No dia 16 de julho de 2025 - que por acaso é o meu aniversário, não que isso seja importante agora - Andy Byron, CEO da empresa Astronomer, acordou com alguma expectativa. Naquela noite ele iria prestigiar o show da banda Coldplay no Estádio Gillette, em Boston, Massachusetts.
Grandes shows geralmente proporcionam algum tipo de expectativa para os envolvidos. Mas, Andy deveria estar um pouco mais ansioso, afinal, ele não iria ao show sozinho. Ele estaria na companhia de Kristin Cabot, a diretora de RH da Astronomer, com quem ele vinha flertando.
Não sabemos como Chris Martin acordou aquele dia. A essa altura, já não é possível saber se o vocalista da banda mais famosa do mundo ainda tem algum tipo de sentimento mundano antes de uma apresentação musical, se ainda há um coração hesitante batendo em seu peito, ou se ele se transformou apenas em uma fábrica de emoções, promovendo todo tipo de entretenimento contínuo em seus shows.
Naquela noite, Kristin e Andy tomaram uns negocinhos e começaram a se pegar. Em certo momento do show eles estavam abraçados e Chris Martin promoveu a Câmera do Beijo, um dos artifícios mais banais do espetáculo norte-americano. A câmera procura um casal na plateia e, uma vez que eles estão no telão, tem a obrigação moral de se beijar na frente da plateia, que irá gritar e aplaudir.
Kristin e Andy estavam em um camarote, em uma posição que praticamente gritava “queremos ser filmados”. Ela na frente, ele atrás, abraçando-a na altura dos seios. Uma posição que, entre outras coisas, é ótima para esconder ereções mais tímidas. O diretor do espetáculo viu o casal e logicamente o escolheu para a Kiss Cam. Os dois apareceram no telão do estádio e tão logo Kristin se percebeu nele, ela se virou de costas e Andy se atirou no chão ou talvez tenha sido engolido por um cadafalso imperceptível.
Todos ficaram espantados com a reação, inclusive Chris Martin, que vaticinou que eles deveriam estar tendo um caso. Logicamente, alguma das 50 e tantas mil almas depiladas do Gillettão filmou a cena e compartilhou nas redes sociais. O algoritmo logo detectou o potencial viral do conteúdo e o entregou para qualquer ser vivo deste planeta.
O que aconteceu depois é de conhecimento público. Eles eram casados com outras pessoas, foram demitidos e entraram na espiral do linchamento virtual. Eles poderiam ter escapado dessa situação caso tivessem tido mais presença de espírito (difícil), agido de maneira mais natural, ou mesmo se tivessem tascado um beijo um no outro como se não fosse nada demais.
Também poderiam ter tido a percepção prévia de que eles eram um alvo preferencial da Câmera do Beijo. Ou melhor ainda, poderiam ter percebido que Coldplay há muito tempo deixou de ser uma banda para se transformar em uma máquina que busca aceitação à qualquer preço, e, dessa forma, os dois poderiam ter se recusado a contribuir com o esvaziamento da arte em prol do espetáculo e não ter ido no show. Mas é difícil ter essa percepção.
O fato é que Andy Byron e Kristin Cabott entraram para a história e protagonizaram o momento definitivo de 2025. Sua imagem printada em baixíssima resolução é que vai ficar do quase terminado giro em torno do sol para a posteridade. É o que importará para os livros de história.
Tivemos um novo papa - não é novidade. Centenas de tragédias naturais - vai ser cada vez mais comum. O William Bonner deixou o jornal nacional - um dia iria acontecer. Virginia e Zé Felipe - como podemos escapar disso. Uma rotina de caos, violência e conflitos políticos. Tudo igual, tudo é algo que já vimos e continuaremos a ver.
Andy Byron e Kristin Cabot são um retrato do tempo em que vivemos. Um tempo em que é impossível viver em segredo, no qual as menores falhas podem proporcionar reações virais em cadeia, com cancelamento em massa, linchamento virtual e destruição da esfera privada. Ninguém está a salvo disso. (A menos que você seja um trilionário fazendo supostos gestos supostamente nazistas durante um suposto evento supostamente nazista).

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