A Lógica do Parça

Lucas Paquetá deixa a área reservada aos jogadores da seleção brasileira após o jogo contra o Haiti e se dirige até um cercadinho onde estão posicionados o onipresente Chico Moedas e um repórter da Globo desconhecido do grande público. Moedas recebe o jogador brasileiro com um largo sorriso, um cumprimento de brother e juntos eles fazem uma dancinha do TikTok, marca indelével do meio-campista do Flamengo em suas comemorações de gol.


Os dois sorriem e Chico abre o microfone para que Paquetá fale qualquer coisa que esteja se passando em sua mente. O repórter da Globo então entra em ação e começa a fazer perguntas mais objetivas ao jogador, incluindo um assunto de grande interesse público: a lesão do atleta Raphinha, recebendo informações relevantes sobre o assunto.

Paquetá vai embora e, de um estúdio no Rio de Janeiro, o célebre Casimiro Miguel passa a cobrar a postura do seu funcionário e amigo Chico, dizendo que ele havia sido goleado pelo repórter da Globo. Francisco apenas ri, cumprimenta o repórter da Globo e finaliza o assunto com um tamo junto, o bordão máximo dos parças.

Pois bem, esse texto irá falar justamente deles: os parças. E a lógica por trás desta relevante função social, que hoje contamina boa parte da cobertura esportiva brasileira. Mas, qual seria a lógica do parça? Bem, precisamos voltar um pouco no tempo para explicar. Não tanto como se estivéssemos em uma terapia regressiva, que faria com que Chico Moedas e Lucas Paquetá se descobrissem como parceiros de banco e remadas em uma galera romana.

O Parça

O parça é mais do que um amigo do jogador de futebol. É alguém que, durante a juventude, desenvolveu profunda amizade com um garoto que se destacava nas partidas, mas que ainda não era ninguém. Juntos, viveram todo o esplendor das amizades adolescentes, dividindo os bons e maus momentos, as festas, a alimentação desequilibrada, a descoberta da sexualidade, os pequenos furtos.

A partir do momento em que o jogador fica extremamente famoso e começa a ganhar muito dinheiro, o parça passa a viver com ele. O jogador é responsável por sustentar as finanças, enquanto o parça se torna responsável por pequenas ações como trocar pneus do carro, organizar churrascos, orgias e possíveis ocultações de cadáver em casos que saíram um pouco do controle.

O parça não é apenas um amigo, é alguém que estará sempre ao seu lado e nunca irá te questionar. 

O Jornalismo Esportivo

O jornalismo esportivo sempre usufruiu de uma desconstrução atípica para outras editorias jornalísticas. Jamais veremos matérias sobre o Congresso Nacional com repórteres de camiseta fazendo trocadilhos bobos e comparando o formato do prédio do parlamento brasileiro a um pênis.

Essa tendência passou a ser extremamente acelerada a partir do momento em que Tiago Leifert assumiu o comando do Globo Esporte nacional em 2009. A graça passou a ser mais importante do que a informação em si. Em pouco tempo passaríamos a conviver com o João Sorrisão e daí em diante tudo foi ladeira abaixo. Logo teríamos o canal desimpedidos, o cartolouco e todo um ecossistema baseado em piadas e descompromisso com a verdade objetiva dos fatos.
Ninguém, no entanto, fez alguma matéria comparando o João Sorrisão a um pênis

A Resenha

No futebol o termo resenha é utilizado desde meados dos anos 2000. Ela se refere ao bate papo descompromissado que jogadores têm entre si em seu cotidiano. Em uma era de culto à personalidade, passou a ser também objeto de reverência no mundo do futebol. Jogadores ficaram com fama de serem ótimos de resenha, vídeos de jogadores contando histórias engraçadíssimas envolvendo o ex-técnico Evaristo de Macedo¹ passaram a viralizar e o termo resenha passou a definir qualquer tipo de papo furado. Quatro amigos falando bobagem = resenha.

