Eleição do Condomínio

Condomínio Edgar Morin, Planaltina-GO

Às 19h da terça-feira, dia 27 de fevereiro de 2026, os moradores deste condomínio se reuniram no salão de festas para participar do processo de escolha do novo síndico e do novo subsíndico condominial. A abertura do processo foi feita pelo atual síndico, Doutor Waldir Alexandre Arruda, morador do apartamento 178. Ele esclareceu as regras de participação no processo e informou que apenas condôminos sem multas ou outros débitos pendentes podem participar das eleições, exceção feita ao senhor Rogerinho Cachoeira, do apartamento 86, que apresentou um habeas corpus liberando sua disputa.

O atual síndico fez uma defesa de sua gestão, apresentando um longo Power Point com planilhas detalhadas sobre os seus êxitos e vídeos de familiares elogiando sua dedicação ao serviço. Doutor Waldir, que chegou a chorar de emoção, disse que não irá concorrer a reeleição porque tem sofrido fortemente com hemorroidas, que provocam sangramento anal incessante e falta de apetite. Ele voltou a chorar.

Em relação às eleições, o síndico explicou que haveria um tempo para a inscrição das chapas participantes e, após esse período, seriam conferidos todos os documentos dos concorrentes. A eleição seria feita com contagem de mãos levantadas e a chapa vencedora seria aquela que conseguisse 50% mais um voto e, caso necessário, seria realizado um segundo turno com os dois primeiros candidatos. Em caso de empate, o vencedor seria o candidato mais velho, que esteja mais próximo da morte, o que possibilitaria uma nova eleição em caso de falecimento.

Após isso, se sucedeu um período de falas desconexas, que resultaram no senhor Roberto Carlos Júnior dos Santos, do apartamento 71 sendo baleado. O síndico Doutor Waldir Alexandre afirmou então que o período de inscrições de chapas estava aberto. Waldir aproveitou para esclarecer que ele próprio havia baleado Roberto Carlos, uma vez que o morador do 71 permanecia em pé sobre a cadeira do salão de festas - o que é vedado pelo regimento interno, fazendo barulhos guturais e gestos estranhos com as mãos - o que não é proibido pelo RI, mas é terrivelmente irritante, o que leva o nosso ainda síndico a crer que ele será completamente absolvido pelos tribunais.

Findado o prazo de inscrições, duas chapas foram formalizadas. A primeira é encabeçada pelo supracitado Rogerinho Cachoeira do apartamento 86, candidato ao cargo de síndico, tendo o baleado e agonizante Roberto Carlos Júnior dos Santos, do apartamento 71 lutando pela vida e pelo posto de subsíndico. A chapa 02 tem Carolina Krubsky Ferreira, do apartamento 162 concorrendo como síndica, e o Antunes Punhetinha do 24 para subsíndico.

Antes da eleição, cada chapa teve um tempo de 20 minutos para se apresentar aos demais condôminos. A fala começou com a Chapa 01, nesta ocasião representada pelo advogado Henrique Lins e Silva, legalmente autorizado, por meio de procuração, a representar o senhor Rogerinho Cachoeira. Henrique fez uma breve apresentação sobre o currículo de Rogerinho, lembrando que ele é policial civil aposentado, atuou por 15 anos no ramo de entretenimento e loterias alternativas, além de ser um empresário de sucesso, com diversos contratos celebrados com órgãos públicos para recolhimento de lixo, manutenção predial e aluguel de carros. É essa experiência que Rogerinho quer colocar à disposição dos seus vizinhos.

Já o possível subsíndico Roberto Carlos Júnior dos Santos permanecia deitado no chão, espumando sangue pela boca e com graves perfurações em seu abdômen. Henrique Lins e Silva apresentou novas assinaturas mostrando que podia responder por Roberto Carlos, além de ter se tornando seu inventariante e herdeiro direto. Afirmou que Roberto é um homem tranquilo e que, caso eles vençam o processo eleitoral, poderá buscar mais informações sobre a vida pregressa deste homem.

Como ainda havia tempo, o microfone foi aberto para os moradores, para que quem tivesse disposição e coragem pudesse fazer perguntas. O morador Carlos Nascimento, do apartamento 18, pediu a palavra e perguntou ao advogado Henrique se o fato de Rogerinho estar preso não atrapalharia sua atuação enquanto síndico, uma vez que este cargo exige presença direta e trabalho constante no dia-a-dia da edificação. Carlos lembrou que Rogerinho atualmente cumpre pena de 86 anos no Complexo Penitenciário Municipal por seis assassinatos triplamente qualificados, latrocínio, estelionato, formação de quadrilha, apropriação indébita de bens, extorsão, ameaça, perseguição, infanticídio, abandono de incapaz, lesão corporal qualificada, injúria, calúnia, difamação, constrangimento ilegal, trabalho escravo, tráfico de pessoas, maus tratos animais, violação de correspondência, receptação, dano qualificado e violação do direito autoral.

