segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Grande Prêmio da Rússia

O Circo da Fórmula 1¹ chegou na Rússia, neste último final de semana. O território soviético foi uma das últimas fronteiras alcançadas pela maior categoria do automobilismo mundial, que já passou por China, Índia, Mundo Árabe, Turquia. Mas, a Rússia sempre representa um desafio imponente, já que é o maior país do mundo em extensão territorial, uma potência esportiva e militar, protagonista da política internacional.

A cidade escolhida para receber a corrida foi Sochi, localizada na região sudoeste do país, na beira do mar negro. A cidade recebeu os Jogos Olímpicos de Inverno, em algum momento desse ano, evento que ficou eternizado pela aberração das privadas duplas e quádruplas. Mesmo assim, havia expectativa para a corrida. Russos adoram dar demonstrações públicas do seu poder.

Uma tradição que vem desde os tempos da União Soviética. Aquele que um dia já foi o maior país comunista do mundo, terra de dezenas de vilões hollywoodianos e sobre o qual pouco sabíamos. Apenas conhecíamos seu gosto estranho por descer montanhas em carrinhos abertos, atingindo altas velocidades. Terra também de uma brincadeira perigosa, na qual um grupo coloca uma bala no tambor de um revólver e então se atira contra a própria cabeça, até o momento em que a bala é engatilhada e a pessoa morre com os seus miolos esparramados pela rua.

Hoje em dia as coisas já não são assim. Sabemos muito da Rússia, que aderiu fortemente ao capitalismo, se tornando uma das pátrias com a maior concentração de bilionários do mundo, muitos deles frutos de golpes em antigas empresas estatais. Um país que continua sendo bem ortodoxo em suas decisões, que não hesita em invadir um teatro e matar os espectadores/reféns para matar também os sequestradores. Um país que não tolera homossexuais e que costuma a ser bem rígido contra quem, digamos, conspira contra a pátria.

A forma preferida dos russos para executar seus inimigos é com veneno. Não, não se trata simplesmente de colocar raticida na comida do cidadão e vê-lo agonizar até a morte. É algo muito mais sútil e específico. Coloca-se a substância mortífera em algum objeto cotidiano, como um frasco de adoçante, um vidro de perfume, loção de barbear. Sutilmente, o envenenado começa a sentir os sintomas, como cansaço, dormência nas extremidades do corpo, feridas aleatórias, perda de coordenação motora, alucinações, suar sangue, até que o sistema nervoso para de funcionar de vez e a morte chega.

O maior símbolo dessa nova Rússia é o seu presidente Vladimir Putin. Ele assumiu o comando do país no lugar de Boris Yeltsin, um bonachão velhinho que curtia uma vodca e eventualmente aparecia completamente embriagado em eventos públicos. Putin se reveza entre os postos de presidente e primeiro ministro e, se quisesse, se tornaria um Czar. Basicamente, ele faz o que quer.

Putin é um cara atlético e um tanto quanto exibicionista. Se você procurar na internet, achará facilmente fotos dele praticando os mais diversos esportes. Sendo goleiro de hóquei, jogando squash, praticando tiro, nadando borboleta em lagos gélidos, esquiando, sem camisa montando cavalos, caçando ursos, há uma foto dele montado em um urso, segurando-o pelas orelhas e, se bobear, comendo o cu do urso. O presidente russo também aparece como astronauta, piloto de avião, piloto de helicóptero e piloto de Fórmula 1.

Voltamos a Fórmula 1. A corrida, vocês já devem saber, foi o mesmo de sempre do que aconteceu em 2014. Domínio total da Mercedes, Lewis Hamilton vencendo com um pé nas costas, a transmissão da Globo tentando nos fazer acreditar que Felipe Massa tinha chances de vencer a corrida, Luís Roberto confundindo os nomes o tempo inteiro, a Globo insistindo em colocar Felipe Nasr para dar entrevistas no meio da corrida, como se alguém se importasse com ele. A única novidade foi a aparição flamejante de Vladimir Putin.

Geralmente, a transmissão da Fórmula 1 foca uma celebridade ou outra durante a corrida. Artistas, jogadores de futebol, ex-pilotos que estão de bobeira nos boxes. Mostra ali uma vez, e pronto. Chefes de estado dificilmente dão as caras na transmissão, até porque eles costumam a ficar em confortáveis áreas VIPs, ao invés de se misturar no meio dos mecânicos. Presidentes e primeiros-ministros só aparecem na hora de entregar os troféus.

Com Putin foi completamente diferente. No momento em que ele chegou ao autódromo, com a corrida praticamente definida e meio monótona, a transmissão cortou para ele sendo recebido por Bernie Ecclestone, o chefão da F1. Putin chegou acompanhado de, sem brincadeira, uns onze seguranças que no mínimo devem fazer parte do time de futebol que joga contra Putin, sozinho, em jogos que sempre terminam com vitórias do Vlad, porque senão, o perfume de alguém vai amanhecer com substâncias radioativas.

Depois da chegada do todo-poderoso-russo, a TV se revezava entre mostrar um carro andando sozinho na pista e a trajetória dele. Mostraram-no conversando animadamente com Ecclestone - Putin sem credenciais, afinal, se alguém negasse sua entrada, iria se ver com o seu cafezinho diário - em pé, depois numa arquibancada completamente vazia, onde Ecclestone segurava uma caixinha, que talvez fosse o pagamento pela corrida. Na cena seguinte, a arquibancada já estava cheia, talvez porque ele não tenha gostado de ter aparecido sozinho na TV e queria se mostrar no meio do povo. Mas, eu não descarto a hipótese de que toda aquela arquibancada estivesse cheia de seus seguranças.

Ao final da corrida, Putin foi até a área onde os pilotos esperam para ir ao pódio - nunca vi ninguém lá, para conversar com eles. Todas foram bem respeitosos - sabem o que acontece com quem faz pouco caso de Putin, e devem ter conversado sobre... a mãe Rússia. Ou algo do gênero. No pódio, em outra cena inédita para mim, Putin entregou o troféu para o vencedor da corrida e para o diretor da equipe. Nunca vi ninguém entregar duas taças na Fórmula 1 e por determinado momento achei que ele iria entregar todos os quatro troféus. Mas deve ter tido um surto de humildade.

Nenhum piloto jogou champanhe em Putin, porque todos sabiam o que ia aparecer nesse champanhe depois. Acredito que eles nem pensaram nessa hipótese, porque é provável que o russo leia pensamentos. Putin deixou o pódio sorrindo e com a certeza de que é melhor piloto que qualquer um daqueles lá. E esse foi mais um dia glorioso em sua vida.

Quanto a mim, só digo que não vou fazer a barba ao longo dessa semana e que sempre preferi sucos ao natural.

¹Por alguma razão, a grande mídia gosta de associar a Fórmula 1 a um circo, mesmo que ninguém jamais tenha notado um único palhaço, mágico, malabarista, trapezista ou domador de leões por lá. Talvez, a comparação surja pelo caráter itinerante da categoria, mas, existem tantos outros esportes assim e você nunca viu ninguém falar em o "Circo do Tênis".

Nenhum comentário :