIS


Sempre gosto de me lembrar das eleições disputadas em 2004 em Cuiabá. Naquele ano, criou-se um verdadeiro clima de guerra entre adeptos de Wilson Santos do PSDB e Alexandre César do PT, que disputavam o segundo turno para a prefeitura. Cabos eleitorais se enfrentavam em trincheiras no centro da cidade, bandeiraços terminavam em pancadaria e amizades eram desfeitas o tempo todo. Foi o mais próximo que nós já chegamos de presenciar uma guerra civil.

A Guerra Civil, vocês sabem, é muito melhor do que discussão na internet. Em uma Guerra Civil, o grupo perdedor é massacrado, enquanto que na internet o grupo perdedor – se ele existir – continua vivo e participando de discussões merdas na semana seguinte. Imagine a Segunda Guerra Mundial hoje em dia? Seria marcada por Hitler xingando muito no Facebook.

O triste é quando a discussão merda é sobre as eleições presidenciais. Sim, as redes sociais são tão desprezíveis que até o futuro do país se transformar numa discussão escrota, na qual as únicas pessoas com bom senso sentem vontade de se isolar completamente do mundo. O fato é que essa é a primeira eleição presidencial com o Facebook ocupando papel central na vida dos brasileiros, potencializando várias discussões bizarras.

O tempo todo, o tempo todo, temos 25 motivos para não votar em Aécio, outros para não votar em Dilma, recortes de jornais que comprovam que o Brasil saiu do inferno para o paraíso ou vice e versa. Tudo isso acompanhado de muita intolerância, militância xiita e ofensas pessoais. Não está fácil viver.

Por isso, que o CH3, seguindo sua tendência, estimula ainda mais radicalismo. Conclamamos as pessoas que se irritam com essa discussão toda, a bagunçar a coisa ainda mais. Precisamos fazer comentários políticos radicais em postagens sobre assuntos aleatórios.

Aquele seu amigo que só compartilha coisas contra a Dilma, aquele mesmo, monitore a sua página. No dia em que ele compartilhar alguma notícia sobre cachorro sendo resgatado, comente: “POR ISSO QUE EU VOTO NA DILMA NO GOVERNO FHC OS CACHORROS NÃO ERAM RESGATADOS DILMA 13 PARA CONTINUAR MUDANDO O PAÍS”. Certifique-se de ativar a tecla Caps Lock e não use vírgulas, porque isso dará um tom mais extremado aos seus comentários.

Se o cidadão responder a você, eleve ainda mais o tom. “VOCÊ É MANIPULADO PELO PIG NÃO CONSEGUE VER A VERDADE OS AVANÇOS NÃO PODEM PARAR DILMA 13 PARA UM BRASIL DE TODOS”.

A mesma lógica vale no caso inverso, daquele seu amigo, aquele outro, que não para de postar contra o Aécio e a favor da Dilma. Não hesite ao vê-lo falando alguma coisa sobre a derrota do time de futebol dele. “DILMA ESTÁ ACABANDO COM O FUTEBOL BRASILEIRO ELA E ESSES PETRALHAS APOIAM OS DESMANDOS E POSSIBILITAM DERROTAS COMO ESSA AÉCIO 45 PRA MUDAR”.

Como sempre, é possível replicar. “SEU PETRALHA IMUNDO APOIADOR DE CORRUPTOS QUER CONTINUAR VENDO OS DESMANDOS DO GOVERNO MAIS SAFADO QUE ESSE PAÍS JÁ TEVE AÉCIO 45 É A ÚNICA SOLUÇÃO”.

