Nos idos de 2005 Ronaldinho Gaúcho era reconhecido como o melhor jogador de futebol do mundo. O público parava todos os fins de semana para assistir suas exibições com a camisa do Barcelona e jornalistas discutiam em programas televisivos se ele já poderia ser comparado com Pelé ou Maradona. Foi nesse contexto que, em algum dia daquele ano, surgiu um vídeo despretensioso, que talvez tenha sido o primeiro marketing viral da internet.
A cena começava com Ronaldinho utilizando a camisa marca texto do Barcelona durante um treinamento. Ele recebia uma mala dourada da qual retirava um par de chuteiras novas. Após uma análise tátil olfativa, ele calçava as chuteiras e começava a caminhar fazendo embaixadinhas. Chegando na altura da meia-lua da grande área, ele começava o show: chutava a bola no travessão e ela voltava em seu peito. Sem deixar cair, ele mandava outro chute no travessão e a bola voltava ao seu peito e ele fez isso quatro vezes em sequência.
O vídeo foi amplamente compartilhado no MSN, em páginas do Orkut e em versões primitivas do YouTube. Os já citados jornalistas renomados discutiam o vídeo nos programas esportivos. Análises cuidadosas eram feitas em busca de cortes ou alguma trucagem que comprovasse que aquilo não era verídico. Só se falou disso durante alguns dias.
No fim, era tudo uma propaganda da Nike. Vinte e um ano depois continua sendo um material fabuloso. Mas, o que mais me chama a atenção agora é que esse vídeo tem dois minutos e quarenta e sete segundos de duração. O primeiro chute de Ronaldinho na trave ocorreu apenas 96 segundos após o início da película. Para as novas gerações, essa é a duração de um documentário de média-metragem.
Em tempos atuais, nenhum ser humano consegue reter atenção em um vídeo com mais de 90 segundos de duração. E esse minuto e meio só é conquistado pelas obras primas do entretenimento virtual, por aqueles vídeos que descarregam uma quantidade enorme de dopamina em nossos cérebros. Em muitos casos, cinco segundos já é demais. O vídeo de Ronaldinho seria hoje rejeitado por qualquer especialista no mundo digital. Ganharia uma edição de 10 segundos em velocidade 1.3, com uma trilha sonora de trend e, quem sabe, Ronaldinho sentado em frente a um microfone contando como foi a resenha desse dia.
Hoje em dia, tudo tem que ter a Estética do Corte.
A comunicação contemporânea passou a ser organizada pela expectativa de que qualquer momento possa ser destacado, recortado e distribuído de forma massiva em redes sociais. Há toda uma estética, uma maneira de raciocinar, uma maneira de falar, um tom de voz típico de quem está produzindo um corte.
Isso está intrinsecamente associado à epidemia de podcasts que assola o país, uma vez que este é o ambiente in natura do corte instagramável. Hoje em dia é normal que pessoas falem simulando que estão em podcasts. Uma platitude qualquer ensaiada, mas dita como se fosse algo espontâneo diante de um microfone colorido e um fundo com iluminação destacada tem um poder de amplificação muito grande. Quase a banalidade do mal.
(Estúdios de podcast provavelmente faturaram mais com a produção de cortes simulados do que com a gravação de programas ao longo de 2026)
Pessoas normais estão simulando cortes o tempo inteiro ao longo do seu cotidiano. Mesmo que não estejam falando nada, mas apenas editando o seu dia de forma que sua rotina pareça frenética e digna de engajamento. Tudo isso, é claro, facilitado pelo amplo acesso à equipamentos capazes de produzirem vídeos em alta definição. Anos atrás para que você pudesse ser filmado de maneira minimamente profissional era preciso ir em algum estúdio, invadir um canal de televisão ou algo do tipo.
Dia desses eu andava pelas ruas do meu bairro quando vi uma mulher correndo de forma desajeitada. Ela usava roupas de academia cor de rosa e um casaco, porque estava frio, e corria em um ritmo (pace para os íntimos) pouco usual para corredores amadores. Tudo isso como se ela tivesse um problema de coluna que fizesse com que a parte superior do seu corpo se mantivesse com uma rigidez pouco usual. O motivo é que ela estava se filmando enquanto corria, o braço direito estendido acima da cabeça, filmando de cima para baixo.
Se filmar correndo não é algo exatamente simples. Tanto que a corredora parou e, ofegante, começou a ver o vídeo. Observou cada detalhe com ar de reprovação. Se pôs a correr novamente por quinze segundos frenéticos, tentando ajustar os mínimos detalhes para um story perfeito. Porque, afinal, mais importante que o bem-estar do corpo é aquele bem-estar psicológico que só quem divulga que venceu as dificuldades de um dia frio para praticar atividade física consegue, aquela injeção de dopamina que só as inúmeras curtidas e mensagens sugestivas de sexo podem proporcionar.

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