Oktober Fest

A Oktober Fest é um dos eventos culturais mais tradicionais e populares da região de Munique, na Alemanha. Diz a lenda, que a festa foi criada pelo rei Ludwig I da Baviera em 1810, com o objetivo de celebrar o seu casamento. A festa fez tanto sucesso, que resolveram repeti-la novamente no ano seguinte e no outro ano e no outro, e assim vem sendo desde então. Durante duas semanas ou mais, a população bávara mergulha em uma espiral alcoólica, consumindo intermináveis jarras de chope e cerveja até chegar ao estado de falência emocional.

Por uma dessas razões que nos fazem duvidar de Deus, a Oktober Fest, cuja tradução literal é - vocês vão se surpreender - Festa de Outubro, não acontece no mês de outubro na Alemanha, mas sim em Setembro. Geralmente ela se estende por alguns poucos dias de outubro, o que faz com que esse nome seja uma enorme ironia.

Como a premissa da festa é um tanto quanto agradável - beber cerveja indiscriminadamente, ficar muito louco, cometer atrocidades morais e fazer tudo isso dentro da lei e junto com várias outras pessoas também amparadas pela lei, a Oktober Fest se espalhou pelo mundo e hoje diversas cidades em dezenas de países realizam suas próprias edições da festa. Ao contrário da festa original, as suas variações costumam a ocorrer em outubro mesmo, porque seria muito difícil vender esse produto mercadológico e convencer as populações que não convivem com essa tradição esquizofrênica do mês errado a participar da festa.

O Brasil não poderia fizer de fora dessa tendência e desde 1978 a colônia alemã em Santa Catarina realiza sua Oktober Fest, essa sim em outubro mesmo. A cidade que recebe a celebração é Blumenau, cidade com aproximadamente 350 mil habitantes no norte de SC. A festa dura duas semanas e é a mais tradicional Oktober Fest do Brasil, uma vez que hoje me dia temos OFs particulares até em quintais de pessoas mais abastadas financeiramente.


Um dos grandes momentos da festa é o desfile realizado no centro da cidade no sábado, o dia que mais atraí visitantes interessados em vivenciar essa experiência. A avenida XV de Novembro é tomada pelos participantes dos desfiles, enquanto as calçadas ficam lotada com moradores, amigos, familiares, curiosos e os tradicionais vendedores ambulantes.

O clima é de cultura alemã, ou de simulacro dela. Para cima e para baixo, pessoas desfilam em trajes considerados típicos, que consistem em: calça, bermuda, suspensórios, chapéu, sapatos e meias até os joelhos para os homens; um vestido com um decote abastado para as mulheres e eventuais tranças no cabelo, ou coroa de flores na cabeça.

As lojas vendem produtos relacionados à celebração, como as próprias tiaras decoradas com flores, camisetas e canecas de metal com o símbolo da festa em diferentes tamanhos: desde as pequenas até as enormes, para as quais seriam necessárias algumas garrafas de chope para que fiquem cheias.

Uma loja em específico tocava músicas que tentavam ser alemãs e outras que nada mais eram do que cidadãos falando com um sotaque alemão cantando músicas em mais diversos ritmos. Havia até um pagode chamado “dança do caneco”. Sempre com muitas referências aos Fritz e às Fridas imaginários. Pude observar também uma enorme quantidade de músicas que utilizavam uma base eletrônica que podemos classificar como brega, e um hino informal cujo refrão dizia “zig zag, zig zag, oi oi oi”. Sim, era um pouco deprimente.



O desfile começou em algum horário próximo às 16h, com a presença de um Papai Noel em um jipe militar. Atrás dele, pessoas fantasiadas de renas, ursos polares e outros animais que vivem em regiões frias, faziam uma coreografia ritmada com a música do Papai Noel do jipe militar. Haviam também meninas que interpretavam os duendes ajudantes do bom velhinho. Não dava para negar que era um começo promissor pela carga de surrealismo.

Depois começam a chegar os vários grupos participantes do desfile que de certa forma se assemelham a blocos de carnaval. O desfile da Oktober Fest no fundo é isso, uma grande micareta em que quem desfila provavelmente se diverte muito mais do que quem apenas assiste. Saem os abadás, entram os trajes típicos.

Há grupos com nomes excêntricos e que tentam repassar um pouco das tradições germânicas, como o carro “cultura dos cristais” – com direito a cidadãos moldando cristais ao vivo, ou ainda o “maquinários agrícolas” e outros relacionados a culinária. No entanto, a enorme maioria é formada por participantes de grupos, dos clubes de caça e tiro, de lanchonetes, restaurantes, lojas. Todos fantasiados de Fritz e Fridas, segurando enormes copos de cerveja em suas mãos que eram abastecidos ao longo de todo o percurso. Os que desfilam gritam, dançam, falam coisas sem sentido e riem, o que, convenhamos, é uma característica normal de quem está bêbado.

O consumo de cerveja chega a ser opressor - um consumo realmente paquidérmico. Certa hora fui a uma lanchonete e pedi uma água e senti que poderia apanhar por não estar bebendo cerveja. É possível observar ainda uma enorme tendência ao alcoolismo juvenil, com a presença de adolescentes, crianças e bebês nessa cachaçada fenomenal. Flagrei inclusive um pai mergulhando a ponta da chupeta na cerveja, quase em um gesto fraternal de perpetuação das tradições.

Quando o desfile finalmente acaba e as pessoas já estão suficientemente bêbadas, elas partem em direção a vila germânica, o local em que a festa realmente se desenvolve. Adquirindo ingressos com preços módicos, é possível entrar dentro do pavilhão e... beber ainda mais cerveja, escutar mais música com sotaque alemão e ver pessoas em trajes típicos bebendo cerveja, rir disso tudo, começar a falar coisas sem sentido, dançar, beber mais, eventualmente praticar o nudismo em público, perder levemente os sentidos, ver as coisas meio turvas, desfalecer lentamente, ser levado para um pronto atendimento e receber soro na veia, acordar com uma dor de cabeça terrível e vomitar tudo durante o dia inteiro seguinte.

(Pequena curiosidade. Um dos blocos desfilantes era dedicado a arte de tomar chope por metro, em enormes e impressionantes canecas com um metro de comprimento de aspecto afunilado. Pois toda essa frescura era para tomar Schinchariol, a patrocinadora oficial da festa).

De acordo com os dados dos organizadores, mais de 700 mil pessoas estiveram dispostas a participar disso tudo nas duas semanas do evento. Elas chegam em enormes carreatas, em ônibus animados nos quais as pessoas gritam sem parar. E o que mais me surpreendeu na hora de ir embora, é que não presenciei uma única blitz da lei seca.

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