A Patrulha Canina é um dos maiores sucessos do mundo da animação infantil da última década. A produção canadense narra a saga de seis filhotes de cachorro responsáveis por manter a paz e a tranquilidade na pacata e fictícia cidade da Baía da Aventura.
O sucesso do desenho é fácil de ser explicado. Ele é praticamente a materialização de uma série de fetiches infantis. Afinal, estamos falando de filhotes de cachorro uniformizados que utilizam roupinhas coloridas, mochilas com equipamentos e dirigem carros tunados. Uma espécie de atualização do Batman para o mundo canino, com o objetivo de vender todo tipo de brinquedo e traquitana.
Os filhotes têm suas personalidades bem definidas. Temos o Chase, que é um cão policial e líder do grupo. O Marshall é um dálmata bombeiro atrapalhado. Rubble é um buldogue fofinho e construtor. Rocky é um vira-lata que trabalha com materiais recicláveis. Zuma é um labrador nadador e Sky é uma dessas cachorrinhas de madame que pilota helicópteros.
Os cachorrinhos permanecem o tempo inteiro em uma correria desenfreada para resolver os problemas que se abatem sobre a Baía da Aventura - e eles são muitos. Estão sempre repetindo seus bordões, fazendo as mesmas piadas e são comandados pelo tutor Ryder, que no caso é uma criança de 10 anos.
É um pouco inacreditável que uma criança e seis filhotes de cachorros falantes tenham que resolver todos os problemas de uma cidade, mas, isso decorre da absoluta falta de habilidades sociais dos moradores da Baía e da ausência de um Ministério Público mais atuante. A Patrulha Canina representa a total falência do Estado Democrático de Direito.
Vejamos, a Baía da Aventura é governada pela prefeita Goodway. Uma senhora simpática, mas que é incapaz de tomar uma única decisão prática. Ela passa o dia inteiro carregando sua galinha de estimação - chamada Galinheta - dentro de sua bolsa. O animal, um tanto quanto imbecil, vive se perdendo e a Patrulha Canina é constantemente chamada para resgatar o animal, o que pode ser um grave desvio de função.
Ou não, uma vez que a Patrulha funciona como uma espécie de Milícia Canina, sendo mantida sabe-se lá com quais recursos. Se eles praticam extorsões contra os pobres e ingênuos comerciantes locais, nós nunca fomos informados.
Voltando à prefeita Goodway, ao longo dos episódios ela dá inequívocas demonstrações de advocacia administrativa, improbidade e fere alguns dos princípios básicos da administração pública. O maior exemplo está no fato de que ela ergueu uma estátua da Galinheta na frente da prefeitura. Em determinado episódio essa estátua é roubada e a Patrulha é chamada para resgatar o monumento. Tudo errado.
A situação fica ainda pior quando sabemos que quem roubou a estátua foi o prefeito da cidade vizinha, a Baixa da Névoa. O prefeito Humdinger é o grande vilão da história. Um cidadão abilolado e aficionado por gatos, que passa a série inteira arquitetando crimes contra a Baía da Aventura.
Ele formou sua própria milícia, só que com gatos. Mas estes, ao contrário dos cães, são completos imbecis. Isso se deve a um fato curioso: o que faz com que os filhotes do Ryder sejam prodígios é que há um meteoro no topo do QG Canino (chamado de Farol). Esse meteoro funciona como uma espécie de kriptonita invertida e fornece energia para os animaizinhos, mas apenas para eles. Isso talvez ajude a explicar como o Marshall consegue carregar 200 litros de água em sua mochila.
Entre os crimes cometidos pelo prefeito Humdinger estão o roubo de joias, o sequestro de turistas, danos ao patrimônio público e privado. Mas, nada disso foi capaz de levar o cidadão para a cadeia. E pior, ao que tudo indica ele vem sendo reiteradamente reeleito, ocupando a prefeitura da Baixa da Névoa há 10 anos (tempo no qual a série é veiculada).
É triste pensar que a população nevoense seja responsável por conduzir ao poder um cidadão menos inteligente que uma criança de dez anos e seis filhotes de cachorro.
(Mas a Baía da Aventura não fica muito atrás. Os moradores de lá não conseguem amarrar um sapato sem a ajuda dos cachorros. Os cães também precisam levar crianças ao dentista, ajudar fazendeiros a empilhar tomates, enfim. Eles são praticamente escravizados pelos moradores da Baía da Aventura, que sem a ajuda dos cachorros seriam incapazes de limpar a própria bunda).
Para piorar, o prefeito Humdinger tem ideias tão ruins para cometer seus crimes, que inevitavelmente ele acaba em situações de risco e a Patrulha Canina precisa correr para salvá-lo, impedir que eles se acidente e morra de maneira constrangedora. A Força Policial do município gasta boa parte do seu tempo impedindo que um criminoso se machuque e dando condições para que ele continue atentando contra à sociedade.
Mas, tudo bem, não cabe a Força Policial Estatal prender e julgar os criminosos. Isso configura um Estado de Exceção. Mas, volto a perguntar, onde está a Promotoria de Justiça para entrar com um pedido de prisão contra Humdinger? Cadê o Legislativo para pedir o impeachment da prefeita Goodway?
Nada acontece com ninguém. A prefeita segue gastando dinheiro público com uma galinha. O prefeito segue livre para cometer crimes.
De certa forma, a Patrulha Canina guarda paralelos com os filmes dos Irmãos Coen, onde muita coisa acontece, crimes são cometidos, mas no fim não acontece nada. A vida segue.


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