A estética da resenha logo passou a dominar as transmissões esportivas, sendo que a CazéTV representa a consolidação desse movimento, tendo Tiago Leifert e Caio Ribeiro como patronos.

Uma coisa que move todos esses programas é a Lógica do Parça. E agora vamos dizer, o que vem a ser isso? Todos os apresentadores atuais querem parecer que eles são parças dos jogadores. Essa resenha que surgiu nos vestiários extrapolou as fronteiras do profissionalismo e dominou o ambiente. Porque não basta resenhar, é preciso demonstrar intimidade.

Boa parte dos jornalistas que participam da cobertura esportiva tem o sonho de serem parças dos jogadores e dessa forma obter todos os benefícios que essa função traz. E quando você está entrevistando alguém a quem você deve fidelidade canina, você simplesmente não faz perguntas que causem desconforto. Na entrevista de parça para parça, o público passa a ser uma espécie de voyeur da conversa íntima entre os companheiros, quase como se Chico Moedas estivesse no vestiário, seminu, batendo papo² com Paquetá.

A intimidade foi transformada em lógica comercial. As pessoas querem sentir que estão dentro dos bastidores, dentro de um grupo de WhatsApp. A transmissão da Cazé TV então proporciona uma espiral de parça. Porque ao mesmo tempo em que eles querem ser parças dos jogadores, eles também querem que o público se transforme em parças dele.

A lógica da transmissão se baseia na piada, nos reacts das personalidade, nos memes, nos bastidores, em pessoas tendo resenhas inacreditáveis, transformando assuntos banais dos bastidores em histórias mirabolantes que só a fama pode proporcionar. Dessa forma, tal qual os comentaristas defendem Neymar acima de todas as coisas, os fãs da Cazé TV defendem o canal acima de tudo.

O Rei dos Parças

Não basta ser famoso. É preciso estar dentro da roda. É preciso demonstrar que você conhece o Neymar, que esteve na casa do Neymar, que jogou o videogame com Neymar, que fez um churrasco com o Neymar, que - se for o caso - masturbou o Neymar, que você é devoto da figura do menino Ney.

Tiago Leifert levou essa lógica ao extremo ao declarar que gostaria de reencarnar como Neymar. Não é que ele goste do jogador. Ele gostaria de morrer e - seguindo os ensinamentos de Allan Kardec, voltar a viver no corpo do Neymar. Algo que é um tanto quanto estranho, uma vez que o Neymar ainda está vivo, e acho que você não consegue reencarnar no corpo de pessoas que estão vivas. Mas, dane-se a lógica: é preciso fazer tudo para habitar aquele lugar social.

Neymar não é apenas um jogador de futebol. Ele está no topo da cadeia alimentar dos parças, permanentemente cercado de parças. O sonho não é necessariamente ser Neymar, é fazer parte da vida de Neymar.

A este fenômeno podemos dar o nome de Neymarzismo Cultural. Um dia as escolas, se elas ainda existirem, poderão estudar como essa atitude afundou o futebol e a sociedade brasileira no início do século 21.

¹ Imagino que um dia haverá um programa chamado Resenha Inacreditável com Evaristo de Macedo. Programa que não terá Evaristo de Macedo, mas será apresentado pelo Bruno Cantarelli falando.
- Meus amigos hoje estamos aqui com o ex-jogador Amaral para mais um Resenha Inacreditável com Evaristo de Macedo. E vou te falar, ele vai contar uma resenha que
- Olha, inacreditável (interrompe o amigo dele do Charla)
- Inacreditável
Amaral ri
- Com quem amaral?
- Com Evaristo de Macedo.
- Conta aí essa resenha.
- Olha, inacreditável
E então fala qualquer coisa imitando aquela voz meio aguda do Evaristo e fim do programa.

² Caso sua mente tenha lido “batendo punheta”, procure ajuda psicológica.

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