O bairrismo nosso de cada dia

O campeonato brasileiro de futebol, alguns de vocês devem saber, é uma competição disputada por 20 equipes. Alguns dos jogos são transmitidos pela Globo, outros pelo SporTV e todos eles passam no Premiere Futebol Clube, o PFC, serviço de pay-per-view que também pertence a Globo. São dez jogos por rodada, 380 partidas no total. É jogo para caramba. Some a este número as partidas da Série B. É ainda mais jogo pra caramba.

As partidas da primeira divisão são disputadas em doze cidades de oito estados brasileiros, enquanto as da segunda divisão são jogadas em dezoito cidades de catorze estados. Imagine que cada um desses jogos disputados em cidades que vão de Belém no Pará até Porto Alegre exigem uma grande equipe para realizar a transmissão. São dezenas de cinegrafistas, técnicos de áudio, de imagem, motoristas e aqueles que realmente aparecem na televisão: o narrador, o comentarista e os repórteres de campo.

Pense que a Globo, que transmite dois jogos por rodada tem apenas duas equipes de superstars que desfilam seus comentários estilosos e precisos pelas mais diversas cabines de transmissão do Brasil. No PFC não é assim. No PFC eles precisam de dez equipes por fim de semana. Centenas de cinegrafistas e técnicos, dezenas de narradores e comentaristas.
Em algumas partidas em Lucas do Rio Verde, o simpático porco que segura uma espiga de milho na mão é chamado para tecer seus comentários balizados e isentos

Para piorar, a sede do canal fica no Rio de Janeiro, com base também em São Paulo. É praticamente impossível ter um monte de comentaristas, clones malditos de Roger Flores, apenas esperando um chamado para se deslocar até Lucas do Rio Verde, para transmitir uma partida entre Luverdense e CRB. Colocar o cara em um avião em Congonhas, chegando em Cuiabá, para que ele ande 400 quilômetros até a cidade da partida em um carro qualquer. Então, o que é que acontece? O PFC utiliza profissionais locais.

Quem acompanha o canal já se acostumou com o narrador de sotaque gaúcho ou nordestino. O comentarista que foi um ídolo local e fala com absoluta isenção sobre como a equipe da casa está dominando a partida e sendo ridiculamente prejudicada pela arbitragem, que certamente serve a alguma maldita organização internacional que quer prejudicar a população das cidades menores, que há anos vem sendo subjugadas pelos interesses do capital.

O bairrismo nosso de cada dia fica muito latente nessas partidas. Me lembro de um lendário comentarista de partidas em Pernambuco, o Lúcio Surubim, que nas partidas do Náutico se exaltava. Certa vez um jogador do Botafogo foi preso no meio de uma partida e ele chegou a defender que a Polícia tinha que enquadrá-lo, para mostrar que o cara não pode vir aqui em Recife e achar que pode aprontar.

Há também o Paulinho Criciúma, que coincidentemente nasceu na cidade de Criciúma e foi um ídolo da equipe local, também chamada de Criciúma. Uns dois anos atrás ele ressurgiu das cinzas, com sua vistosa barba e sua dificuldade de se expressar de maneira normal para comentar as partidas disputadas na cidade e vocês podem imaginar o que aconteceu em relação a isenção dos seus comentários pouco articulados.

Com o rebaixamento do Criciúma e como deve ser difícil encontrar ex-jogadores de futebol que vivam em Santa Catarina, Paulinho segue sendo bem aproveitado em partidas disputadas pelas outras quatro equipes catarinenses na primeira divisão. Descobrimos então que ele é um apaixonado por seu Estado, um homem com uma arma: seu microfone e seu timbre de voz grave (ok, então não é apenas uma arma), que irá defender Santa Catarina diante do mundo.

Havia o Batista, que enlouquecia nas partidas do Internacional, os comentaristas mineiros que tão aí para falar sobre como os times de Minas Gerais dominaram amplamente o jogo, que os números que mostram que o time local chutou uma vez ao gol e teve 6% de posse de bola contra as 27 finalizações adversárias são números mentirosos de um placar mentiroso, que esse 6x0 contra é uma injustiça tremenda diante da bela partida do Boa Esporte e que não dá para não admirar a maneira como eles jogaram com raça e determinação, são verdadeiros heróis.

O PFC, de certa maneira, reproduz um fenômeno vivenciado apenas pelos torcedores do Corinthians que é o de assistir uma partida com um ídolo do seu time comentando o jogo e falando apenas sobre a sua equipe como se nada mais no mundo importasse. É como se tivéssemos vários Netos comentando jogos por aí. Mostra que o mundo é repleto de craques netos e que sabe-se lá como eles conseguem alcançar o poder de ter um microfone na mão e ninguém será capaz de pará-los. Não há como detê-los.

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