Foi no dia 23 de agosto de 2013 que eu publiquei neste site um texto abordando aspectos controversos das canções de Leoni e do Kid Abelha. Mergulhei fundo em minhas memórias e em conversas antigas sobre o destemido compositor e o grupo que ele ajudou a criar. Fiz uma série de análises irônicas sobre as suas canções.
Durante pelo menos três anos ninguém deu a menor bola para a publicação. Depois disso, não que seja muita gente, mas esse texto se tornou no mais comentado da lastimável história do CH3. Foram pelo menos 25 pessoas que dedicaram o seu tempo a me dirigir palavras, geralmente nada elogiosas.
Minhas críticas foram atribuídas à frustração profissional. Fui chamado de otário, mais de uma vez. Fui acusado de:
- ter cometido um trocadilho de despeito.
- me sentir incomodado com Leoni.
- não contar o por de trás.
- esquecer que música é arte.
- ter personalidade
- não ser capaz de fazer minhas necessidades fisiológicas no banheiro.
- esquecer que o Leoni é Maculoso.
- precisar fazer terapia.
- ser um posta bosta.
- ser medíocre.
- prepotente e invejoso.
- um coitadinho.
- um débil mental metido a intelectual.
- não ser capaz de escrever um simples batatinha quando nasce.
Além disso, eu fui o responsável por fazer com que a Liana lesse a maior quantidade de merda a qual ela foi submetida em toda sua vida. Uma pessoa ainda disse que sentiu vontade de me socar e que queria me seguir em outras redes - o que achei que não seria muito bom para minha segurança pessoal.
Mas, como diz o ditado, se você não pode vencê-los, junte-se a eles. Ou, como diz aquele outro, você não pode estar certo o tempo todo enquanto todos dizem que você está errado. Existe algum ditado sobre isso? Não tenho certeza. Mas, mesmo assim, venho aqui fazer uma retratação em relação ao texto original.
Os últimos 13 anos foram de grande aprendizado pessoal e destinado a reflexões profundas. Não há um dia em que eu não tenha pensado se por algum acaso eu não teria sido injusto com os talentos autorais de Carlos Leoni Rodrigues Siqueira Júnior. Assim como - céus! - não fui muito ponderado em minhas críticas ao elegantíssimo saxofonista George Israel.
Muito se diz que William Shakespeare moldou a língua inglesa moderna e que este seria o maior legado de sua obra. Ouso dizer que Leoni desempenhou papel semelhante para a nossa língua portuguesa. Mas, talvez eu esteja exagerando. Shakespeare jamais seria capaz de escrever “quando ela se senta no seu sofá, so far away”. Até porque, acredito que o Bardo de Avon não sabia falar português - clara desvantagem para o nosso poeta do Leblon.
Cheguei a essa conclusão escutando músicas como “A Fórmula do Amor” do disco Educação Sentimental. “Luz de fim de tarde, meu rosto em contra-luz. Não posso compreender, não faz nenhum efeito. A minha aparição será que errei na mão. As coisas são mais fáceis na televisão”. Por muito menos, Bob Dylan ganhou um Nobel da literatura.
Aliás, prestando atenção em Seu Espião e seus versos sobre um stalker do sonho alheio, penso que o fato de Leoni não estar na Academia Brasileira de Letras é a maior injustiça já comentada pelo pseudointelectualidade brasileira. “Ver você dormir, me corta o coração. Se o seu sorriso é sonho ou traição”. Lendo e refletindo novamente, digo que o Nobel da Literatura é pouco. Leoni merecia um Nobel da Paz, porque essa música, especificamente essa, tem o poder de encerrar conflitos bélicos mundiais.
Muito precisa ser dito também sobre os refinados solos de saxofone, sempre de extremo bom gosto, que saem da boca de George Israel. Tenho certeza que quando o belga Adolphe Sax criou o instrumento no século 19, era esse som com o qual ele sonhava: o som dos anjos. Talvez ele mesmo duvidasse que algum dia alguém poderia usar o sax do jeito que Israel usa. Uma pena que Adolphe tenha morrido quase 100 anos antes de poder escutar a introdução de “Nada Tanto Assim”.
Enfim, sempre há tempo de mudar. Espero que essas palavras aplaquem a ira no coração do público abelhista e mostre que, sim, sempre é possível passar a reconhecer a boa música.

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