quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Histórias bobas com final trágico

Sabe que sempre que eu passo por aqui, eu me lembro de uma história. Na década de 90, eu passava por essa estrada todo dia. Eu trabalhava dirigindo um caminhão de uma fazenda, transportando fruta. Passava por aqui de manhã cedo, levando coco, melancia, mamão, laranja, tudo quanto é fruta que você imagina. Aquela estrada ali de Campo Verde, ainda não era asfaltada, tinha vezes que eu passava na terra, às vezes eu passava por aqui mesmo.
Depois de deixar as frutas em Cuiabá, eu voltava pra fazenda no fim da tarde. Todo o dia, na hora em que eu estava passando, uma menina de uns 14 anos e o irmão dela estavam indo para a escola agrícola. Então, eu sempre dava carona para eles. A menina era bonitinha, rapaz, usava uma mochila rosa. Eu perguntava para ela se ela não tinha medo de pegar carona com os outros, medo de que acontecesse alguma coisa. Ela dizia que até tinha medo sim, mas o que ela poderia fazer? Era o jeito que ela tinha para chegar na escola, senão ia ter que caminhar uns 10 quilômetros a pé, na serra, cheio de subida.
Em 1997 eu saí desse emprego e nunca mais vi essa garota. Anos depois é que eu fui saber. Ela foi estuprada e assassinada por um caminhoneiro. O corpo dela e do irmão dela foram encontrados na beira da estrada, carbonizados. Coitada rapaz, ela só queria estudar e deu nisso aí. Então, sempre que eu passo por essa estrada, eu me lembro dessa garota de mochila rosa e das caronas que eu dava pra ela.

No nosso convívio social, temos a tendência a contar apenas histórias descontraídas, principalmente quando nós estamos em grupo. No meio da roda, ninguém pede a palavra para contar sobre aquele dia em que você foi atacado por cachorros e que essa é a razão do seu olho de vidro.

Mesmo as histórias mais trágicas, aquelas que envolvem lesões, fraturas, amputações, perfuração craniana, perda de massa encefálica, mortes ou múltiplas mortes, acabam ganhando um tom leve e descontraído. “Hahaha, se lembram daquela vez que eu perdi o meu pé? Foi um jacaré que mordeu! Mas parece que depois ele morreu, não aguentou o chulé! Hahahaha”.

Quando criticamos uma obra ficcional pela sua obviedade e pelo seu final feliz, acabamos nos esquecendo que nós mesmos sempre esperamos que as histórias que escutamos sejam legais e divertidas. Se numa conversa informal alguém resolver contar a história sobre como seus cachorros nasceram sem patas e como isso provoca sofrimento na vida de todos, aposte que ninguém quer escutar.

Se alguém começa a contar a história sobre como ocorreu o divórcio com o seu ex-marido, você espera uma história cheia de passagens bobas, que mostre como a vida nos surpreende. “Você acredita que a gente brigou de vez por conta do cartão de crédito?”, dirá a pessoa. “Ele veio me cobrar uma conta e eu perguntei qual era o problema, que eu não devo explicação para ele sobre minhas compras, ele me chamou de egoísta e não saber o é um relacionamento e eu mandei ele praquele lugar, sabe?” hahahahah, claro que sei.
Ah, mas essa história tá muito boa

“Então, ele me puxou pelo braço e enfiou a mão na minha cara. Mas foi um soco de mão fechada no meio do meu nariz. Na hora eu senti os dentes bambeando e o nariz sangrando. Caí no chão e ele me acertou um chute na costela que eu urrei de dor. Fui me arrastando pelo chão enquanto ele me chutava e arremessava objetos em cima de mim. Até que eu consegui me trancar no banheiro e fiquei lá dentro chorando, ele batendo na porta e dizendo que iria me matar e eu rezando para aquele tormento acabar logo. Até que a polícia chegou, algum vizinho graças a deus escutou aquilo. Mas, felizmente, hoje nós damos bem, se ele quisesse, eu voltava pra ele”.

Veja, você estava naquela história sobre como a vida nos prega cada peça, não é mesmo? Ah, nem tudo dá certo, bola pra frente, mas peraí. O cara te espancou! Te bateu como se você fosse um Judas de Sábado de Aleluia. Você não prestou queixa? Esse cara tá solto e você ainda quer voltar pra ele? Que história trágica.

Histórias bobas com finais trágicos são as piores que existem. Você estava na expectativa apenas por algum sorriso besta e descompromissado, não por esquartejamentos e cadáveres ocultados. Você não estava vendo Peppa Pig imaginando que os porquinhos fossem virar bacon, não acreditava que um dos Teletubbies iria morrer de câncer e que o outro fosse ter uma overdose de cocaína no banheiro. Aquela música do Menino da Porteira é sordidamente triste porque o pobre menino que gostava de escutar o berrante acaba morrendo.

Não era para ser assim.

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