segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Terima Kasih

No coração de Arraial d’Ajuda, um pequeno vilarejo hippie no litoral sul da Bahia, há uma das lojas mais impressionantes da face da terra. Chamado Terima Kasih, o estabelecimento reúne uma arquitetura típica da bandeira do Camboja, artesanato de madeira com todos os animais possíveis, móveis de madeira luxuosamente entalhados, quadros religiosos assustadores e uma trilha sonora excêntrica. Sem dúvida, um passeio inesquecível.

Não é preciso dar muitas coordenadas para chegar à loja. Arraial d'Ajuda não é nenhuma metrópole e não há nada parecido com Terima Kasih em toda a simpática e acolhedora Rua do Mucugê. Quando você vir um templo budista, com espelhos d'água na porta, saiba que você está lá.

Logo na entrada há um cavalo feito com pedaços de madeira, na verdade, algo similar a um esqueleto de cavalo em madeira. Ainda existem todos os tipos possíveis de gatos esculpidos em madeira, elefantes, cães, macacos e se bobear, até ornitorrincos. A loja vende batas e sapatos típicos de personagens excêntricos de novelas da Glória Peres. Muita coisa para colocar incenso e uma escada entalhada que é, sinceramente, uma das coisas mais impressionantes que eu já vi na minha vida. O pobre coitado que entalhou aquela madeira deve ter trabalhado por dez anos ininterruptos.

Uma das vendedoras da loja disse que a escada, assim como vários itens da loja, é importada de Bali. Ainda há artigos da Indonésia e da Tailândia. O curioso, para quem não sabe, é que Bali é uma das ilhas da Indonésia, mas no mundo artesanal são tratados como dois lugares distantes. O nome de Bali, por si só, carrega toda uma misticidade que ajuda a vender esses artigos.

Como não poderia deixar de ser, a loja vende artigos religiosos. Muitas coisas relacionadas a Buda e Krishna, e há a inevitável pergunta para as vendedoras da loja se os donos são budistas ou algo assim e elas explicam que a loja não é budista. Realmente não é, mas, chamar algo de budista é uma boa maneira de categorizar toda a cultura de uma determinada região asiática.

Tanto a loja não é monoteica, que há um impressionante e assustador quadro de Jesus na parede. Em um primeiro momento, você apenas o nota de maneira engraçada, como se fosse um Jesus com um rosto meio estranho, meio com cara de restauração feita por Cecilia Gimenez. Logo você percebe que o quadro é uma mistura de escultura, o rosto de Jesus é feito em relevo. E logo você percebe que aquele quadro te persegue com os olhos.

É um feriado no Camboja e as pessoas vestem preto
Utilizando de modernas técnicas do ilusionismo óptico, o quadro é uma espécie de holograma e não importa de onde você esteja olhando: o Jesus do quadro vai olhar diretamente nos seus olhos. Se você subir uma escada ele te olhará lá em cima. Se você se deitar no chão ele vai olhar para baixo. Quando você passa pela calçada da loja - e você passa por lá muitas vezes nas caminhadas pela Rua do Mucugê, Jesus está te olhando de canto de olho. É realmente assustador. Ainda mais assustador caso você tenha bebido uma garrafa de vinho antes.

Fiquei por horas imaginando quem é que colocaria um quadro desses em sua casa para ter essa péssima sensação de ter alguém te olhando. Esse papo de que Deus/Jesus está sempre olhando por nós não pode ser assim tão literal. Sejamos sinceros, a taxa de natalidade do mundo despencaria se quadros assim estivessem espalhados pelas casas das pessoas.

Terima Kasih já seria uma loja suficientemente inesquecível por conta de todos os fatos descritos acima. Mas, há algo ainda mais inusitado: a trilha sonora.

Vocês devem imaginar, que essas lojas que vendem batas, artigos místicos orientais e tem um cheiro eterno de incenso, acabam por apostar em um disco da Enya e toda aquela porcaria New Age que inexplicavelmente fez sucesso em algum momento ali nos anos 90. Não era diferente em Terima Kasih, pelo o que os meus ouvidos escutavam.

Até que, repentinamente, uma melodia familiar invadiu meus ouvidos. Era Wish You Were Here do Pink Floyd. Mas, não a versão amigável com a voz de David Gilmour. Era uma voz grave, talvez um coral. Para dizer a verdade, sob o efeito da garrafa de vinho, eu tive certeza naquele momento que era o próprio buda cantando. Não era nenhuma reencarnação ou algo assim. Era a voz de buda que cantava "do you exchange, a walk part in a war for lead role in a cage".

Quando voltamos na loja no dia seguinte, ainda hipnotizados por tudo o que acontecia na loja, me deparei com outra música do Pink Floyd: dessa vez Comfortably Numb. Como não estava sob o efeito do vinho, não reconheci buda na gravação - infinitamente inferior a já clássica Wish You Were Here. Mas, dispus de um moderno aplicativo de celular para descobrir quem é cantava aquilo ali e descobri que era um grupo chamado “Gregorians”.

Ainda irei falar sobre os Gregorians, no próximo post. No momento em que soube da existência deles, fiquei contando as horas para voltar ao hotel e pesquisar sobre o que seria isso.

Antes, ainda passamos no caixa e elogiamos a trilha sonora. A vendedora falou que não sabia quem é que tocava, mas que diariamente, dezenas, talvez centenas, de pessoas, passavam pela loja e pediam para gravar as músicas. Caso nós quiséssemos, poderíamos trazer um pen drive que eles iriam nos transferir aquela abençoada playlist. É claro que não fizemos isso.

Até quarta, com os Gregorians.

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