quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Instantaneidade artística

A popstar Anitta é uma figura curiosa. Do tipo que faz selfies inoportunos, ela não chega a ser bonita, mas também não feia. Isso, no entanto, não significa que ela seja uma pessoa mediana. Na verdade, ela é bonita e feia ao mesmo tempo. Enquanto você bate o olho nela, seu cérebro fica processando os dados sem chegar à conclusão se ela é uma sex symbol ou se é parecida com um travesti. Algo bem curioso.

Ela ficou famosa no ano passado, quando o seu hit “O Show das Poderosas” conquistou o mundo como uma epidemia de Ébola. A letra, vocês sabem, é sobre uma garota que sofre com salivação excessiva e que fica incomodada com o jeito como Annita dança. Segundo a cantora, a letra e a melodia foram escritas rapidamente. Ela ainda acredita que a invejosa morrerá de raiva quando souber que a música é sobre ela.

Me atenho ao fato de que a música foi composta em poucos minutos. Vários artistas já usaram desse expediente para valorizar a sua composição. Paul McCartney simplesmente acordou com Yesterday na cabeça, tantas outras músicas foram feitas no intervalo entre o almoço e a sobremesa. Geralmente você pensa que o cidadão é um gênio para compor tão rapidamente.

Mas, eu diria que no caso do Show das Poderosas, isso é o mínimo que se poderia esperar. Uma letra tão ridícula com uma melodia tão batida não poderia ser composta em mais de dez minutos. Seria tempo suficiente para que a pessoa sentisse vergonha pelo o que ela estava fazendo e desistisse daquela ideia. Desistisse de compor uma música cheia de frases feitas de menina insegura do Orkut.

A instantaneidade é um valor apreciado em vários segmentos artísticos. Nem sempre acontece na música – imagino que o Rush nunca fez uma música em menos de dez minutos, até porque nenhuma música deles tem menos do que dez minutos – nunca vai acontecer na literatura – por mais que, sei lá, não dou mais de quinze minutos para escrever 50 tons de cinza, e acho que nunca no cinema. Mas nas artes plásticas...

Ah, nas artes plásticas. Pintar um quadro em cinco minutos já é o suficiente para que as pessoas prestem atenção nele. Se você fizer quarenta quadros pintados em cinco minutos, já dá pra fazer uma exposição. Se você fizer quarenta quadros em cinco minutos e filmar o processo, dá pra fazer uma exposição, ganhar um Oscar e quem sabe uma medalha Fields.
De certa forma, o Brasil promoveu uma obra de arte ao eternizar um instante aparentemente desconexo.

Os museus de artes modernas estão repletos de obras toscas, similares a pinturas infantis rupestres, que foram feitas em poucos minutos. Basta dizer que o artista quis captar a percepção momentânea sobre um determinado fato, captando a sensibilidade do instante, que pronto: todo mundo vai ficar babando nesta porcaria.

Ah outros casos, quando a arte é instantânea e pior ainda, sem nem mesmo ter tido influência humana no processo. Você enche balões com tintas de diferentes cores e depois estoura ele sobre uma cartolina: eis a arte. Captou as imprevisibilidades, captou um fragmento desconexo e o eternizou para sempre de maneira aleatória. Ah, vai a merda.

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