segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Última parada: Parantinga IV

Sabe aquele segundo, talvez dois segundos, em que sua mente reconhece alguma coisa de algum lugar, mas não sabe exatamente de onde? Diante de uma cena seu cérebro começa a vasculhar sua memória e a história da humanidade para localizar o fato. Os anos de infância, memórias abruptas de Gerard Depardieu interpretando Cristóvão Colombo em 1492 – A Conquista do Paraíso, até que enfim você se lembra. Esse processo não dura mais do que dois segundos, mas parece uma eternidade.

Foi essa sensação que eu experimentei no momento em que vi aquela chuva de bala de caramelos. Conhecia aquilo em algum lugar, não era uma cena inédita na minha vida. Durante dois segundos minha mente passou pelos baratas voas na época do colégio, pelos papos de peru estourados, pela porra do Gerard Depardieu interpretando Cristóvão Colombo com aquela trilha sonora ao fundo, até finalmente me lembrar: Reveillon de 2014. Papai Noel.

Diz a lenda que durante uma confusão no Centro Político Administrativo, o Papai Noel chegou arremessando balas de caramelo e gingando capoeira. Na sequência, Hanz o Pansexual correu em direção as pessoas que brigavam, instalando uma enorme confusão, da qual nós nos safamos. As balas estavam ali e não havia a menor dúvida de que era o Papai Noel. É impossível que duas pessoas no mundo utilizem essa mesma tática para interromper brigas.

Não consegui ver se ele gingava capoeira. Nem sequer o via, já que eu estava amarrado. Mas era possível observar o espanto na cara das pessoas. Eu também ficaria espantado numa situação assim. Foi então que ele disse “Hohoho, seu bando de putinhas. Ninguém vai queimar ninguém aqui não”. No instante seguinte, antes que as pessoas conseguissem entender qualquer coisa, Hanz, o pansexual, correu nu em direção a multidão com tochas na mão.

Começou uma confusão generalizada que deveria envolver cerca de 200 pessoas contra apenas dois. Mas tenho que admitir que Papai Noel sabe como se portar em uma briga. Ele gira seu saco de brinquedos, talvez abastecido com pedras, de um lado para o outro e ninguém consegue atingi-lo. Hanz, por outro lado, espanta as pessoas. Ninguém quer brigar com outro homem nu, com medo de encostar em seu pênis mole.

A cena era realmente impressionante, mas estava eu pensando no que é que poderia acontecer comigo, com Vinícius e Tackleberry. Eles poderiam ficar ali brigando por horas e, enfim, nós continuávamos amarrados. Minha preocupação diminuiu apenas no momento em que Pai Jorginho de Ogum apareceu e começou a nos desamarrar. Desamarrou Tackleberry – que me desamarrou – e Vinícius.


Disse que precisávamos ser rápidos. Nos mandou correr e eu perguntei sobre eles. Jorginho disse que eles iriam se virar. Vinícius questionou que o carro estava sem combustível e Jorginho apontou para o galão que serviria para nos queimar. Ainda me entregou uma garrafa de Caninha 21 “isso aqui é álcool puro”, para dar uma partida rápida no carro. Corremos até a rua do outro lado da praça, em direção ao carro. Olhei uma última vez e vi Hanz montado na nuca de um cidadão tomado pelo horror.

Entramos no carro e pelo retrovisor vimos alguns cidadão correndo atrás de nós, até desistirem. Vimos eles parando de correr no mesmo momento em que o carro parou, sem combustível. Eles começaram a correr novamente e eu desci do carro para entornar a garrafa de caninha 21 no tanque. Arrancamos novamente quando eles estavam prestes a nos alcançar. Conseguimos escapar.

O combustível voltaria a acabar dali a cinco quilômetros, mas já tínhamos distância substância para abastecer o carro com o garrafão e seguir viagem. Tivemos uma volta tranquila, Vinícius separou um Pen Drive com o melhor da Dance Music dos anos 90.

Chegamos em Cuiabá perto da hora do almoço. Deixamos Vinícius em seu apartamento e nos despedimos para todo o sempre. Nunca mais iremos o ver novamente.

FIM

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