Henrique disse que a privação de liberdade nunca foi um problema para o incansável vigor trabalhista de Rogerinho. Além disso, o seu cliente sabe onde Carlos mora, onde ele trabalha, onde seus filhos estudam e que estaria disposto, casa seja necessário, a ter uma conversa civilizada com ele para explicar que tudo isso não passou de um grande mal-entendido cometido pela Justiça, que Rogerinho é inocente. A única exceção foi a violação do direito autoral, mas todos haviam de concordar que o disco Fijación Oral da Shakira valia o risco e que em 2007 não havia tanto conhecimento sobre o assunto.

Sem mais dúvidas, a palavra passou para Carolina Krubsky, que apresentou seu currículo. Ela é administradora de empresas, pós-graduada em gestão de marketing e com especialização na dança zumba. Já foi administradora de cinco unidades da oakberry em Indiavaí, Jundiái, Juscimeira, Ribeirão Grande e Ribeirão Preto. Como dançarina de zumba já foi seis vezes campeã goiana, quatro vezes vice-campeã mineira (havia uma concorrente muito forte), 12 vezes finalista do campeonato brasileiro e participou de quatro edições do campeonato sul-americano em Buenos Aires, tendo sido convocada para um campeonato mundial na Eslovênia, do qual não consegui participar em razão de uma apendicite. Já dançou zumba em 25 estados brasileiros - ainda espera dançar em Roraima - e 18 países. Ficou a 17 minutos de bater o recorde mundial de tempo consecutivo dançando zumba. A zumba é sua grande paixão e ela poderia passar horas falando sobre o assunto e descrevendo os mínimos detalhes desta dança fascinante.

Carol Zumbdance, como gosta de ser chamada, pretende implantar um grande projeto de dança condominial, garantindo uma vida mais saudável, principalmente para os idosos que não tem muita razão para viver. No entanto, crianças, adolescentes, homens e mulheres de qualquer idade podem participar. A Zumba é uma dança contagiante e pode ser praticada de maneira frenética por qualquer pessoa. Além disso, ela pretende reformar a caixa d’água e implantar uma brinquedoteca no apartamento 05, abandonado desde que vizinhos kardescistas relataram a presença de espíritos obsessores no local, mas segundo Carol, isso é uma superstição e superstições precisam ser combatidas com cultura - e zumba.



Carlos Nascimento, sempre ele, perguntou para Carol o que ela pretendia fazer para conter os atos de vandalismo praticados por adolescentes nas lixeiras do condomínio. É de conhecimento geral, afinal, que grupos de jovens têm derrubado lixo no chão, pichado e inclusive ejaculado nas lixeiras, um problema sério. Carol respondeu que a zumba era a resposta. Carlos então perguntou sobre as infiltrações provocadas por uma piscina irregular construída no prédio ao lado e Carol logo respondeu que resolveria todas as questões dançando Zumba. Ela deixou claro que a Zumba era a resposta para todos os problemas que pudessem ser registrados naquele condomínio, no país, quiçá no mundo.

Sem mais perguntas, o Doutor William Alexandre Arruda, que - cabe lembrar - é o atual síndico, deu início ao processo de votação. Ele fez questão de frisar que permaneceria em pé o tempo todo, por conta da hemorroida. Distribuiu cartões laranjas na mão de todos os presentes e perguntou quem votaria na Carol Zumbdance do apartamento 162. Seis pessoas levantaram a mão e o advogado Henrique começou a fotografar elas, o que levou cinco desses votantes a voltarem atrás. Apenas o senhor Roberto Carlos, outrora baleado, permaneceu com a mão levantada e gritando que precisava de ajuda para respirar, mas ele foi misteriosamente baleado novamente, vindo à óbito. O advogado Henrique então se sentou na mesa da diretoria e deixou claro para todos que carregava uma arma em sua cintura.

Doutor William pediu então que os eleitores do Rogerinho levantassem a mão e todos os presentes levantaram. O advogado Henrique achou que fosse de bom tom que Rogerinho fosse aclamado síndico e pediu que todos se levantassem e começassem a aplaudir e emitir gritos agudos de alegria, no que foi prontamente atendido.

Alguém levantou a questão de que o senhor Roberto Carlos, agora falecido, era o candidato a subsíndico na chapa de Rogerinho. Como ele agora se encontra sem vida e apresentando rigidez cadavérica no chão do salão de festas, isso poderia inviabilizar sua eleição e anular o processo. O advogado Henrique deu uma coronhada no cidadão e declarou que a eleição estava encerrada. Também aprovou que 10% da renda de todos os moradores fosse destinada a ele como honorários advocatícios, não sendo contestado.

Assim encerra-se a presente ata.
Marcos Pereira, zelador.

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