Perceba, que é possível fazer comentários positivos e negativos para qualquer candidato em qualquer situação. Você já deve ter visto o vídeo de um cachorrinho que aprende a descer a escada com a ajuda de outro cachorro mais velho. Pois, é possível comentar pró-Dilma “ESSE VÍDEO MOSTRA QUE É PRECISO UM GOVERNO FORTE PARA AJUDAR OS MAIS NECESSITADOS AO INVÉS DE UM GOVERNO PRECONCEITUOSO A FAVOR DOS PODEROSOS DILMA 13 AJUDANDO O POVO SEMPRE”, ou pró-Aécio “ISSO MOSTRA QUE É PRECISO ENSINAR A PESCAR AO INVÉS DE DAR O PEIXE COMO O GOVERNO PETRALHA FAZ PRECISAMOS MUDAR ISSO E SÓ VAMOS CONSEGUIR COM AÉCIO 45 PARA ACABAR COM OS PRIVILÉGIOS DOS VAGABUNDOS”.

Até mesmo perguntas inofensivas como “será que chove”, podem ganhar comentários políticos extremistas. “VAI CHOVER SIM PORQUE DILMA ROUSSEFF ESTÁ TRAZENDO A ÁGUA PARA TODOS” ou “NÃO VAI CHOVER PORQUE OS PETRALHAS PREFEREM A SECA PARA ESTIMULAR O BOLSA-ESMOLA”.

Só com radicalismo é que vamos conseguir as mudanças que realmente precisamos. Se não der certo, ainda resta a alternativa de bloquear a pessoa.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O que acaba com o mundo é o Instagram

No último domingo, uma porrada de brasileiros saiu às ruas para participar da festa da democracia. Como toda boa festa, ela acaba em ressaca para muito gente e em prisão para outros tantos. De norte a sul, milhares de pessoas foram presas pelos mais diversos crimes eleitorais, compra de votos, propaganda irregular e até mesmo por inofensivos selfies.

Sim, a onda do selfie é tão patética que deveria resultar em cadeia mesmo, mas o fato é que tirar foto do candidato em que você está votando na urna é crime. O voto é sigiloso e fotografar o seu candidato é uma das melhores maneiras de comprovar que você votou nele para receber benefícios financeiros por isso. A proibição de fotografar a urna é bem clara, mas várias pessoas registraram o ato – incluindo celebridades -, pararam num tumblr e algumas na cadeia.

Boa parte destes fotógrafos de urna não tinha nenhum objetivo criminoso. Eles queriam apenas postar essas fotos no Facebook e no Instagram. E aí é que está o problema. O Instagram é o grande mal do mundo. Ele é a rede social mais hedonista, niilista, nazista, passista, que existe. Se dedica quase exclusivamente a registrar os prazeres da vida para provocar inveja nas inimigas. O papel central que o Instagram ocupa na sociedade atual é uma das grandes razões para o mundo não evoluir.

Em junho do ano passado, as ruas brasileiras foram tomadas por centenas de milhares de manifestantes. Em todo o país as pessoas protestavam contra os mais diversos assuntos, vocês se lembram. Não eram apenas pelos 20 centavos, queríamos hospitais padrão FIFA, O Gigante Acordou, então apareceu o Mídio Ninja, O Pablo Capilé, os Black Blocks, enfim, vocês se lembram.

Apesar das manifestações terem conseguido algumas pequenas vitórias, pouco mais de um ano depois a sensação é a de que tudo continua igual. Uma sensação comum nesse mundo moderno, mas, a impressão é que a revolução das ruas morreu. E, se morreu, a culpa não é dos Black Blocks ou dos cubocards. A culpa é do Instagram mesmo.

Em pouco tempo, a difusa manifestação perdeu totalmente o foco e sua única razão de existir passou a ser postar fotos bacanas nas redes sociais que utilizam filtros que simulam defeitos clássicos de máquinas fotográficas antigas. A pessoa não sabia o que queria, mas passava dias planejando os cartazes que exibiria na rua. Os sites faziam galerias com as melhores frases, oficializando a revolta da hashtag.

