sábado, 16 de abril de 2011

Hinos

Você devia ter por volta de seis anos quando resolveram que você deveria aprender a cantar o Hino Nacional Brasileiro. Você então decorou aquelas palavras sem tem a menor idéia do que elas significam. E é provável que até hoje você não saiba o que elas querem dizer. Você já parou para pensar nisso? Não? Tudo Bem.

Pois, observe atentamente a letra do Hino Nacional. Dou-vos poucos segundos para que expliquem, sem consultar um dicionário, o significado de:
- Raios Fúlgidos.
- Terra mais Garrida.
- Fulguras, ó Brasil, florão da América.

Hoje em dia é mais fácil, apesar de a maior parte das pessoas acharem que o Brasil é uma grande flor da América. Mas pense quando você tem sete anos. Quem tem tanto vocabulário assim? Possível que imaginássemos que o Verde-Louro era um papagaio, que por algum motivo estava em uma flâmula.

Para complicar, o hino ainda é todo escrito em ordem aleatória. Nem o Mestre Yoda seria capaz de bagunçar tanto a ordem dos sujeitos, predicados, verbos, substantivos. E os adjetivos? Céu profundo. Berço esplendido. O começo da segunda parte é o mais confuso. Traduzir o hino nacional para um português normal é um trabalho que deve demorar alguns anos.

Ainda há o grande truque de confusão que é aquela parte em que as pessoas sempre cantam:
- Ó PÁTRIA AMADA, IDOLATRADA, SALVE, SALVE! BRASIL de unsonsnainse seja raio vívido! De amor e esperança a terra DESCE!

São anos até que você acerte completamente quando o Brasil é um sonho intenso e quando ele é de amor eterno. E quando você finalmente consegue – se conseguir, afinal muitas pessoas morrem sem conseguir – resolverão te ensinar o Hino da Bandeira. Mais confusão.

Porque, no que raios se consiste um Pendão? Essa palavra que durante séculos serviu apenas para fazer adolescentes bobos rirem enquanto pensavam numa rima de “pintão”. E ainda temos o símbolo augusto e a certeza de que alguma lei nacional proibia que as pessoas utilizassem o método sujeito-verbo. Fora que os letristas adoravam usar a palavra “seio” nos hinos. Seriam os poetas tarados?

Mais raro nos ensinamentos atuais, está o Hino da Independência, que Dom Pedro I compôs inspirado na Marselhesa francesa. É o hino de refrão mais fácil e a primeira estrofe é bem simples. Gerações e mais gerações cantaram “japonês tem quatro filhos” ao invés de “Já podeis da pátria filhos” só por sacanagem mesmo.

Mas na segunda estrofe, Evaristo Veiga – o nome do letrista – escreveu um dos mais cruéis exemplos da língua portuguesa:
“Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil”
São tantas palavras difíceis e seu significado é tão complicado de entender, que a única hipótese é a de que ele tenha aberto um dicionário aleatoriamente para escrever esses versos.

Ainda há o Hino da Proclamação da República que pouca gente conhece, mas que tem os famosos versos: “Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós!”. Famosos porque viraram samba-enredo da Imperatriz.

Os hinos pelo mundo.
Apesar de bem complexos, os hinos brasileiros ainda tem uma temática simples. Vários hinos ao redor do mundo são uma carnificina. Na França, um pescoço é degolado sempre que a Marselhesa é tocada:
“Às Armas cidadãos! Formais vossos batalhões! Marchemos! Marchemos! Nossa terra se saciará de sangue impuro”.
Imaginem ensinar isso para uma criança de sete anos!

Os portugueses também pedem que as pessoas peguem em armas.
“Às armas! Às armas! Sobre a terra e sobre o mar! Às armas! Às armas! Pela pátria lutar! E Sobre os canhões marchar”.
Os lusitanos se empolgam tanto com essa parte, que alguns até terminam com um “marchar, porra!”.

Já os alemães cantam arianamente “Alemanha sobre tudo”. Os italianos que estão prontos para morrer. Os ingleses pedem que deus salve a rainha. E não só isso. Ele também deve fazer com que a rainha seja feliz, gloriosa, poderosa e glamorosa. Deus deve ainda confundir a política dos adversários e, se possível, matar os escoceses. Já os espanhóis não cantam nada. O hino deles não tem letra, para felicidade das crianças de sete anos.

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