sexta-feira, 29 de abril de 2016

Tic Tac Pipoca: o sabor da morte

O exato momento em que uma pessoa morre é um assunto fascinante e intrigante para o ser humano. O que é que acontece no exato momento em que a consciência se dissipa, o corpo para e o coração deixa de bater? As hipóteses variam muito, de acordo com a sua fé ou o seu ceticismo. Há quem diga que um filme se passa em sua cabeça, quem acredite em uma viagem em direção à luz e o desprendimento do corpo, há quem pense por outro lado que tudo simplesmente acaba, que tudo aquilo que levou você a ser quem é, as experiências, os amores, os conhecimentos adquiridos, que tudo evapora e se transforma em um enorme nada. Simplesmente acabou.

A ciência não tem uma resposta exata para essa dúvida existencial. Experimentos em laboratório jamais poderiam ser feitos, porque isso envolveria o sacrifício humano, algo que não é muito aceito desde os tempos dos Astecas. Mas eu tenho a minha hipótese. Imagino que a sensação de morrer não deva ser boa. Deve ser algo muito ruim, algo parecido com o que você sente quando experimenta o novo Tic Tac sabor pipoca.

O Tic Tac é uma pequena balinha em formato de bastonete, extremamente popular no mundo inteiro. Foi inventada na Itália e chegou ao Brasil em meados da década de 90. No princípio existiam apenas dois sabores, que ainda existem até hoje e imagino que sejam os mais populares: menta e laranja. Ambos igualmente viciantes, capazes de levar pessoas saudáveis a ruína financeira e espiritual.

Outros sabores foram lançados, geralmente em um caráter especial e limitado, mas todos nós sabemos qual é a dos produtos produzidos em linhas limitadas: se for bom e bem aceito pelo público, será produzido ad eternum, atendendo aos apelos do público. Se for ruim, enfim, era só uma edição limitada mesmo. Veio um azul escuro de sabor extremamente forte, um sabor maracuja e cereja, outro com bolinhas rosas, um azul claro, um verde, enfim. Até que nesse ano surgiu a mais nova edição limitada, o já citado Tic Tac Pipoca.

Pensando em um primeiro momento, você imagina que não deve ser bom. Qual é a ideia de fazer uma bala doce mentolada com sabor de pipoca? Não poderia dar certo, mas pensamos que o Tic Tac é fabricado por uma das maiores confeiteiras do mundo eles não fariam algo que não fosse para dar certo. Fizeram.

Pense nas piores sensações que o mundo pode proporcionar, violência física, psicológica, perdas de entes queridos, experiências traumáticas. O Tic Tac pipoca está no rol dessas experiências. Ninguém que o prova consegue ser a mesma pessoa. Ninguém que coloca esse pequeno carocinho na boca tem condições de ser feliz novamente. Porque depois de experimentar o Tic Tac Pipoca o indivíduo se torna consciente das atrocidades que o ser humano pode cometer e que qualquer um está sujeito a passar por esses momentos de terror.

Recentemente, um estojo dessa bolinha açucarada de apocalipse chegou até o meu trabalho. Uma caixa de Tic Tac tem exatos 33 balas e acredito que apenas cinco tenham restado. Isso significa que ao longo do dia, 28 pessoas colocaram esse negócio na boca, o que foi, de certa forma, um ato de sadismo de quem já havia experimentado a bala. O mais correto a se fazer, caso você veja alguém prestes a colocar um Tic Tac Pipoca na boca, é correr em direção a essa pessoa, retirar o perigo de sua mão – caso a pessoa se mostre relutante, é necessário encontrar uma maneira de desacordá-la, correr até um lugar seguro em que o produto possa ser descartado seguramente: vaso sanitário, forno industrial ou uma barragem de chumbo e concreto.

Dessas 28 pessoas que experimentaram o Tic Tac Pipoca, apenas três consideraram que o gosto era razoável, mas sem nenhuma empolgação. Pessoas que provavelmente já passaram por experiências terríveis e são incrivelmente fortes no aspecto psicológico. Não mais do que dez pessoas conseguiu engolir a bala (diria que chuparam até o final, mas essa frase seria muito dúbia, pornográfica e maliciosa) - eu incluído, mais por uma questão de honra e pelo fato de me provar que eu era capaz de superar os maiores desafios.

Mas, a ampla maioria das cobaias cuspiu. Imagine, cuspir um Tic Tac é um ato extremo, uma última possibilidade, significa que não dá mais para seguir com aquilo.

Uma a uma, as pessoas colocavam a bala na boca faziam aquela cara de “hmm, diferente isso aqui”, seguida por uma cara de “hmm, isso aqui não é bom não”, concluída com uma cara de nojo extremo, de que “porra, eu vou morrer comendo isso aqui”. Vinha então a cusparada.

O pior de tudo, sim há o pior de tudo, é que o maldito gosto da pipoca, ou algo como se você comesse pipoca com Kolynos, fica na sua boca por algumas horas. Por alguns dias. Por toda a sua vida. O tempo demandado para eliminar o sabor da sua boca depende muito da sua força mental.

Eis uma desvantagem do Tic Tac Pipoca em relação a morte. Quando você vai a óbito, de certa forma você se livra da dor e das experiências traumáticas vividas. Com o TTPipoca não. Ninguém nunca morreu com um exemplar desse pedaço de maldição. Você sobrevive e precisará continuar sobrevivendo todos os dias, apesar dessa experiência terrível.

Acredito que logo a Anvisa, a ONU, a Nasa, o FBI, o Pacto de Varsóvia, alguém irá tomar alguma atitude e retirar essa atrocidade do mercado. Espero que os seus responsáveis sejam severamente punidos e que um dia nos lembremos do Tic Tac Pipoca com aquele misto de vergonha e alívio de saber que esta foi apenas mais uma terrível página virada da história. Ergueremos um memorial para suas vítimas e transmitiremos seu legado, para impedir que as futuras gerações voltem a cometer este erro.

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