Quando os protestos saem da rua e vão para a internet, eles simplesmente acabam. Tudo na virtualidade é efêmero e dura pouco. Os memes, as polêmicas merdas da semana. Sete dias é o tempo máximo que um assunto dura na internet. Sete dias é o tempo para o Luciano Huck aderir ao tema e acabar com tudo. Sim, Luciano Huck é uma espécie de catalisador da futilidade mundial e aposto que uma foto dele no instagram com um cartaz engraçadinho foi o que fez as pessoas voltarem para casa.

To be or not to be, já diria uma dessas bichonas personagens de Shakespeare. Ser ou não ser, mas que numa tradução ruim poderia ser “estar ou não estar”. No mundo de hoje tudo se baseia em estar lá. As pessoas vão em um show do Paul McCartney não porque admiram sua música – também por isso, às vezes, mas para estar lá. Tirar uma foto, colocar no instagram e dizer que foi lindo.

Se o Instagram fosse uma invenção mais antiga, é bem provável que a humanidade não chegasse aonde chegou. O Titanic teria afundado porque o capitão se distraiu tirando uma selfie. A Revolução Francesa não degolaria cabeças absolutistas porque o povo iria ficar fazendo check-in na bastilha. Quantas guerras não seria perdidas por pessoas postando fotos? Ninguém subiria o Everest porque lá não tem sinal de 4G para enviar a foto. Qual é a graça de subir uma montanha se você não puder contar para o mundo que está lá?

Tirar uma foto, dizer que estava lá. Era isso que movia as pessoas que tiraram fotos da urna eletrônica, com cartazes engraçados ou em um show qualquer. É isso que move o mundo para a ruína.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ressaca Eleitoral

Você acorda com uma leve dor de cabeça e a boca seca. O corpo ainda parece cansado e a sensação é que você apanhou de alguém. O estômago está um pouco embrulhado e se você não descarta totalmente a hipótese do suicídio para resolver essa situação. Você está de ressaca.

Só que você para e pensa, raciocinando em baixa frequência para o cérebro não doer. Você não bebeu no dia anterior. Pelo menos você não lembra disso. Será que a sua situação está tão trágica que você sequer lembra que saiu para beber? Não é possível, no dia anterior você se lembra de que...

Que você ficou em casa acompanhando a apuração das eleições nacionais. É isso. Você viu aquela série de políticos profissionais, fichas-sujas, filhos de políticos que herdaram a profissão no sangue. Viu que homofóbicos, violadores dos direitos humanos, defensores da família e racistas vão para a Câmara Federal.

Isso tudo caiu como uma bomba. Você está de ressaca eleitoral e não descarta totalmente a hipótese do suicídio para resolver a situação.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Debate Gourmet

A pergunta era de tema livre e Aécio Neves surpreendeu. Disse que Marina Silva prometia acabar com a fome, mas que seria saber se ela sabia agir na prática. Perguntou se ela sabe como fazer um bom pirarucu assado.

Marina respondeu que sim, tinha uma receita que era de comer rezando. Tem uma técnica para tirar o espinho com apenas dois cortes, sem precisar retalhar o peixe. Seu tempero é especial, aprendido em sua infância humilde e que ela foi aperfeiçoando com o passar dos tempos.

Na réplica, Aécio, apontou as contradições de Marina, que ela tem boas intenções, mas não sabe como fazer o prato. Aécio pôs se a explicar que ele pega sua faca e amola ela durante duas horas, que dá até para fazer a barba com ela. Faz um corte transversal no peixe, do começo até o fim. Milimetricamente perfeito, parece medido com uma régua. Depois ele adiciona o peixe em uma espécie de pré-tempero, antes de fritá-lo, com o óleo fervendo e seu tempo se encerrou.

Marina treplicou que essa receita demora muito tempo para ser feita e que não é viável em um país com milhares de famintos. Que é por isso que ela pretende fazer uma nova cozinha, diferente da velha cozinha praticada pelo PT e pelo PSDB.

O debate seguiu, com Levy Fidélix perguntando para Luciano Genro sobre o que ela acha da união afetiva entre o homem e o aerotrem, porque a candidata, que se considera tão defensora dos diferentes, não menciona nada em seu plano de governo sobre pessoas que se relacionam com objetos inanimados.

