quinta-feira, 20 de abril de 2017

Notícias do Tempo (7ª e última parte)

Meu carro ainda tinha algum combustível, acreditava que mais ou menos meio tanque. Se minhas previsões estivessem corretas, eu conseguiria andar algo em torno de 200 km. Diante do calor cada vez mais absurdo, fui tomado por uma espécie de sentimento jornalístico e resolvi sair de casa para ver o fim do mundo de perto, pelo menos o fim do meu mundo. Desisti de esperar o apocalipse me encontrar e fui ao encontro ao fim.

Coloquei o que me restava de água dentro uma garrafa pet de coca cola, que ficou cheia um pouco acima da metade. Abri a porta de casa pela primeira vez em alguns dias e vi a névoa de fumaça que havia tomado conta de tudo. Não era possível ver o fim da minha rua. Alguns carros estavam parados na frente da casa de alguns vizinhos, outros devem ter tentado fugir, ou jamais conseguiram chegar de volta em casa. Nunca vou saber. Um silêncio absoluto no meio daquele ambiente acinzentado.

Entrei no meu carro rapidamente e a sensação foi a de colocar o corpo dentro de um forno recém desligado. Liguei o carro e coloquei o ar-condicionado no máximo, mas isso não adiantou muito. Acho que a humanidade não chegou a inventar um aparelho com a potência necessária para neutralizar essa quantidade de calor. Provavelmente ela nunca achou que seria necessário. O marcador de combustível realmente estava próximo da metade.

Sai pela guarita do meu condomínio que parecia abandonada. Trafeguei pelas ruas pelas quais eu corria nos últimos tempos sem encontrar uma única pessoa. Cheguei a um ponto mais alto, de onde era possível avistar Chapada dos Guimarães. Não vi nada. Apenas uma cortina de fumaça espessa, que provavelmente escondia o fogo que consumia o Parque Nacional. Segui pela rua principal do bairro e os comércios estavam todos fechados. O supermercado, os bares, as distribuidoras que sempre estavam lotadas, a academia, as lojas de roupa, de manutenção de celulares. Cheguei a Avenida das Torres e a visibilidade devia ser de uns cem metros. Pisei fundo no acelerador e passei pelo radar de velocidade a mais de 100 km/h. Essa multa um dia chegaria? O radar ainda funcionava? Era meu pequeno manifesto de inconsequência diante do fim inevitável.

Passei pelas entradas de condomínios, pelos postos de gasolina, pelas rotatórias. Cheguei a Avenida dos Trabalhadores e vi todas as lojas de móveis fechadas. Ganhei a Miguel Sutil e desci para a Avenida do CPA. Experimentei uma solidão impossível de ser sentida na principal avenida da cidade. Acelerei até perto do meu trabalho e observei todos os centros comerciais melancolicamente abandonados. Parei ao lado do viaduto da Sefaz e lamentei não ter nada para escrever alguma mensagem naquele monumento ao mau gosto. Pensei em deixar alguma mensagem enigmática, uma pista errada para as futuras gerações. Uma piada sobre o fim do mundo atual, que ninguém entenderia.

Resolvi ver o Rio Cuiabá. Passei por toda Avenida do CPA, atravessei o Centro Histórico. No cruzamento com a Isaac Póvoas vi o corpo de um mendigo atirado embaixo de uma árvore da Praça do Ipiranga. Não havia pombos no local. Pássaros costumam a perceber tragédias naturais e migram para um lugar em segurança. Nesse caso, imaginei que os pássaros talvez estivessem tentando voar para fora da atmosfera terrestre.

Observei todas as lojas da XV de Novembro vazias. Não havia sinal de vandalismo, arrombamento, depredação. Percebi que realmente, o calor era tão extremo, que ninguém teve coragem de destruir nada, sob o risco de provocar sua autodestruição. Talvez, se as pessoas tivessem percebido o fim antes, teriam feita alguma coisa, em um último momento de loucura.

