quarta-feira, 9 de julho de 2014

A narrativa do drama

Brasil e Alemanha se enfrentaram ontem pela semifinal da Copa do Mundo e não é preciso criar nenhum drama ou expectativa nesse texto. Todos nós sabemos que o Brasil sofreu uma surra inapelável, algo que não víamos desde aquela luta do Apollo Creed contra o Ivan Drago. Tal qual o Apollo, a seleção brasileira entrou faceira e cheia de homenagens, mas saiu de campo desfalecida.

Assisti ao cortejo (aqui é um bom caso em que podemos escrever cotejo ou cortejo sem medo de errar) na casa de Diversão Noturna Carnicentas, ao lado de Pai Jorginho de Ogum, Marcão, Cão Leproso e Vinícius Gressana. Senti um mau presságio quando perguntei ao Cão Leproso se ele estava confiante na vitória e ele respondeu que sim, “a taça já está nas nossas mãos”.

Rejeitei todo e qualquer petisco que me foi oferecido pelas velhas questão sanitárias. Vinícius, por exemplo, não teve as mesmas precauções e teve que ir para o banheiro na hora em que David Luiz levantou a camisa do Neymar. Entre idas e vindas, acredito que ele não presenciou nenhum gol alemão na partida.

Marcão, aliás, estava visivelmente emocionado. Seus olhos brilharam quando a equipe entrou em campo com o boné de apoio ao Neymar, lacrimejou no hino nacional e durante o jogo, bem, durante o jogo ele protagonizou um espetáculo deprimente. Chorou, só de cueca, agarrado ao pé da mesa e pedindo para que alguém atirasse na sua cabeça. A noite deve ter sido longa.

Antes da partida, aliás, nós tivemos uma pequena discussão. Jorginho de Ogum e Marcão pretendiam assistir o jogo na Bandeirantes, porque adoram os comentários do Craque Neto. Após um longo argumento, acabamos chegando ao consenso de assistir na Globo, com o Galvão Bueno. Jorginho afirma que os outros canais são muito pessimistas.

Uma tragédia só é realmente uma tragédia se ela ganha a narração de Galvão Bueno. Maremotos, terremotos e incêndios seriam muito mais icônicos se o velho locutor estivesse lá imprimindo toda a sua dramaticidade. Tirando os aspectos vexatórios do estupro público e coletivo que o Brasil sofreu no gramado do Mineirão, uma derrota do Brasil narrada por Galvão Bueno é muito divertida.
fifa.com

Observe o desespero latente em sua voz cada vez que a bola ronda a área brasileira. Cada bola alçada na área brasileira (olha o cruzameeeentoooo) parece o momento imediatamente anterior a queda da bastilha. Os sete minutos nos quais a Alemanha trucidou o Brasil com quatro gols, devem entrar para a história das artes mundiais. Galvão narrava “olha eles chegando de novo!” como se fosse um inocente soldado presenciando os ataques japoneses a Pearl Habour.

Não cabe nenhuma análise tática sobre a partida, porque massacres não são explicados. Alguém parou para analisar a movimentação dos atiradores de Columbine? Não. Ok, o Brasil concedeu tanto espaço no meio de campo, que o MST poderia propor uma reforma agrária entre o Fernandinho e o Paulinho. Mas, um desastre só acontece por múltiplos fatores, difíceis de serem explicados.

Uma derrota sem explicações, mas que nem por isso deve ser relativizada. Se fossemos um país sério, todos os responsáveis pela campanha renunciariam aos seus cargos e o presidente da CBF deveria enfiar uma faca no abdômen e sangrar até a morte. Perderíamos os próximos meses discutindo o futuro do esporte nacional.

Mas nada disso irá acontecer. Depois de queimar bandeiras, bandeirinhas e bandeirolas na rua, a torcida brasileira logo vai se lembrar que é a única pentacampeã e o discurso de Luiz Felipe Scolari de que uma pane atingiu a equipe vai ganhar força. Psicólogos ganharão destaque na próxima comissão técnica e nosso time continuará entrando em campo sem jogadores capazes de organizar um jogo e tendo no banco um Jô, ou um Grafite da vez para solucionar os problemas. Continuaremos apostando em jogadores com alegria nas pernas.

E dessa vez nem teremos um Fernando Vanucci loucaço para fazer o discurso final sobre a eliminação brasileira.

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