quinta-feira, 6 de abril de 2017

Menino do Acre


A foto que abre esse texto é muito semelhante a uma exposição da Bienal de Arte Moderna de São Paulo. As paredes brancas com escritos precisamente simétricos são uma provocação estética, que não deixam de ter alguma beleza. No centro do quarto, uma estátua macabra, transmite uma sensação de choque. O quadro em que um alienígena segura os ombros de um ser humano, com ambos parecendo prontos para participar de um ritual satânico é o toque surreal que completa a paisagem da instalação. Por último, quando nos aproximamos da parede o que vemos lá não são letras do alfabeto latino, mas uma coleção de símbolos aparentemente inteligíveis.

A obra, no entanto, não é de nenhum mártir da arte pós-moderna e nem está exposta no pavilhão da Bienal. Ela foi realizada pelo jovem Bruno Borges, estudante de psicologia de 24 anos, em seu próprio quarto em um apartamento na capital do Acre, Rio Branco, e é resultado, ao que tudo indica, do longo processo de enlouquecimento do jovem Bruno, coitado, que no momento se encontra desaparecido.

Caso você, assim como o Bruno, esteve sumido nos últimos dias, ou caso tenha sido abduzido pelo extraterrestre do retrato, aí vai um breve resumo do caso: Os pais do jovem saíram de férias e ele ficou trancado no quarto realizando a intervenção supracitada, só que ninguém da sua família sabia de nada. Os pais voltaram, ele almoçou com a família e logo depois desapareceu e só então os pais abriram a porta do quarto e encontraram o tal cenário, além de uma série de 14 livros identificados por numerais romanos, todos escritos a mão e criptografados. A família só sabia que ele trabalhava em um projeto para o qual não deu muitas explicações, mas que ele dizia ser uma teoria inovadora, que o faria ser conhecido mundialmente rapidamente.

Este caso é certamente um dos mais intrigantes que ocorreram no Brasil nos últimos anos. Certo que pessoas desaparecem o tempo inteiro e muitas vezes não sabemos se ela morreu, foi devorada por cachorros, viajou para outro país ou esqueceu o carregador de celular em casa. No entanto, o Menino do Acre tem muitos fatores que o tornam notícia:

1) O caso aconteceu no Acre, que certamente é o Estado mais insólito do Brasil, um Estado que nós ganhamos em troca de um cavalo com a Bolívia, cujo acesso terrestre é extremamente difícil e que nos proporcionou a Adreles, que imortalizou o Acre em uma canção e fez que o país inteiro soubesse das precárias condições de segurança no parque da maternidade. Isso já não é o suficiente?
2) Sério, olha esse retrato que o cara tinha na parede do quarto dele

Enfim, pelas informações que constam na matéria, Bruno não me parecia ser alguém que estava em pleno domínio de suas faculdades mentais. A mãe o descreveu como alguém muito generoso, cujos melhores amigos eram portadores de distúrbios mentais e mendigos. Ele lia muito e tinha um nível intelectual assombroso, capaz de conversar apenas com desembargadores, juízes, algo parecido com a passagem bíblica do Jesus entre os doutores. O jovem era aficionado pelo filósofo italiano Giordano Bruno, morto pela inquisição e, aliás, é justamente o indivíduo representado pela estátua macabra.

Ele foi financiado em R$ 20 mil por um primo médico, que disse que o fez por acreditar no Bruno, que tinha umas ideias que batiam. A mãe disse que leu um dos livros com uma teoria que o jovem queria patentear e, na terceira leitura, finalmente entendeu a ideia, uma teoria que ela descreveu como perfeita.

Por muitas vezes, nós não conseguimos notar os problemas que se desenvolvem dentro do nosso seio familiar. Conseguimos rapidamente ver a degeneração na família e na vida dos outros, mas temos dificuldades em perceber que algum problema acomete uma pessoa tão próxima de nós. Por isso, me parece que a mãe, coitada, teve dificuldades em ver que o filho tinha algum problema. Todas essas ideias malucas - pelo o que foi traduzido de uma página criptografada, nada do que o rapaz diz faz sentido - amizade com pessoas estranhas, enfim (onde é que um jovem de 24 anos arruma desembargadores para conversar?). Difícil acreditar que uma pessoa saudável seria capaz de escrever 14 calhamaços de papel criptografados, copiar os textos pelas paredes da casa e depois sumir.

Possibilidades

Bem, uma das hipóteses para este caso é justamente essa: Bruno enlouqueceu, está no meio de um surto maníaco e saiu vagando pela selva acreana como um andarilho lunático, balbuciando palavras desconexas para o restante da humanidade. Drogas? Talvez sim, talvez não.

Mas, pode ser que tudo isso não passe um plano, elaborado por uma mente um tanto quanto enfraquecida, é claro, mas um plano de divulgação. O cidadão havia falado ao seu primo financiador que sua teoria faria com que ele fosse rapidamente conhecido no mundo inteiro e não vejo realmente uma ideia melhor de divulgar uma ideia filosófica do que a de montar uma instalação artística no seu quarto e desaparecer no mundo. Realmente muitas pessoas devem se interessar no que ele escreveu, mesmo que seja uma porcaria criptografada pelo Manuel dos escoteiros da Disney.

E se a história é genial e o cara enlouqueceu? Se ele armou tudo e escreveu um monte de merda? Se é um teaser da nova série do Netflix? Se ele é um youtuber que está apenas trollando a mãe?


O menino do Acre é certamente um candidato a best-seller, um caso memorável deste mundo louco em que vivemos.

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