quarta-feira, 2 de julho de 2014

Em Família Brasileira

Poucas pessoas se lembram, mas o primeiro beijo gay da televisão brasileira foi dado por Sílvio Santos e Gilberto Gil durante a apresentação do Teleton – o Criança Esperança do SBT. Durante uma maratona televisava para arrecadar fundos para pessoas com problemas físicos, artistas entravam e saiam, pessoas sem braços davam depoimentos e então o Gilberto Gil chegou lá e beijou o Sílvio Santos.

A repercussão do caso foi bem humorada, com notinhas nos jornais e tudo mais. Não foi nenhuma grande polêmica, até porque ninguém assistia o SBT nessa época. Ninguém acusou o Sílvio Santos de tentar destruir a família brasileira e ele continua aí até hoje. Por mais que, vai saber se aquela história do banco dele falindo não foi uma maldição divina.

Mesmo com esse fato precursor do Sílvio e do Gilberto, uma polêmica é criada toda vez que uma novela conta com um casal gay em seu elenco. E olha que atualmente todas as novelas tem um casal homossexual. Será que eles vão se beijar? Será que a sociedade brasileira está preparada para presenciar a cena de dois homens encostando os lábios em pleno horário nobre da Globo?

A polêmica nem deveria existir, porque, teoricamente, as novelas são simulações da realidade. E, na vida real, casais, gays ou não, se beijam. Também fazem muitas outras coisas, mas existem algumas restrições que não permitem que um coito seja exibido na hora do jantar. Quem é contra a exibição da cena homoafetiva, alega que um beijo entre dois homens é uma perversão equivalente a uma cena explícita de sexo anal entre um homem e um cavalo. A Família Brasileira não aceitaria isso.

A atual novela das 21h, ironicamente, se chama “Em Família”. Está sendo vendida como a última novela de Manoel Carlos e tenta nos convencer que a Bruna Marquezine pode se transformar na Julia Lemmertz. Também tem sido um fracasso de audiência e está sendo encerrada muito antes do previsto.

A trama da novela é um tanto quanto sórdida. Há um triângulo amoroso envolvendo uma mulher provocadora, seu namorado possessivo e o amigo que tenta sair da Friendzone. Há uma tentativa de homicídio e ocultação de cadáver mal sucedida, que resulta em um noivo sendo preso no altar. O amigo que quase foi enterrado vivo é salvo por um cachorro e se casa com a mulher provocadora, mostrando que o cara tinha lá sim suas razões para ter ciúme. Eles têm filhos e vão viver felizes para sempre, enquanto que o assassino vai para o exílio.

Eis que o assassino volta anos depois e acaba tendo um relacionamento com a filha da ex-namorada. Sim. A garota tem um relacionamento com o cara que quase casou com sua mãe. Com o cara que tentou matar o seu pai e deixou uma cicatriz no rosto dele. Poderia ser uma daquelas armações de programa vespertino, mas na verdade é uma novela que passa em horário nobre.

E a Família Brasileira tolera isso. Tolera tentativas de assassinatos, pessoas sendo enterradas vivas, relações quase incestuosas, pessoas esfaqueadas, tráfico internacional de mulheres, sequestros de crianças, músicas novas do Roberto Carlos, cenas filmadas no exterior sem o menor critério.

A Família Brasileira tem uma rejeição seletiva.

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