Cheguei a ponte do Rio Cuiabá. Desci do carro ligado e senti o vapor quente do lado de fora. Observei o rio quase parado lá embaixo, reduzido praticamente pela metade de sua largura. Várias ilhas se formaram em sua extensão, mostrando suas perigosas diferenças de altura, seus degraus que já vitimaram tantos banhistas amadores. Sua coloração era ainda mais barrenta do que o normal. Era melancólico olhar o rio daquela forma, pensando em quanto tempo ele ainda sobreviveria.

Segui adiante e entrei em Várzea Grande. Lembrei de uma piada de um amigo meu, que dizia que cada vez que ele entrava em Várzea Grande ele se sentia em Mad Max, a estrada da fúria. Nunca essa comparação fez tanto sentido. Resolvi ir até o aeroporto. As portas automáticas estavam fechadas e apenas consegui olhar lá dentro os guichês vazios, uma mala perdida por alguém que jamais vai voltar. O que nossos futuros ocupantes pensarão de todas as estruturas que deixamos para trás?

Resolvi então ir até o setor de hangares. Encontrei um com o portão aberto e de lá tive acesso a pista do aeroporto. Experimentei a curiosa sensação de andar por aquela enorme faixa de asfalto e ver que ela é muito maior do que parece quando estamos dentro da aeronave. Encontrei um avião da Azul na pista. Provavelmente uma aeronave que não conseguiu decolar por conta do clima. Senti uma forte tentação de fazer algo diferente, como, não sei, andar sobre as asas do avião, justamente naquela parte em que dizem que não se deve pisar em cima. Mas não vi meios de fazer isso e também não vi sentido. Sofri um profundo vazio existencial diante da situação.

Bebi o que me restava de água e tomei o caminho de volta. Olhei os vagões abandonados do VLT. Olhei as avenidas de Várzea Grande e pensei aonde é que eu poderia ir. Diante do fim do mundo não havia pensando em uma única possibilidade de um lugar em que gostaria de ir uma última vez, até porque esse lugar não existiria mais. Então simplesmente peguei meu carro e saí andando em linha reta, iria até onde o combustível aguentasse. Sentiria, como novidade, a sensação de ver a gasolina do carro acabando.


Segui pela Avenida da FEB, tornei a atravessar o Rio Cuiabá, segui pela XV de Novembro na contramão, avancei pela Avenida do CPA, peguei a Estrada de Chapada. Dirigi lentamente, em meio a fumaça e o fogo dos dois lados da rodovia, desviando dos animais mortos no meio da estrada. Quando vi já estava em Chapada. O paraíso dos fins de semana cuiabano estava abandonado e mal se conseguia ver nada. Segui adiante e passei pelo mirante, rumo a Campo Verde. Passei por enormes plantações de soja queimadas. Cheguei a Campo Verde e suas casas construídas no meio das plantações devastadas. Segui adiante, rumo a Primavera do Leste e em algum momento da BR-070 o motor começou a falhar e meu carro apagou. Estava sem gasolina no meio da rodovia.

Procurei no meu pen drive um disco dos Beatles. Pensei que seria interessante que o mundo acabasse enquanto eu escutava minha banda preferida. O clima dentro do carro passou a ficar insuportável e eu decidi sair. O calor excessivo e a fumaça me deixavam com os olhos praticamente fechados. Andei por alguns metros, quase me arrastando e parei, cansado. Sentia uma espécie de vapor emanando do asfalto, de tudo o que estivesse a minha volta.

Olhei para o lado e visualizei um pequeno grupo de árvores, praticamente secas, no meio da plantação. Provavelmente são as remanescentes da floresta nativa, protegidas pela força da lei que instituiu um percentual mínimo de vegetação nativa nas propriedades rurais. Me arrastei até elas, que estavam mais longe do que pareciam. Passei por uma cerca e procurei um lugar com um resto de sombra. Sentei no chão, fechei os olhos, respirei fundo e senti o ar quente preenchendo meus pulmões.

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