Luciana pediu desculpas e mudou de assunto. Disse que não era possível ficar calada diante da discussão protagonizada por Aécio e Marina. Que os dois falam do pirarucu, como se toda a população brasileira tivesse acesso a esse peixe, disponível apenas na Baía Amazônica e mesmo assim, por preços exorbitantes. Que é de pleno conhecimento das pessoas que a melhor maneira de se comer pirarucu é fazendo cortes longitudinais e depois dispondo-os em formas de camada, mas que isso pouco importa a população, que quer saber de arroz e feijão, ao contrário do que discutem os candidatos dominados pelo capital financeiro.

Levy Fidélix replicou que isso é verdade. Que quando você anda na Avenida Paulista, a coisa é um horror. Vemos nossas cidades invadidas por food trucks, versões metidas a besta de carrocinhas de comida, lugares que vendem hambúrgueres por mais de 30 reais. Onde é que isso vai parar! Em 2014 a população vai gastar 45 BILHÕES de reais em comida superfaturada, que irá alimentar apenas o cofre dos banqueiros.

No tempo restante, Luciana Genro voltou a falar que a população quer saber como fazer uma galinha caipira, um bom bife. Pediu o estímulo aos programas como o da Palmirinha, que ensina a culinária do povo, em detrimento aos grandes chefs internacionais, com seus pratos monstruosos e caros.

A bola passou então para Eduardo Jorge. Ele perguntou para Dilma Rousseff, já que os candidatos falavam sobre comida, quais eram as suas propostas para reduzir a produção de lixo e lembrou também a questão do óleo, que precisa ser precificado. Falou que é possível cozinhar sem óleo, existem maneiras mais saudáveis, para a pessoa e para o meio ambiente.

Dilma respondeu que seu governo tem propostas concretas para preparar pirarucu sem a utilização de óleo. Que o Brasil é o maior produtor de pirarucu do mundo, graças ao incentivos que seu governo tem dado aos pescadores. Vai criar o Mais Peixe, levando pirarucu para a mesa dos brasileiros carentes em todas as regiões do Brasil. Seu tempo estourou.

Eduardo Jorge disse que a agricultura é fundamental para o ser humano. Não se furtou em dizer que sua receita ideal de peixe envolve o uso de papel alumínio, que pode ser reciclado. Concluiu dizendo que seu peixe é de comer chorando.

Finalizando sua participação, Dilma disse uma série de coisas que ninguém entendeu até ser interrompida porque seu tempo havia terminado.

Ainda sobrava o Pastor Everaldo, cujo partido tem um peixe em seu símbolo. Para a surpresa de todos, ele resolveu perguntar para Aécio Neves. Lembrou que tem uma grande experiência no preparo de peixes, de água doce e água salgada, que seu partido, inclusive, inventou o bolsa-peixe enquanto esteve a frente do Ministério da Pesca. No entanto, queria saber mais sobre a receita de Aécio para o Pirarucu.

Aécio voltou a lembrar que é preciso deixar o peixe no pré-tempero, enquanto o óleo ferve. Colocar o peixe no óleo fervente, enquanto você utiliza o pré-tempero para fazer o molho. Disse que a receita vai estar no seu plano de governo, caso ele seja eleito. Quando o peixe estiver fritinho, você tira ele e forra no fundo de uma tigela, cobrindo-o com o o molho, depois mais uma camada de peixe, e mais molho.

Pastor Everaldo disse que não podia esperar para comer essa receita e desafiou todos para um desafio de culinária.

