Clichês de Ofício

Um homem e uma mulher. Eles correm por um caminho, um ao encontro do outro. Provavelmente em câmera lenta. Eles não se vêem há algum tempo. Há dois anos. Desde que ele partiu em um navio para defender as forças armadas no Haiti. Desde ontem a noite. Desde que ele perdeu a visão. Os dois estão felizes. Folhas caem lentamente no chão, é outono. Eles se aproximam e se abraçam.

Mas, não é um abraço qualquer. Na consumação do ato, os dois giram sobre o solo, com ela pendurada nos ombros dele. Casais se encontram assim no cinema, nos comerciais, nas novelas. Casais felizes não são realmente felizes sem um “abraço giratório”. Este movimento é essencial para demonstrar a saudade dos pombinhos. Mas não é uma manobra fácil.

Faça o teste. Junte-se a sua namorada (Vou falar como se você fosse um homem, ok? Se você for mulher, faça a inversão por conta própria, ou não). Se você não tiver uma, tente com uma amiga, uma prima. Se ninguém topar, peça ajuda para qualquer pessoa na rua. Como é uma simulação, pode ser em qualquer rua fedida. Peça para que sua parceira venha correndo em sua direção. No momento em que vocês se encontraram, tente dar o abraço giratório. Você, homem, ficará com fortes dores nas costas. Há risco de aleijamento.

Esta claro que o abraço giratório não é praticado indiscriminadamente nas ruas, nas fazendas e na porra toda. É apenas um clichê de comportamento.

Aliás, atentem-se ao local. Um bosque. O que porra é um bosque? Onde você pode encontrar um bosque? Em 24 anos de vida eu acho que jamais estive em um bosque. Conheço parques, florestas, reservas, mas, bosques? As definições para tal lugar são vagas. Você percebe que tudo pode ser um bosque, mas nada pode ser também.

Mas não tem graça falar que o casal se encontrou na fazenda. Na floresta. Em um parque. Eles se encontraram no bosque. A palavra bosque, pura e simplesmente cria um ambiente de magia. Um lugar com folhas que caem no outono, cheio de borboletas e outros animais de cunho homoafetivo.

É fácil perceber que bosques não existem. Nunca existiram. São apenas uma invenção das grandes corporações internacionais que querem transformar os seus filhos em qualquer coisa.

Outro lugar que eu tenho certeza que não existe é o escritório. Sim. Você deve trabalhar em um. Mas escritórios como os do filme não devem existir.

Vejamos, eles são todos iguais. Cheios de mesas cinzas, separadas por divisórias também cinzas. Pessoas de gravata, com paletós encostados nas cadeiras. Há a sala do chefe, isolada, com persianas ao fundo. Uma secretária gostosa que usa óculos. A hora do café. Pessoas que fazem piadas ridículas.

Mas, o mais curioso sobre um escritório é o que se faz nele. Relatórios. Relatórios. Tem que entregar um relatório pro chefe. Basta um raciocínio de três segundos (darei este tempo a vocês, vamos lá...)


(...pronto) para perceber que o mundo não tem demanda para tantos relatórios.

Mas é dessas coisas simples. “O chefe pediu aquele relatório”. Seria muito mais difícil falar que o chefe pediu um... sei lá, alguma coisa que não seja um relatório. Porque chefes vivem de ler relatórios? Não há tempo de se ler tanta coisa assim.

Comentários

Lali disse…
Quando eu era criança, tinha uma área da escola que todos chamavam de bosque. Era um local com poucas árvores, um parquinho e uma região coberta, que tinha mesas de pedra onde jogávamos magic. Em algum lugar do bosque também havia um ET gigante de papel machê.

Acho que é o mais próximo de um bosque que eu já vi. Mas tenho certeza de que não tinha espaço pra correr e abraçar - muito menos girando.
Anônimo disse…
Bosque me faz lembrar o horto florestal de cidades do interior...