quarta-feira, 4 de março de 2015

As 10 pragas do Egito

A bíblia é, sem dúvida, o livro de ficção mais vendido da história. Uma obra cheia de passagens curiosas, com homens que andam sobre a água, que abrem o mar, multiplicam peixes e fazem cadeirantes andar. Ok, o Novo Testamento ainda tem muito relato histórico, mas o Velho Testamento é uma espécie de precursor do tão aclamado realismo fantástico de Gabriel García Marquez.

Cobras falantes, muito, mas muito ódio, com pais matando filhos, irmãos matando irmãos (aliás, essa é minha favorita: Adão e Eva tiveram dois filhos homens, o que já não era muito razoável se formos pensar em um projeto macro de povoamento do mundo. Um irmão mata o outro e então vai embora de casa. O que ele vai fazer? Povoar o mundo com sua esposa. Mas que esposa é essa, se Adão e Eva eram os dois primeiros seres humanos, criados a imagem e semelhança de Deus, Caim e Abel seus dois únicos filhos? Onde está o Ricardão nessa história?) e uma longa saga que envolve os israelenses e os egípcios.

Uma das passagens mais brilhantes é a que versa sobre “As 10 Pragas do Egito”. Numa breve contextualização, os israelenses haviam sido escravizados no Egito e em determinado momento conseguiram fugir, abrindo o mar ao meio e alcançado a terra prometida. Para conseguir liberar o seu povo, Deus resolveu mandar 10 pragas em um jogo no qual ele fazia com que o Rei egípcio cometesse erros, apenas para justificar as pragas. Sim, Ele não gostava dos egípcios. Mas, qual quer que seja o pecado, a reação foi muito, mas muito desproporcional. Vamos conferir.

1) As águas do Rio Nilo viraram sangue.
O Rio Nilo é famoso por competir com o Rio Amazonas pelo posto de maior rio do mundo. O Nilo leva vantagem na extensão total, enquanto que o Amazonas ganha no quesito maior volume d’águas (Brasil-il-il). O rio nasce em Uganda e deságua no Egito, passando por 10 países e sendo a principal fonte de água em uma região árida do planeta. Então, para libertar alguns escravos, Deus transforma esse rio em sangue.

Olha que sacanagem. Imagina o pessoal que estava de boa tomando um banho no rio e de repente sente aquele gosto de ferro na boca. Deve ter deixado muita gente catatônica. Se para liberar os judeus escravizados, Deus transformou um rio em sangue, o que ele deveria ter feito para liberar os judeus dos campos de concentração? No mínimo, ter transformado o Rio Reno em Guaraná Dolly. Mas ao que tudo indica, ele não se preocupou muito com o Holocausto.

Outra questão interessante é: em que ponto é que o rio se transformou em sangue? Foi todo o rio? Ou foi só a partir do momento em que ele entrou em território egípcio? Se foi o rio todo, foi uma grande sacanagem com os ugandenses.

2) O Egito é invadido por sapos
Se não bastasse ter transformado o maior rio do mundo em sangue, eis que Deus resolve promover uma infestação de sapos. As mulheres devem ter entrado em pânico e acredito que essas duas primeiras pragas já seriam suficientes para fazer qualquer povo pedir perdão. Mas, tem mais.

3) Infestação de piolhos
Cara, o povo já não tinha água para beber e para tomar banho, a cidade está cheia de sapos e você ainda resolve colocar um monte de piolhos na cabeça do pessoal? Aquela puta coceira, aulas suspensas. Precisava? Não, não precisava. Mas, de qualquer jeito, imagino que os piolhos surgiram pela pura e simples falta de banho da população.

4) Moscas atacam a população
Essa era meio inevitável. O cheiro de sangue, a carniça no ar, é lógico que ocorreria uma infestação de moscas. Mas, eis um problema: sapos comem moscas e de certa forma, a segunda praga iria anular a ação da quarta. Um claro exemplo de falta de planejamento.

Morreram. Todos.
5) Uma peste mata os animais
Egípcios adoravam gatos e então esses gatinhos todos morrem. Eles, mais os animais de tração, os animais do campo. Pobres animais que não tinham nada haver com a história. Eles não escravizaram ninguém, sabe-se lá em que condições é que eles viviam. Mas, de certa forma, com um rio transformado em sangue, os animais logo iriam morrer. O fato é: a primeira praga já era sacanagem demais, não precisava das outras nove. Aliás, acho que boa parte delas é consequência da primeira e as pragas divinas foram superestimadas.

6) Feridas na cara das pessoas
Sim, os egípcios foram cobertas por feridas purulentas e aposto que ficaram cheios de bernes de moscas varejeiras. As associações de Direitos Humanos da época deveriam ter reclamado da situação insalubre.

7) Uma chuva de granizo destrói as plantações
Essa foi até leve, não? Se os egípcios fossem espertos, teriam recolhido as pedras de gelo em cisternas para ter o que beber. Mas aposto que eles estavam mais preocupados com outras coisas, como tentar se livrar dos bernes e piolhos em suas cabeças.

8) Chuvas de gafanhotos
Ok, teoricamente deus foi mandando mais e mais pragas porque os egípcios não libertavam os israelenses. E, se eles resistiram até aqui, essa é uma prova de sua determinação. Eu já teria desistido faz tempo. Mas eis então, que gafanhotos começam a cair do céu, numa cena surreal. Paul Thomas Anderson curtiu isso.

Imagina a reação das pessoas na hora quem isso aconteceu? O relato diz que os gafanhotos acabaram com as plantações, mas eu pergunto que plantações, se a chuva de granizo ali atrás já não havia acabado com todas? Existem várias barrigas nesse roteiro. Nesses tempos de responsabilidade fiscal, Deus teria suas contas reprovadas no Tribunal de Contas Divino.

9) Escuridão cobre o Egito por três dias
Ok, nós sabemos que é impossível apagar o sol apenas em alguns lugares. Ou deus desligou a luz do mundo inteiro, ferrando com a vida de civilizações primitivas ao redor do mundo, ou ocorreu o maior eclipse da história (então noticiado no Cairo News como o último em 490 anos). Ou então, as pessoas estavam todas cobertas por gafanhotos e não viram nada. Mas, quer saber? Acho que numa situação bizarra como essa, ficar na escuridão deve ter sido ótimo. O que os olhos não vêm, o coração não sente.

10) Os primogênitos morrem
Veja a perseverança dos egípcios. Os caras chegaram até aqui. Passaram por todas essas provações e seguiram sem liberar os seus escravos (imagino que os escravos ficavam em uma região misteriosamente iluminada e que eles conseguiram outro meio de beber água e que os grilos e sapos não chegaram até lá por uma espécie de campo magnético). Então, Deus resolver matar os primogênitos (Aliás, ele tinha uma tara pela morte de filhos mais velhos).

Não importa se era um arrimo de família que sustentava a mãe viúva e desdentada ou se era um filhinho de faraó que participava de rachas com camelos. Morreram todos. É a justiça divina.

Pois, os egípcios resistiram banho de sangue, grilos, moscas, sapos, apagão total, mas matar primogênito não. Matar primogênito foi demais e finalmente os israelenses foram embora. Não sem antes abrir um mar ao meio, acho que só por ostentação. A essa altura, o povo do Egito já tinha percebido que Deus os odiava.

Um comentário :

Gressana disse...

De qualquer jeito os israelenses ficaram andando sem rumo no deserto por 40 anos, então todo mundo se fudeu nessa história.