A Era das Celebridades (Mesmo se tu não quiseres)

Chico Moedas era uma figura desconhecida do grande público brasileiro. Era o amigo maconheiro do streamer Casimiro que supostamente entendia de economia, até o dia em que sua namorada terminou com ele durante um café da manhã do Programa da Ana Maria Braga. O motivo era uma suposta traição ocorrida no banheiro do Galeto Sat’s no Rio de Janeiro (unidade Botafogo).


A namorada de Moedas era ninguém menos que a cantora Luísa Sonza, que a essa altura era uma das principais personalidades das redes sociais brasileiras, com quase 30 milhões de seguidores. O namoro dos dois foi um furacão midiático: começou em julho de 2023, se popularizou em setembro, quando Sonza lançou uma música chamada “Chico” e terminou logo depois, com a chifrada no banheiro.

Sonza é um paradigma geracional. Ninguém representa mais do que ela a cultura de celebridades na qual estamos inseridos. Todas as outras atividades profissionais são engolidas pela profissão maior, que é a de ser influenciador. Por esta lógica, o engajamento é mais importante do que o trabalho em si. Sonza é cantora, mas tem mais seguidores no Instagram (os já referidos 30 milhões) do que ouvintes no Spotify (10 milhões). Um dos seus maiores sucessos é justamente a música Chico, impulsionado ao extremo após todo o bafafá.

Nascida em 1998 no Rio Grande do Sul, Sonza dialoga diretamente com a geração hiperconectada da virada do século, que foi alfabetizada ao lado de um celular e é fluente em redes sociais. Ficou famosa quando se casou com Whindersson Nunes, outra celebridade virtual. O divórcio deles foi rumoroso, cheio de julgamentos preconceituosos e fofocas na internet, que renderam ainda mais likes, mais engajamento, mais notícias, uma roda que não para de girar. (W. Nunes saiu desse processo se tornando boxeador amador, encontrando o sentido da vida no ato de ser desfigurado por lutadores mais bem preparados em combates televisionados).

A vida pessoal de Luísa Sonza pode ser extremamente desgastante do ponto de vista psicológico e emocional, mas do ponto de vista mercadológico é um case de sucesso. Todos os seus passos erráticos, a superexposição borderline dos sentimentos retorna em forma de mais atenção e gera mais oportunidades, que promovem ainda mais contradições. Estamos diante de uma máquina de engajamento em moto perpétuo. 

O Sonho Original da Internet

O Sonho Original da Internet® era ser uma rede descentralizada, democrática e igualitária, onde o conhecimento pudesse ser compartilhado livremente e a comunicação ocorresse sem barreiras geográficas. Não é à toa que todos os sites começavam com um obscuro www na frente, sigla para World Wide Web (Rede Mundial Aberta).

Mas isso é passado. nem a geração com mais de 60 anos continua acessando sites digitando www na frente (eu acho). Os mais jovens talvez não saibam acessar um site. O mundo é feito de cliques obtidos a partir de chamadas sensacionalistas que pulam na frente dos nossos olhos o tempo todo, em busca de atenção.

O único resquício dos tempos sonhadores antigos é provavelmente a Wikipédia. Este espaço onírico e lúdico onde uma série de desconhecidos gasta seu tempo na tentativa de juntar todo o conhecimento humano de forma acessível e organizada.

Fora isso, toda a rede já foi dominada por grandes corporações e moldada, tal qual os espaços urbanos em geral, para a venda de produtos e campanhas agressivas de marketing. Mas hoje em dia os anúncios não vendem produtos. O que está à venda é uma personalidade.

A construção do influencer

O surgimento das redes sociais permitiu um acompanhamento frenético do cotidiano de pessoas famosas e anônimas. O fascínio nosso de cada dia em acompanhar futilidades alheias criou uma máquina de movimentar dinheiro a partir do nada. Pessoas se transformaram em espaços publicitários ambulantes, construindo uma reputação para depois oferecer produtos.

Há trejeitos amplamente utilizados por influenciadores que vão desde a Virgínia até uma cozinheira de cidade do interior, para fazer com que os stories pareçam conversar diretamente com você. A câmera frontal ligada enquanto se faz uma atividade comum, como lavar louça, a surpresa calculada com fatos previamente estudados, aquela sensação de que a pessoa está se expondo um pouco além do que deveria, tudo isso é, no fundo, uma técnica que faz com que o pobre seguidor imagine que aquele conteúdo foi organicamente produzido por uma pessoa de confiança e não que aquilo é um produto comercial.