Desafio aceito, eles partiram para a cozinha de Ana Maria Braga. O melhor preparador de pirarucu será eleito o novo presidente do Brasil.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Frases Vazias do Futebol

- E aí Marcinho, como você analisa a atuação da equipe no primeiro tempo?
- Olha, a gente não está jogando mal, infelizmente estamos errando o último passe, mas agora é conversar pra resolver isso.
- Dá pra reverter o placar?
- Com certeza, o adversário jogou nos nossos erros e nós acabamos tomando o gol na hora errada. Agora é escutar o professor e voltar firme em busca dos três pontos.
- Mesmo com o time levando de 5x0?
- Com certeza, no futebol tudo é possível, da mesma forma que eles fizeram cinco gols na gente, a gente pode fazer cinco gols nele.

Há quem diga que os clichês são verdades que foram esvaziadas pela repetição interminável. Há quem diga que os clichês reduzem situações para projeções predeterminadas. Há quem diga que os clichês são fenômenos que provocam a metamorfose da realidade transfigurada em raios luz. O fato é que a liberdade de expressão é uma garantia constitucional, portanto, pessoas podem dizer várias coisas.

O futebol é uma área propícia para a propagação de frases prontas que são incrivelmente vazias e que, se analisadas mais profundamente, não fazem o menor sentido. O Marcinho, do começo do texto, falou varias delas.

“O time está errando o último passe”.
Jogadores e comentaristas gostam de utilizar essa frase para dizer que o time está errando aquele passe decisivo, genial, que irá proporcionar o gol. Mas o fato é que todo passe errado é o último. Não há um novo passe, depois de um passe errado. Não importa se ele foi na pequena área, no meio de campo, ou no vestiário.

“Tomamos o gol na hora errada”
Frase clássica que tem “o gol saiu na hora certa” como sua antônima. Jogadores utilizam essa frase para falar que o gol abateu a equipe. O fato, é que o objetivo do futebol é marcar a maior quantidade de gols possível, levando a menor quantidade possível. Sim, isso é impossível, mas o fato é que não há uma hora boa para levar um gol, muito menos uma hora certa.

“Jogando no erro do adversário”
Perceba que todo gol da história da humanidade surgiu em algum erro. Seja do goleiro que empurrou a bola para dentro do gol, do zagueiro que furou, do atacante que em determinado momento perdeu uma bola. Se não houvesse erro, o futebol seria 0x0. Ou não, porque isso implicaria em erros de finalização. O futebol é um jogo basicamente de erros.

Existem outros exemplos.

“Pênalti é loteria”
O pênalti é um tiro direto feito a 11 metros da linha do gol, com apenas o goleiro adversário na sua frente. A loteria é um sorteio de números que dá um prêmio para os apostadores. Convenhamos que é muito mais fácil fazer um gol de pênalti.

“Futebol é uma caixinha de surpresas”
Frase que é o ápice do clichê vazio. Combina aquele ar de verdade intocável com o uso de uma palavra no diminutivo, o que sempre deixa a frase ridícula. Uma caixinha de surpresas seria algo do qual você não sabe o que esperar. No futebol, você sabe o que vai acontecer: 22 jogadores mediados por outros três, jogando com uma bola. Não há a menor possibilidade de leões invadirem o gramado e manterem relações sexuais com o bandeirinha.

“2x0 é um placar perigoso”
Diz-se isso para falar que um placar de 2x0 não garante a vitória. Realmente não garante, mas é muito melhor estar vencendo por dois gols de diferença do que estar perdendo por dois gols de diferença. Fora isso, perigoso é ser jornalista americano no Iraque.

“Quem não faz leva”
Frase que tenta adicionar um carma ao futebol, gerando uma punição instantânea para quem comete um erro. Convenhamos: já vimos vários jogos em que o time perde uma dezena de gols antes de marcar o tento vencedor e nessas oportunidades ninguém fala “é isso, aí, quem não faz uma hora acaba fazendo”.

“Quando não é pênalti, não entra”
Outra frase que tenta criar um espírito de justiça divina ao resultado do jogo de futebol. Se o juiz erra, deus acerta e não beneficia quem não merecia. Pois bem, se isso fosse verdade nenhum pênalti do campeonato brasileiro entraria.