Os 10 graus de Dor

A dor é um dos grandes mistérios da medicina. Em um mundo completamente esquematizado, em que tudo pode ser colocado em planilhas, ainda é muito difícil medir a intensidade da dor sentida por um cidadão. O que pode ser uma pontada lancinante para o jogador Neymar, pode ser apenas uma quarta-feira normal para o ex-boxeador Maguila (até porque, uma vez falecido, ele não sente muita dor).

Recentemente - ok, não tão recentemente assim, viralizou a notícia de uma menina que encostou em uma lagarta-de-fogo, o que fez com que ela sentisse o grau máximo de dor. Algo que deve ser, conceitualmente, o inverso de atingir o Nirvana. Você só sente dor, só pensa em dor. Você É a dor.

Mas, eis a decepção: esse grau de dor, que vai de 1 a 10, é completamente subjetivo. Quem define a intensidade é a própria pessoa que está dolorida. Uma criança tem muito mais chance de sentir uma dor de grau 10, por falta de experiência. Afinal, você só descobre que é possível sentir uma dor ainda maior do que a que você já sentiu, a partir do momento em que você a sente. É impossível materializar a dor física.

(Até porque se formos falar de dor emocional, o assunto fica ainda mais difícil. Cada chifre é sentido da mesma forma? Eis a questão que filósofos gregos antigos e cantores sertanejos contemporâneos têm tentado decifrar desde que o mundo é mundo).

Enfim, voltando ao atleta Neymar, para ele toda dor atinge o nível 10, porque ele está sempre sentindo a maior dor do mundo. (O que talvez seja explicado pelo lado emocional, vai saber).

Mas, vamos tentar arrumar essa bagunça e dar definições mais objetivas para os 10 graus de dor.

Grau 1: Aquela sensação que sentimos quando alguém abre uma porta um pouco antes de você realizar o movimento e a maçaneta acaba atingido o osso do seu antebraço. Você diz “aí”, esfrega levemente o local atingido, mas o incômodo é passageiro e logo é esquecido.

Grau 2: A dor que sentimos quando damos uma topada com o dedão do pé em uma superfície levemente acolchoada e não completamente fixa no chão, de forma que o objeto absorve parte do impacto e se move para trás. Essa dor nos leva a dar um grito não muito alto, pular e prender a respiração por alguns segundos. Após doze segundos de lamento profundo, a dor começa a desaparecer.

Grau 3: Ser atingido na cabeça por uma manga madura no quintal da sua casa enquanto escuta a discografia completa do cantor Pescuma. (Talvez não esteja disponível no Spotify).

Grau 4: Quando você tropeça, sem explicação aparente, e bate de cara no chão, sofrendo leve escoriações, eventuais cortes na gengiva e passa os dias seguintes precisando explicar para os colegas de trabalho que realmente foi um acidente, que de forma alguma você foi vítima de qualquer tipo de violência conjugal ou urbana.

Grau 5: A sensação de ser atingido na altura do joelho por um carrinho do volante Felipe Melo, levando em conta que ele já está aposentado e levemente acima do peso comentando os jogos da rodada no canal de assinatura SporTV.

Grau 6: Cair do alto de um muro de três metros de altura sobre uma roseira cheia daquelas formiguinhas que picam ardido, deixando pequenas bolhas que coçam por dias após a picada.

Grau 7: Ser atingido inadvertidamente por uma voadora de um lutador profissional de MMA que estava à paisana, passar por cima das cordas e cair de costas sobre as cadeiras de plástico na plateia. Observe que as cadeiras são de plástico, não de ferro, tampouco de madeira.

Grau 8: Quando alguém pisa na sua unha encravada e grita “É BOLSONARO PORRA! CHEGA DE MIMIMI”.

Grau 9: Ser atingido nos testículos pela tromba de um elefante no momento em que você tenta equilibrar um amendoim sobre a sua glande. Isso acontece porque o elefante acha a situação estranha e interpreta o seu gesto como uma competição por comida. O paquiderme então faz menção de pegar o amendoim, só que elefantes são ruins de cálculo espacial - apesar de terem ótima memória, e acabam errando o alvo e acertando os testículos, de baixo para cima. (Elefantes também são muito ruins em semiótica corporal).

Importante: para ter certeza de que o paciente tem uma percepção correta da dor, coloque ele completamente nu em frente a um elefante e peça para ele equilibrar o amendoim na glande. Caso o elefante acerte o testículo na descida da tromba, repita o movimento até obter o golpe correto. Certifique-se que o elefante não está com a tromba cheia de água, para obter maior precisão médica.

Grau 10: Ser atingido por um tackle conjunto dos 22 jogadores da seleção neozelandesa de rúgbi, enquanto você se depila com uma gilete enferrujada dentro uma banheira cheia de vinagre balsâmico. Os jogadores devem estar utilizando anabolizantes.

Em breve o ex-crítico de cinema Rubens Ewald Filho irá oferecer seu corpo à ciência, se transformando no primeiro homem a passar pelos 10 graus de dor em sequência, dando embasamento científico para a classificação. O fato de ele também já estar morto pode dificultar um pouco a tarefa.

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