A hiperexposição cria laços afetivos porque faz o seguidor acreditar que conhece profundamente a alma do influenciador. Esse é o meio de vender produtos, mas que se transforma no fim em si próprio, o que cria uma confusão que aumenta o engajamento e no fim das contas somos todos guiados até cassinos virtuais onde perderemos nosso dinheiro para empresas sediadas em paraísos fiscais.

O fim das profissões

O surgimento do profissional influencer já é algo extremamente distópico. Como é que podem existir pessoas que recebem dinheiro para criar laços virtuais com os outros e a partir disso convencer esses outros a adquirir determinados produtos? Como é que alguém se passa por amigo de pessoas que ela jamais reconheceria na rua?

Mas, ainda mais estranho é a transformação de toda e qualquer personalidade pública em um influencer. O maior exemplo é Neymar, talvez o principal influencer brasileiro, alguém cuja função de celebridade suplantou seu exercício profissional original: jogador de futebol.

Com seus 200 e tantos milhões de seguidores, Neymar compartilha freneticamente seu cotidiano, responde polêmicas que nem sabemos que existiam, divulga produtos parceiros e outros potencialmente danosos para seus seguidores, além de render conteúdo instagramável de maneira compulsiva.

No mundo atual, mais do que desempenhar bem um papel, você precisa criar laços com as pessoas. O público consome o material que você produz com base na sua imagem pública. É uma inversão de valores em relação a tempos pré-digitais, nos quais você se interessava por um atleta ou artista a partir de sua produção profissional e depois disso poderia se identificar com a personalidade. Hoje você se interessa pela personalidade e a partir disso defende a atividade profissional dela como se fosse um familiar próximo.


Neymar foi um grande jogador, certamente o maior nome do futebol brasileiro surgido nos anos após o pentacampeonato. No entanto, os últimos seis ou sete anos da carreira do astro foram completamente erráticos, marcados mais por lesões, filhos e polêmicas do que por bons jogos de futebol. Sua carreira nesta década é sustentada pelo engajamento que ele propicia. O Neymar hipotético, tão discutido nas mesas redondas, é sustentado pela quantidade de publicidade que ele consegue gerenciar. Se há tanta gente que defende que o Menino Ney ainda pode nos levar ao hexacampeonato em 2030, mesmo sem conseguir andar em linha reta, isso é menos por convicção futebolística e mais pelo apoio emocional que Neymar oferece na vida de seus influenciados.

Quase todo artista influencer passa por isso. Anitta conseguiu uma série de sucessos nos últimos anos, mas é sua personalidade pública que continua atraindo atenção para seus últimos trabalhos musicais, mesmo quando eles beiram à insignificância.

O Caso Juliette

Como bem diria Tiago Leifert (talvez o maior expoente do neymarzismo cultural na grande mídia), Juliette jamais esteve sozinha. Sua história de superação dentro do BBB 21 gerou enorme empatia do público, transformando-a em um fenômeno de popularidade, recordista de votos.

Durante o programa, Juliette chamou a atenção por cantar de maneira afinada. Ao sair do programa, lançou uma carreira como cantora com grande repercussão e apresentações em programas de TV e festivais. Ela canta bem? Sim. O suficiente para ser aplaudida em um karaokê menos exigente, ou surpreender os colegas de trabalho em uma confraternização de fim de ano (se o público estiver moderadamente alcoolizado, o resultado será melhor). Mas, passa um pouco longe de ser o suficiente para hipnotizar pessoas com sua voz e dispensar parte do dia na tarefa de escutar suas músicas. Mas as pessoas a escutam pelo o que sua personalidade representa. Se Neymar era um profissional que se transformou em influencer, Juliette é uma influencer que se tornou profissional.

Uma conclusão que não diz nada

A essa altura, depois de ler aproximadamente 8 mil carácteres (talvez mais, talvez menos), você deve estar esperando uma grande conclusão moral sobre a vida, a morte e as publis que fazemos no meio do caminho. Mas este, definitivamente, não é um lugar para conclusões. Escrevo esse texto apenas como alguém que passa o seu tempo jogando pedras em vidraças alheias, esperando que isso traga alguma reflexão

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