sexta-feira, 23 de outubro de 2015

De Volta Para o Futuro III

Enquanto esperávamos na sala de recepção do governador Tackleberry, Elemento X começou a me contar qual era o seu plano. De fato, só há um lugar na região de Cuiabá em que qualquer objeto pode se deslocar a mais de 80 km/h. Este local é a pista do aeroporto. Essa seria a única maneira que eu conseguiria para atingir a velocidade necessária para voltar a 2015. Só que não seria tão fácil assim.

Primeiro, eu teria que realizar o procedimento em um momento em que não houvesse aeronaves na pista, mas isso era simples. X tem a planilha de todos os voos e até já consultou, não sei quando, quais são os horários disponíveis. Daqui a pouco, entre 22h17 e 22h59 há uma brecha que nós podemos tentar. O problema é que não dá para entrar na pista do aeroporto com um veículo normal, seria impossível conseguir essa autorização. A única chance era tentar entrar pelo hangar do governador e por isso estávamos ali.

Perguntei então a Alfredo Humoyhuessos como é que funcionava essa dinâmica. Se eu estava tecnicamente morto, significava que eu não consegui voltar para o passado. Se eu conseguisse voltar agora, eu voltaria a viver e, logo, voltando a viver, eu não estaria tecnicamente morto, então, toda essa situação que está acontecendo agora deixaria de ocorrer.

Sim, me disse Humoyhuessos. Essa é a complexidade da viagem temporal. Cada pena que se movesse pelo tempo seria capaz de transformar toda a história da humanidade. Mas, perguntei, como é que faríamos. Se eu conseguir voltar para 2015, quer dizer que em 2041 eu posso ir lá na Júlio Campos e me encontrar comigo mesmo? O colombiano me disse que não. Ou que sim, dependendo de como fosse a nossa volta ao passado. Mas esse seria um grave problema que poderia fazer com que a história se deformasse a cada instante. Se isso acontecesse, eu poderia passar 26 anos vivo ou 26 anos morto, tudo ao mesmo tempo.

O tema era bastante complexo, mas Humoyhuessos me disse qual seria a solução. Ele programaria o relógio para que nós voltássemos ao passado alguns poucos segundos antes de realizar a viagem temporal. Daria tempo para que eu diminuísse a velocidade e permanecesse em 2015. Isso significaria que eu jamais estaria em 2041? Não nessa nova história escrita, eu teria estado em uma que jamais existiu. Eu impediria minha viagem no tempo por meio de outra viagem no tempo. As memórias vivenciadas ficariam comigo para todo sempre, mas todas as outras pessoas jamais teriam vivido os últimos 26 anos da forma como viveram, tudo será alterado. Então, esse momento de agora, jamais existirá para as outras pessoas que passaram pelo tempo de maneira normal.

Elemento X prestava bastante atenção naquele papo louco e eu falei para ele não se preocupar, porque nada daquilo jamais ocorreria, ele não precisaria escrever nenhum relatório sobre o assunto. Era difícil entender toda a situação. Estávamos arrumando um jeito para que tudo aquilo não acontecesse. Inclusive, Humoyhuessos me falou, minha volta ao tempo poderia fazer com que nenhuma das pessoas que ali estão conseguissem chegar nos cargos aonde hoje estão. A Coca Cola de soja poderia jamais existir, o PMDB não assumiria o poder do país. Assim como tudo pode acontecer. O tempo é um negócio muito louco.

Finalmente o governador Tackleberry nos chamou para sua sala. Parecia um homem bastante ocupado. Me cumprimentou surpreso e perguntou como é que eu estava, onde eu andei nesses últimos 26 anos. Realmente era difícil de explicar. Falei para ele que estava apenas tentando voltar ao passado e Elemento X explicou o plano. Tackleberry deu o aval e disse que nós poderíamos ir agora já, porque às 20h sempre tem um congestionamento de drones que faz o sinal da internet ficar fraco e o trânsito fica mais pesado.

Saímos todos no carro automatizado do governador, enquanto Elemento X deu instruções para que seu carro o encontrasse no aeroporto às 23h. Tackleberry começou a me contar sobre sua carreira política, o que é que aconteceu no país e no mundo nesses 26 anos. Eu ainda não devia saber que os Estados Unidos estavam sendo governados pela primeira vez por uma mulher lésbica - do partido republicano - e que há três anos atrás a Assembleia de Deus conseguiu comprar o Vaticano.

Me atualizei sobre o futebol e Tackleberry informou que a situação estava feia. Uma lei aprovada em 2021 obrigou todos os times a não terem dívidas e todos eles fecharam as portas. O futebol ressurgiu como uma modalidade disputada por clubes empresas e o time da AmBev era o atual octacampeão nacional. Mas, ninguém mais presta muita atenção nisso. "Já tá sabendo que o Brasil nem participa mais de copas, né? Criançada hoje só quer saber de futebol americano. O Cuiabá Arsenal vai disputar o tricampeonato mundial no fim do ano".

Chegamos até o posto de fronteira e eu resgatei o meu Gurgel. "Não acredito que isso ainda anda", disse Tackleberry. Sim, era difícil entender que o Gurgel ainda estava em 2015, mesmo estando em 2041. Fomos para o aeroporto.

Tackleberry liberou minha entrada no hangar e ainda faltavam duas horas para que eu pudesse retornar ao passado. Ele pediu um uísque e disse que o lado bom dos carros automatizados e que agora todo mundo podia beber e dirigir depois. O único problema é que vez por outra um bêbado acaba parando na casa da ex-namorada e aí alguém precisa chamar a polícia.

O tempo passou devagar. Claro, tudo poderia dar certo e todos seriam felizes para sempre. Mas, podia dar errado. Alguém podia interromper o procedimento ou por qualquer outra razão eu ficaria em 2041 para sempre. Ou, até o final de 2041, quando eu chegaria em 2042 e por ai em diante. Teria um longo e doloroso reencontro com pessoas que eu vi ontem, mas que não me veem há 26 anos. Acho que eu viraria matéria de jornal, seria entrevistado no Jô Soares. Ou não. Seria bem difícil me adaptar nesse mundo louco.

Quando a hora finalmente chegou, Alfredo Humoyhuessos programou a máquina e entramos no carro. Me despedi de Tackleberry e Elemento X e eles me desejaram uma boa viagem. X me indicou para ir com os faróis desligados até o fim da pista, quando eu poderia começar a acelerar. Assim eu fiz. Apertei o acelerador e vivi todas aquelas sensações novamente. As luzes da cidade foram se aproximando até se acenderem por completo e eu estava novamente em 21 de outubro de 2015 na Avenida Júlio Campos. O sol brilhava e o velocímetro marcava 118 km/h. Reduzi a velocidade a tempo, antes de entrar em um looping eterno de viagens no tempo. Todos nós nos olhamos aliviados, exceto Humoyhuessos que parecia já saber disso tudo há tempos.

Deixei todos na casa de Pai Jorginho de Ogum que se despediu dizendo que ia naquele dia mesmo anotar uma série de previsões para registrar no cartório. Certeza de que nada disso vai acontecer.

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