quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A era da porcentagem

Por alguma razão que eu não sei bem explicar, eu sempre gostei e sempre fui bom com os cálculos de porcentagem e estatística. Lembro bem que essa foi justamente a primeira matéria estudada em matemática, quando eu comecei a cursar o Ensino Médio e, na primeira prova daquele primeiro ano, eu tirei 10.

No entanto, essa minha facilidade não era acompanhada por boa parte da população, pelo menos não pela amostragem dos meus colegas de sala. Com dificuldades para interpretar os gráficos, ninguém repetiu minha nota. Poucos ficaram acima da média de 6 e muitos chegaram a zerar. Assim sendo, eu fui tratado como um fenômeno. Os colegas olhavam para mim em misto de admiração, ódio e inveja, pensando em como este meu aparente talento sobrenatural poderia beneficiá-los no futuro. Eu era um Einstein, pensavam.

É claro que as coisas não eram assim. Eu era um terror em todas as outras partes absurdas da matemática e sofri durante o resto do ano para me manter acima da média. Mas, as pessoas não entendiam isso e na sequência daquela fatídica prova de porcentagem elas iam me perguntar sobre trigonometria e quando eu dizia que não sabia, elas achavam que eu era um anticristo, arrogante, egoísta, metido e passavam a me tratar mal. Demorou até perceberem que eu não era um gênio das exatas.

Após esta maçante introdução acadêmico/escolar/pessoal, cuja principal intenção era mostrar a dificuldade que as pessoas sentem com relação a porcentagem - inclusive uma questão linguística, já que não há uma definição clara se devemos falar porcentagem e suas variantes como porcentual, ou se devemos usar percentagem e sua variante percentual - para constatar que vivemos numa estranha época em que o % está na boca do povo.

Creio que a música sertaneja seja atualmente o estimo musical preferido de 52% do público brasileiro. E o ritmo vem explorando este símbolo cujo significado em nível de design eu não consegui compreender direito, de acordo com a explicação da Wikipedia.

Tudo começou, muito provavelmente, quando deus disse faça-se a luz, ou digo, quando os fenícios inventaram a matemática Marcos & Belutti com a participação de Wesley Safadão - talvez seja ao contrário, lançaram “Aquele 1%”.

Você, certamente, já teve a infelicidade de escutar está fábula do falso Don Juan que cita seus hábitos de abrir a porta para as donzelas, pagar a conta do jantar, e que é 99% um anjo, perfeito, mas cujo aquele 1%, ah, aquele 1% é vagabundo, safado. E elas gostam.

Do ponto de vista aritmético não há nenhum erro, mas do ponto de vista lógico há uma série de questionamentos. Creio que seja muito difícil dividir um ser humano em escalas de porcentagem. Se formos pensar em um homem normal de 75 kg¹, 1% dele equivale a exatamente 750 gramas. Talvez seja o peso de um pênis com o saco escrotal, sinceramente não sei, nunca coloquei o pau na balança, mas se for isso, criaria uma conotação ainda mais sacana para música que talvez não tenha passado pela cabeça dos compositores. Talvez alguma parte específica do cérebro pese 750 gramas e seja responsável por essa parte vagabunda presente em Marcos & Belutti.

Aliás, em aprofundadas pesquisas no Google, descobri que Belutti - no caso, caso vocês não tenham percebido, Marcos & Belutti não é uma pessoa, mas sim, duas pessoas e Belutti é uma delas - perdeu recentemente 7 quilos, o que deve equivaler a quase uns 10% do peso dele. Caso ele pesasse os referidos 75 quilos e antes ele era 1% vagabundo, agora podemos dizer que ele é 1,1% vagabundo.

Se o aspecto for moral, é ainda mais difícil equalizar esta conta. A vida não é um teste de Facebook que consegue apontar defeitos e qualidades morais em porcentagens exatas.

Anos depois - na verdade, creio que se passaram apenas alguns meses - Maiara e Maraísa, a dupla de irmãs gêmeas tocantinenses que está levando a sofrência feminina para o Brasil, estourou nas rádios com o hit "10%". No caso a música relata um diálogo com um garçom - personagem clássico do universo de sofrimento brega, e acusa este funcionário de agir com má-fé para obrigar os clientes a sofrerem e beberem mais, provocando um aumento na gorjeta dos referidos profissionais, o famoso 10%.

Sim, não é impressionante que em menos de um ano duas músicas sertanejas com % toquem na rádio? neste universo que há pouco tempo era acostumado com onomatopeias sem sentido? Neste mundo cujo único % possível era o de 100% jesus nos para-choques de caminhões, nos adesivos grudados nos vidros traseiros de alguns carros dirigidos por pessoas que se sentem agraciadas pelo bom deus, na faixa presa na testa do atleta Neymar no momento em que ele recebe uma medalha de ouro olímpica? Curioso.

Eis que agora, estreia a primeira série brasileira no Netflix e qual é o nome dela? 3%. Olha a porra da porcentagem aí de novo. O princípio da série é a de um mundo pós-apocalíptico no qual apenas 3% da população tem direito a uma vida digna em uma ilha. No Brasil, de acordo com a expectativa do Censo para 2016, isso equivaleria a 6.182.443 pessoas. Isso equivale mais ou menos a população da cidade do Rio de Janeiro sem o bairro de Campo Grande.

Ainda é cedo para dizer que reflexos isso terá para a população brasileira, mas só posso imaginar que eles serão terríveis. Todo e qualquer conteúdo emanado por cantores sertanejos, que tenha no sertanejo universitário a sua força motriz será um conteúdo de devastação e miséria moral que levará o povo para o abismo da existência.

¹Com isso, eu não quero dizer que pessoas que não pesem 75 kg não sejam consideradas normais. Pessoas normais pesam os mais variados pesos e existem muitos anormais com 75 kg também. O valor foi escolhido por sorteio realizado na sede da Caixa Econômica Federal.

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