terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Miss Sem Fronteiras

A mais antiga e divulgada lenda envolvendo as mulheres que pretendem concorrer ao cargo de “Miss” alguma coisa, é a de que elas obrigatoriamente haveriam de ter lido o livro “O Pequeno Príncipe”. Há uma razão para esta estranha ligação literária. Por trás da beleza flagrante, os concursos de misses buscam escolher uma mulher dita perfeita, que alie a beleza ampla e irrestrita com um vasto conhecimento intelectual.

Por essas razões, tradicionalmente as fases finais dos concursos de misses contam com algumas perguntas capciosas, para testar os conhecimentos gerais das candidatas. Geralmente são perguntas genéricas sobre a felicidade global e outros temas que eram testados em oficinas de redação de vestibular.

“Qual é o seu livro favorito” é uma das tradicionais perguntas feitas às mulheres. Afinal, livros são um sinal de cultura, cultura é sinônimo de conhecimento intelectual, pré-requisito para alguém ser miss universo. O Pequeno Príncipe logo se consolidou como uma resposta favorita das candidatas, pelo fato de ele se situar numa zona mista de conhecimento.

Ninguém iria dizer que adorava uma subliteratura qualquer, um livro de autoajuda ou um best-seller vazio do momento, sob o risco de ser eliminado. “Aí, adoro Sidney Sheldon”, sinto muito, mas você não será a mulher perfeita que servirá de exemplo para toda a humanidade. Por outro lado, ninguém vai se arriscar a afirmar que adorava a obra de Dostoievski – no original, ou que leu Ulysses três vezes. Vai que o jurado manda você explicar a obra? Sonho terminado.

O Pequeno Príncipe, por outro lado, é um livro amplamente conhecido, mas com algum grau de respeitabilidade. Não é uma obra para retardados, mas não chega a ser complexo. Além disso, ele agrega valores como “generosidade”, “fraternidade”, “congraçamento dos povos mundiais”. É só soltar aquele papo de cativar daqui, se mostrar ansioso pelo sua presença por lá e ninguém precisa prestar atenção na viagem psicotrópica deste garoto que conversa com raposas sentimentais.

No entanto, os tempos mudaram e o mercado se mostra muito mais competitivo. Hoje em dia, não basta convencer os jurados com algum conhecimento básico literário e meia dúzia de frases cativantes decoradas de um best-seller. As candidatas se aprimoraram.

Neste último domingo, as Filipinas receberam a final deste tradicional concurso. Por trás de todas as escolhas relacionadas aos trajes de banho, vestidos de gala e roupas tradicionais, o concurso mostrava um pouco da história das mulheres que avançavam na disputa.

Havia sobreviventes de terremotos, mulheres que lutaram na guerra, que perderam parentes por razões terríveis, que passaram fome, que trabalhavam para descobrir a cura da cegueira. Quase todas desempenhavam funções sociais, acolhiam crianças carentes. Mais do que um concurso de beleza, o Miss Universo hoje é uma disputa de protótipos de Madre Teresa de Calcutá.

As perguntas também se mostraram extremamente complexas: “quais pontos você considera como negativos e positivos no mandato de Donald Trump”. Uau, ter que pensar em um ponto positivo para isso? Outra pergunta discutiu o fechamento de fronteiras. Complexo.


Como a tendência das coisas é só evoluir, imagino que nos próximos anos as perguntas fiquem ainda mais difíceis. “O que você acha da política aduaneira no canal do Panamá?”. “Como impedir o avanço do tráfico de nióbio?”, “qual é a sua opinião sobre o controle de natalidade enquanto política de estado para impedir o desemprego?”, perguntas quase impossíveis de serem respondidas.

Certamente as misses terão formações ainda mais avançadas. Mulheres que trabalham com fissão nuclear para a criação de próteses, na defesa da costa somaliana contra os ataques piratas, resgatando peixes abissais feridos, trabalhando para acabar com a fome mundial, oferecendo wi-fi gratuito em comunidades distantes subsaarianas, preservando a vegetação nativa do Malawi, em um laboratório de observação da pós-verdade.

Enfim, chegaríamos a conclusão de que se todas as candidatas se organizassem em uma ONG intitulada Misses Sem Fronteiras, os problemas do mundo acabariam.

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