quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Última parada: Paranatinga I

Tudo começou na semana passada. Vinícius Gressana informou que estaria deixando Cuiabá e se mudando para Curitiba na terça-feira do Carnaval. A mudança não era relacionada a nenhuma nova fase da Operação Lava Jato, apenas cumpria uma profecia feita em uma parte da bíblia conhecida como Êxodo.

Tudo estava para terminar ali, agora, na praça de Paranatinga. Eu, Vinícius e Tackleberry estávamos prestes a sermos executados por um grupo de populares revoltosos que descobriram que nós éramos os fundadores do malfadado blog CH3, aquela que certa vez difamou a cidade de maneira grotesca em um texto sobre o carnaval e que não se cansa de manchar a reputação desta nobre cidade.

Dizem que diante da morte, um filme de nossas vidas se passa em nossas cabeças. Posso garantir para vocês que isso é uma mentira absurda. Diante daquela multidão com tochas na mão eu só pensava que a população tinha os seus motivos. A vingança com as próprias mãos é sem dúvida a mais gloriosa forma de se vingar de alguém.

Também pensava que aquilo não poderia dar certo mesmo. Nós fomos muito inocentes em pensar que poderíamos ir até Paranatinga e sair de lá impunemente. Mas não poderíamos nos culpar também. A emoção falou mais alto e a vontade de oferecer uma grande despedida para Vinícius Gressana foi irresistível.

Saímos de Cuiabá no domingo de manhã, planejando assistir ao grande desfile das escolas do município naquela noite e sabíamos que deveríamos manter a discrição. Cogitamos até a utilização de fantasias, com um pretexto carnavalesco, mas decidimos que nossa honra estava acima de nossos medos, ou algo parecido. Afinal. Vinícius nunca mais iria voltar para Cuiabá e isso iria dificultar nosso amigos ocultos e nossos anos novos na Casa de Diversão Noturna Carnicentas. Bem sabíamos que ele não voltaria para Cuiabá, mas não imaginávamos que seríamos queimados em uma enorme fogueira na praça da cidade.

Parantinga, para quem não sabe, é uma cidade no médio-norte mato-grossense famosa por não ser famosa e que se localiza a uma latitude 14º25'54" sul e a uma longitude 54º03'04" oeste. Em 2006, Vinícius Gressana passou o carnaval na referida cidade e nunca mais foi a mesma pessoa. A experiência de passar 72 horas exposto a um telão tocando Crazy Frog mudou seu caráter para sempre. Em 2007, o CH3 cobriu o carnaval na cidade e o texto provocou um ódio generalizado da população, que nos transformou em personas não gratas por lá.

A viagem até Parantinga foi relativamente tranquila. Passamos por uma multidão alcoolizada em Chapada dos Guimarães, ultrapassamos Campo Verde e chegamos até Priamvera do Leste. Notamos a emoção de Gressana ao voltar na cidade em que ele viveu os piores anos de sua vida. Ele nos guiou por um breve tour pela cidade. Fomos até a casa em que ele morou, no colégio em que ele estudou, na esquina onde sofreu seu primeiro cuecão, na casa em que ele escutou pela primeira vez a música do mosquito. Anos atrás pensamos em ir até Pva do Leste apenas para procurar esse maldito CD, mas o youtube chegou antes de nós. Pensei em criar um Gressana Tour por lá.

Pensamos em abastecer, mas Tackleberry, que dirigia, nos garantiu que tinha combustível suficiente para superar os 150 quilômetros de viagem que ainda nos faltavam. Garantiu que seu carro era econômico. Abrimos um pacote de skinny e seguimos viagem.

O som tocava um pen drive com toda a discografia dos Benga Boys o que era uma grande maneira de se fazer uma viagem. Faltando trinta quilômetros para chegar no nosso destino, o carro de Tackleberry emitiu o sinal de que estava na reserva. Tackleberry manteve a frieza. Aliás, de uns tempos para cá, Tackle mudou seu visual e eu inclusive acho que vamos mudar seu nome para Derek Vinyard.

Felizmente, chegamos em Paranatinga às 11h45 do domingo. Acredito que o carro de Tackleberry já estava consumindo as últimas gotas de combustível. Estacionamos o carro em uma das seis ruas da cidade e comemos mais Skiny. O dia parecia que seria interessante.

Nenhum comentário :