segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Filmes de Faculdade

Nos tempos do colégio, quando um professor anunciava que iria passar um filme para os alunos é como se ele assinasse um pacto de cumplicidade: eu finjo que isso aqui é uma aula e que tem um objetivo claro, enquanto vocês fingem que isso é importante e no final me entregam uma resenha, ou algo parecido. Era um momento muito bom para dormir.

Tempos Modernos, obra prima de Charles Chaplin, era o clássico supremo dos filmes de professor. Você o assistia por anos consecutivos, às vezes mais de uma vez por ano, em aulas de história, geografia, filosofia, português, sempre que o tema revolução industrial, relação homem x máquina, ou bigodes curiosos entrava em pauta.

Mesmo sendo um blockbuster da sala de aula, é possível assistir Tempos Modernos fora do colégio. Eu, inclusive, assisti-o no sétimo semestre da faculdade de jornalismo. Foi um momento surreal quando a professora anunciou que exibiria esse filme e, principalmente, quando ela começou a comentar empolgadamente algumas cenas marcantes. Um momento em que fomos imaginariamente teletransportados para a 7ª Série.

A faculdade – principalmente se você fez um curso na área de humanas – é uma ótima oportunidade para ter contato com filmes que você não veria em mais nenhuma oportunidade. Talvez porque eles não existam foram daquele ambiente, talvez porque você não teria o menor interesse em assistir.

Ilha das Flores é uma espécie de Tempos Modernos do curso de humanas. Antes de entrar na faculdade você escuta as pessoas que já passaram por lá comentando sobre ele. Diria que não há nenhuma ritual, logo na segunda aula algum professor vai passar o curta de Jorge Furtado em sala de aula. Talvez exista uma espécie de disputa interna entre eles para ver quem vai ser o primeiro a passá-lo. Sim, o primeiro, porque você provavelmente assistirá ao filme algumas vezes no primeiro semestre e outras tantas até o final do curso. Mas, tudo bem, é um curta e, precisamos admitir, é bem foda.

O Ponto de Mutação é um filme que consiste no maior desafio de roteiro de todos os tempos. Baseado na obra de Fritjof Capra, o filme mostra a história de três adultos que vão passar o dia em um castelo e tem diálogos filosóficos sobre a vida com “nós nunca apertamos a mesma mão duas vezes”. Sim, o filme é basicamente um papo cabeça que dura um dia inteiro. Quase no final, o poeta Pablo Neruda é citado de maneira épica.

A coisa começa a ficar séria quando você assiste 1,99 – um supermercado que vende palavras. Tal qual os filmes de Charles Chaplin, 1,99 não contém nenhum diálogo. São apenas pessoas andando em um supermercado hermético que vende caixas com palavras como “qualidade”, “poder”. Uma crítica ao consumismo que é interessante no conceito, mas que logo ganha ares de tortura quando aquela brincadeira passa de meia hora. Há um clímax em que uma pessoa morre na disputa por um produto muito bom e uma cena de horror na qual um grupo que faz música batucando no próprio corpo entra nesse mercado e fica, justamente, batucando no próprio corpo. Uma cena interminável e cujo sentido é difícil de explicar e entender. Marca aquele momento em que você não sabe se aquilo é uma merda ou se você é um infeliz sem capacidade de compreender tudo.


Apresentações do Grupo Corpo, um grupo de balé contemporâneo. Eles dançam malucamente, esfregam a bunda no chão se contorcem e babam. Você com certeza não terá a oportunidade de ver isso em nenhum outro lugar. Sorte a sua. Edgar Morin explicando o dialoguismo? Só na faculdade.

Claro que há espaço para os filmes convencionais. Assim como no colégio a professora passava Inteligência Artificial e você se contorcia de ódio com aquele menino robô que insistia em não morrer jamais e pensa que esperto foi o Stanley Kubrick que morreu antes de filmar essa bomba, os professores da faculdade também passam filmes Hollywoodianos.

Um deles é Íntimo e Pessoal, romance com Robert Redford e Michelle Pfeiffer. O filme conta a história de uma jovem jornalista, Tally Atwater, incompetente, que começa a dar para o editor do canal de televisão dela. Ele ensina que, quando você está mal, tudo o que precisa é cortar o cabelo e pintá-lo de outra cor. Há uma cena constrangedora, quando os dois passam uma semana de amor num paraíso paradisíaco e a câmera filma só a cabeça da Michelle Pfeiffer, com cara de tesão e a câmera começa a descer e todo mundo achou que, caralho, vai mostrar o cara fazendo sexo oral nela, mas ele estava apenas cochilando. No final o Robert Redford morre numa guerra e a mulher corta o cabelo de novo e tudo fica bem.

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