quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Cidadão Ken

Um dos primeiros atos do novo prefeito de São Paulo, João Dória, foi anunciar que no dia seguinte ele estaria de manhã cedo se vestindo de gari no centro de São Paulo. Ele, seu vice-prefeito e todos os seus secretários fariam parte de uma ação inovadora de limpeza da cidade intitulada “Cidade Linda”. “Estaremos vestidos de garis como gente simples que recebe seu trabalho para dar demonstração de humildade, igualdade e capacidade de trabalho”, afirmou o prefeito.

Como promessa é dívida, no dia seguinte João Dória estava lá na Avenida Nove de Julho, vestido de gari, ao lado de um monte de gente. Varreu a rua simbolicamente por cerca de dez segundos e mostrou enorme dificuldade para segurar a pá de lixo e jogar os restos varridos dentro de uma lixeira. Não sei se Dória tem ideia da quantidade de memes que esse seu primeiro dia de trabalho poderá proporcionar em um futuro não tão distante.
Diga onde você vai, que eu vou varrendo
Como desgraça pouca também é bobagem, o novo prefeito afirmou que irá se vestir de gari todas as semanas. Uma incrédula repórter confirmou a informação e ainda perguntou se o fato iria se repetir durante todo o seu mandato. “Durante quatro anos”, respondeu um convicto Dória para a perplexidade geral da nação, como se um prefeito não tivesse mais trabalho para fazer além de se vestir de gari toda semana para tirar fotos enquanto varre ruas por dez segundos.

Claro que nós não podemos descartar a possibilidade de que Dória esteja descobrindo uma nova vocação e que a partir de 1º de janeiro de 2021 ele adote a vassoura e saía por aí cantando o hit do Molejo e varrendo ruas, com uma habilidade desenvolvida ao longo das 208 semanas de seu mandato. Por outro lado, não podemos também ignorar a hipótese de que tudo isso seja um fetiche, que o prefeito sempre sonhou em se vestir de gari e nunca antes teve a possibilidade. Imagino que não é fácil encontrar fantasias de garis em Sex Shops e que não dá pra simplesmente chegar na Companhia de Lixo e falar “oi, eu queria me vestir de gari”. Convenhamos, uma das principais graças de um fetiche é poder se exibir dentro dele.

João Dória foi um fenômeno da última campanha eleitoral. Empresário do ramo das publicações que ninguém lê e promoter de eventos, ele conseguiu sair da rabeira das pesquisas eleitorais para uma vitória acachapante no primeiro turno, isso em uma cidade que nunca antes na história conseguiu ficar em casa no dia de um segundo turno de eleições, desde que os segundos turnos existem.

Para alcançar essa vitória, Dória conseguiu vender a imagem de que ele é um self-made man, um trabalhador, ele conseguiu convencer as pessoas de que ele trabalha! Isso foi impressionante e provavelmente será um dos grandes cases publicitários de um futuro também não muito distante.

A grande pecha sobre ele é a de que ele seria um coxinha, como ficou popular nos tempos atuais. Em tempos remotos ele poderia ser chamado de almofadinha, engravatadinho, mauricinho, são várias as opções. Isso não chegou a ser um problema na cidade que é considerada a mais coxinha do país, conforme as eleições provaram.

No entanto, uma parte do eleitorado ainda demonstra resistência com a sua imagem de figurante do Programa VIP. Justamente por isso é que imagino que alguma brilhante mente - talvez esta mente brilhante seja justamente a do prefeito - pensou em colocar o alcaide vestido de gari numa avenida grande no dia 2 de janeiro de 2017. Vamos pra cima, vamos arregaçar as mangas, vamos mostrar que aqui é trabalho e, pelo jeito, a ideia fez tanto sucesso que o prefeito já confidenciou que pretende repeti-la pelo menos mais 200 vezes.

No entanto, eu acho que essa sua promessa não é satisfatória. Dória precisa abrir os olhos e perceber que os garis representam apenas uma entre as centenas de funções existentes dentro de uma administração pública. Eu penso que nas 207 oportunidades restantes para o prefeito, ele deveria se vestir e simular a atuação em uma profissão diferente. Vamos pensar em um Dória vestido de enfermeiro, em um Dória professor, Dória motorista de ônibus, Dória eletricista e tantas outras profissões com menor ou maior índice de proletariado.

Podemos melhorar essa ideia. Todos nós sabemos que Dória é um fashionista arraigado, que promove encontros bafônicos na Ilha de Comandatuba e em tantos outros lugares do mundo, em que os convidados devem se trajar de acordo com um dress code restrito, que indica inclusive as cores permitidas. Ele já levou essa tendência para a prefeitura, quando pediu recentemente que seus secretários participassem de um evento utilizando calças ou saias azul-marinho e camisa branca.

Assim sendo, ao final do seu mandato teríamos Dória encarnado 200 profissões com um look sempre impecável. Seria tema para um ótimo livro fotográfico, digno de uma exposição em alguns dos tantos espaços culturais paulistanos.

Indo um pouco mais longe, ele poderia lançar inclusive uma linha de bonecos Dória, para competir com o boneco Ken, namorado da barbie, casal que já foi lançado em mais de mil versões estilizadas. Certamente faria o maior sucesso, até porque nunca ouvi falar de uma Barbie Gari.
Pior que tem

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