terça-feira, 11 de abril de 2017

Notícias do Tempo (6ª parte)

Passei o sábado inteiro sentado no sofá da sala. Me levantava eventualmente para beber a água que ainda restava em casa ou para ir ao banheiro cada vez mais insalubre. Dormia quando o cansaço conseguia vencer o calor insuportável. A essa altura eu já estava entregue ao fim do mundo.

A bateria do meu notebook havia acabado por volta das 18h30 da sexta-feira e desde então eu estava entregue no sofá. Apenas tomava nota da passagem do tempo pela luz opaca que entrava pela brecha da cortina, indicando que o sol estava de fora novamente. O calor continuava aumentando e o céu já estava completamente cinza, tomado pela fumaça das queimadas que a essa altura já consumiam o mundo.

Os filmes apocalípticos que sempre assistimos costumavam a retratar um fim repentino para uma grande parcela da humanidade. Havia um alerta de tsunami e as pessoas começavam a fugir das regiões costeiras, mas eram apanhadas pela onda no meio da estrada. Um terremoto espetacular destruía prédios, casas e metade da civilização norte-americana em poucos segundos. Os sobreviventes se reuniam e tentavam escapar daquela situação e iam morrendo em grandes levas a medida em que a terra voltava a tremer. Tommy Lee Jones estrelou um filme em que o apocalipse era provocado por um vulcão.

Outros tantos filmes tratavam sobre a chegada de meteoros, que proporcionaram um fim rápido e praticamente indolor para boa parte da população mundial. O impacto proporcionado pelo pedregulho gigante provocaria um grande rastro de destruição e os poucos sobreviventes, sempre eles, precisariam se unir para procurar uma solução naquele ambiente de barbárie. Sylvester Stallone, ou Bruce Willis, ou algum outro astro seria o responsável por guiar aquele grupo despreparado para a vida selvagem.

Mas, creio que de longe os fins mais pensados para a humanidade são aqueles provocados por invasões alienígenas. Os desenvolvidos seres de outros planetas chegam até nós com ideias conquistadoras e disparavam seus poderosos raios aniquilantes, capazes de varrer Nova York – sempre ela – do mapa em poucos segundos. A humanidade tenta resistir como pode, enquanto mais e mais pessoas são mortas de uma vez só. Bem, claro que geralmente nesses filmes a humanidade não é extinta de uma vez, a resistência humana liderada por Will Smith consegue obter uma resposta e contra-atacar os alienígenas, subjugá-los e iniciar o processo de reconstrução das façanhas humanas no planeta.


Todos esses filmes tem algo em comum. Um impacto imediato sobre a população e a resistência, uma maneira de tentar encarar o problema e dar a volta por cima. Há uma mensagem de esperança, de que nos momentos difíceis a humanidade é capaz de se unir em busca de uma solução. A luta pela sobrevivência é capaz de unir todos.

Mesmo os filmes de zumbis – e eu preciso confessar que odeio filmes de zumbis, considero todos eles iguais e baseados em um princípio ridículo, de que os mortos voltariam a viver e passariam a atacar a humanidade, que novamente, precisa se unir para superar esse problema e etc, etc, etc, esses filmes também mostram resistência a um impacto, que digamos, não é imediato, mas é um problema que vai aumentando dia após dia.

Lembro de cabeça de um filme que mostra uma tragédia ganhando corpo a cada dia e ameaçando a existência humana terrestre: “O Dia Depois do Amanhã”. Assisti a esse filme em 2004, no cinema, na saída de uma oficina de redação no colégio. Estava ao lado de uns seis ou sete colegas de sala e assistimos aquele filme, rindo um pouco da situação, daquele frio que em poucas horas congelava o hemisfério norte inteiro. Um amigo meu questionava “e o Brasil? Continua todo mundo na praia tomando caipirinha e sambando?”. Não é um grande filme certamente, mas é o filme que vem a minha cabeça como um exemplo de um apocalipse não-repentino, crescente.

Mas, novamente, mesmo nesse filme, há uma espécie de cooperação entre os sobreviventes. Que tentam se ajudar, se refugiando em lugares protegidos, queimando livros em fogueiras na tentativa de se manterem aquecidos, fugindo para o México. Toda produção apocalíptica hollywoodiana trata da união dos povos para enfrentar os problemas e de certa forma isso nos sugestionou a pensar que o fim, caso ele realmente chegasse um dia, seria dessa forma. Muitos mortos, mas os sobreviventes tentando se ajudar, lutando até onde fosse possível pela sua sobrevivência.

Creio que todo mundo já pensou em como seria seu próprio comportamento assim, caso você desse a sorte de não ser um dos atingidos pelo raio laser mortal alienígena, ou pelos blocos de concreto que despencaram sobre cabeças alheias após o terremoto. Seria um líder do grupo? Alguém que seguiria a ordem dos líderes? Sempre pensei que eu seria alguém desinteressado, que talvez esperasse a morte chegar, pensando se realmente valia a pensa todo aquele sacrifício apenas para continuar vivo num mundo cheio de mortos. Qual é o sentido de continuar vivendo em uma situação assim?

De certa forma eu já estava assim. Apenas esperando o tempo passar. Estamos vivendo o nosso dia depois do amanhã, estamos em nosso momento ficção barata blockbuster eu pensei. Acho que o mundo foi congelando em uma parte e queimando em outra de maneira menos repentina do que no filme supracitado, que deve ter sido a primeira produção global que tratava das mudanças climáticas, talvez até precedendo o trabalho realizado pelo Al Gore.

Mas, de certa forma, acho que não havia a resistência tão alardeada nos filmes. Estávamos todos entregues ao calor. Ninguém estava nas ruas tentando, sei lá, controlar queimadas ou desviar o curso dos rios, não sei o que pode ser feito para combater o calor, porque certamente este esforço resultaria na morte dos envolvidos. Acho que todos os filmes de fim de mundo não pensaram na nossa dependência atual de tecnologia, de como ficaríamos inertes sem ter um celular, conexão a internet, o que dirá da energia elétrica? O fim não anunciado também nos pegou de surpresa. Acredito que lá nos primeiros dias, quando o calor ainda estava dentro dos padrões previamente registrados pela ciência, se alguém tivesse nos avisado que aquilo era o começo do fim, talvez pudéssemos ter feito alguma coisa, por mais que eu não sei que coisa é essa. Não dá para mudar o clima do planeta imediatamente.

Será que alguém havia cogitado o suicídio como uma forma de abreviar o sofrimento? Diante da falta de possibilidades, da lenta agonia do fim, da morte inevitável, o suicídio seria uma rala forma de controle das variáveis. Ou não. Que suicídio que as pessoas têm a sua disposição, exceto aquelas que se prepararam para isso? Perfuração com facas, pulos de grandes alturas e outras situações que de certa forma não garantem a morte imediata, mas nesse mundo distópico poderia garantir algumas horas a mais de sofrimento com fraturas expostas e hemorragias incontroláveis, sem qualquer possibilidade de socorro.

Pensei que talvez ainda houvesse algum lugar seguro, ou habitável na Terra. Alguma faixa intermediária, entre o calor e o frio extremo em que as pessoas conseguiriam viver por mais tempo, até que ou o frio, ou o calor dominassem a situação inteira. Ou até que tudo milagrosamente voltasse ao normal e essas pessoas pudessem espalhar as façanhas humanas por todo o planeta. Voltei a dormir.

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