Coitada da Barata

“A barata diz que tem sete saias de filó. É mentira da barata, ela tem é uma só”. Estes versos abrem uma popular música infantil, cantada por crianças de várias idades. Todos os versos seguintes continuam na estrutura deste primeiro. O interlocutor traz uma afirmação que teria sido feita pela barata, para logo em seguida, em uma espécie de fact checking em tempo real, informar que a barata estaria divulgando fake news. Para mostrar a coerência da checagem de dados, o verso é finalizado com a informação correta.

No entanto, aos poucos a letra vai se transformando em um tratado de tirania e bullying contra a pobre barata, que a cada mentira recebe diversas risadas. A barata diz que tem um sapato de veludo, mas é mentira, na verdade ela tem o pé peludo. Ela diz ter um anel de formatura, mas em vez disso o que ela tem é a casca dura.

Percebam que as risadas e apontamentos são direcionados exclusivamente a aspectos considerados negativos na aparência da barata. Ela pode até ter mentido, mas isso é motivo para ficar rindo dos seus defeitos. É motivo para promover este linchamento moral contra o pobre inseto?

A implicância para/com a barata fica muito clara em alguns versos. Ela diz que tem um sapato de fivela, mas na verdade o sapato é da mãe dela. Da mesma forma, ela diz ter um vestido de babado, mas ele estaria rasgado. Oras, o fato de o vestido estar rasgado não anula sua existência. Uma boa costureira pode resolver este problema facilmente. O fato de o sapato ser da mãe dela não anula sua posse sobre os bens - em um futuro não muito distante, já que baratas vivem no máximo dois anos.

Há uma grande diferença entre afirmar que uma pessoa mente sobre a quantidade de bens que ela possuí e sair por aí apontando características físicas fora dos padrões estabelecidos pela sociedade patriarcal.

Ao final da canção, podemos perceber que, além do complexo de inferioridade por estar fora dos padrões, a barata sofre com a falta de bens materiais, o que também é motivo para o tratamento jocoso. Ela diz que viaja de avião, o que seria mentira, já que ela tem que pegar o busão. Não teria dinheiro nem para o sabão.

Chega a ser uma implicância com a barata. Será que realmente é tudo verdade, ou estão apenas inventando fatos para praticar bullying contra o pobre e repugnante inseto? Crianças, no geral, tendem a inventar histórias, muitas vezes, não por maldade, apenas por confundirem a realidade e, ao que parece ser o caso da barata, como forma de se enturmar em uma sociedade profundamente materialista. Afinal, ao que parece, para ser aceito no grupo social da barata, é preciso ter ampla variedade de caros itens de vestuário.

Parem com esse bullying contra a barata. Ao que me parece, ela é só mais uma vítima da sociedade, alguém que vive às margens do que é socialmente aceito e, provavelmente, sem acesso à terapia e outras políticas de saúde mental.

Outra vítima de difamação nas canções infantis é o sapo que, dizem, não lava o pé, mesmo morando na lagoa, o que comprovaria sua má-fé em questões de higiene pessoal. Tal fato levaria a um doloroso chulé.

Mas, pensem bem, essa história não faz o menor sentido. Porque o sapo não lavaria o pé, mesmo morando na lagoa? Isso é inverossímil. É praticamente impossível que ele não lave o pé, uma vez que ele vive molhado. Caso apresentasse alguma espécie de aversão à água, ou uma incrível resistência ao ato de lavar os pés, o sapo poderia ter facilmente decidido por ir morar em um lugar mais seco.

Agora, para quem mora na lagoa, é realmente bem difícil manter alguns aspectos da higiene, porque a umidade é um negócio complicado. Quem já passou alguns dias próximo a uma lagoa sabe que as roupas não secam direito, fica tudo com aquele cheiro de guardado na sombra. Mesmo assim, não tenho medo de afirmar: o sapo é vítima de difamação, o que pode levar seus detratores a penas de três meses a um ano de reclusão, mais multa.

(Aqui é sempre bom fazer aquela distinção sobre as diferenças entre calúnia, injúria e difamação. A difamação atinge a honra de forma objetiva, atribuindo à alguém um fato negativo, não criminoso e que mancha sua reputação. A injúria, por sua vez, atinge a honra de forma subjetiva, ofendendo a dignidade ou o decoro de alguém com insultos - com pena que pode variar de um a seis meses. Por fim, a calúnia consiste em acusar alguém falsamente de ter cometido um crime, com pena de seis meses a dois anos. Portanto, não tenho dúvida da tipificação criminal de “O Sapo Não Lava o Pé”).

Músicas infantis escondem diversos e complexos aspectos psicológicos. O que podemos falar da Dona Aranha? Vocês conhecem, ela subiu a parede, veio a chuva forte e a derrubou. Quando a chuva termina, a Dona Aranha continua subindo, pelo menos até a próxima chuva.

Não sabemos quais são as suas motivações. Ela parece subir a parede sem motivo aparente e desconhecemos se um dia ela finalmente cumpre sua missão, isso se realmente há uma missão. Talvez ela suba a parede apenas porque é a única coisa que lhe sobrou, portanto ela passará o resto da sua vida subindo paredes e sendo derrubada por chuvas. Pode ser um exemplo de perseverança em palestras de coach, mas Dona Aranha está mais uma espécie de Sísifo camusiano moderno.

E é isso. O CH3 jamais se furtará a fazer observações sobre as canções infantis. Há muito tempo alertamos para a crueldade de Atire o Pau no Gato, levando grupos ambientais a se manifestarem. Trabalhamos para banir a música Dorme Neném, que obriga crianças a dormirem sob o risco de serem sequestradas. Ou sobre a violência doméstica em O Cravo e a Rosa. A culpabilidade da vítima, no caso da Maria, que morreu porque não soube remar. Ou o soldado que foi vítima de uma detenção arbitrária por não saber manchar. Essas canções estão, todas elas, de certa forma, associadas à escalada do fascismo.

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