O mundo foi informado nesta sexta-feira (20.03) que, aos 86 anos, o ator, lutador de artes marciais e personalidade da internet Chuck Norris morreu. Campeão mundial de caratê, Carlos Ray - seu nome de batismo - ganhou projeção no cinema ao interpretar o nêmesis de Bruce Lee em “O Voo do Dragão”. A cena final do filme permanece célebre pela longa e coreografada luta entre os dois, marcada por uma intensidade quase íntima em suas preliminares.
Embora tenha construído uma extensa carreira em filmes que se tornaram presença constante em sessões do Domingo Maior e da Temperatura Máxima, foi com a ascensão da internet, nos anos 2000, que Norris alcançou eternidade. Nem mesmo a série protagonizada pelo coronel James Thomas Braddock teve impacto comparável ao fenômeno dos Chuck Norris Facts.
Na virada de 2005 para 2006, a internet encontrou um grande consenso humorístico com a ideia de que Chuck Norris poderia espirrar de olhos abertos ou então que sele seria capaz de dividir por zero. Eram tempos em que memes ainda não eram chamados de memes, tampouco analisados ou dissecados. Os Chuck Norris Facts surgiram nesse limiar de já serem memes em sua essência, mas sem a autoconsciência que hoje define a cultura digital. Uma experiência que, para as gerações atuais, talvez seja irrecuperável.
A escolha de Norris como figura central desse fenômeno não foi aleatória. Entre os ícones do cinema de ação dos anos 80, ele talvez fosse o menos carismático. Não possuía o estrelato de Sylvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger, nem o vigor de Jean-Claude Van Damme ou a autoridade de Charles Bronson. Havia nele um charme rígido, quase involuntário, comparável apenas ao de Steven Seagal. Seus roundhouse kicks™ executados com expressão imperturbável, seus antagonistas pouco memoráveis e a estética rudimentar de seus filmes compunham um conjunto curiosamente propício ao culto. Uma espécie de ingenuidade trash que beirava a arte naïf.
O impacto dos Chuck Norris Facts pode ser medido, inclusive, por este blog: um dos “CHs” do nome vem dele (os outros dois são Charles Bronson e Chimbinha). Trata-se de um tipo de humor que hoje pode parecer deslocado, exigindo talvez um esforço quase acadêmico, quem sabe um ramo da ontologia memética, para ser plenamente compreendido.
Chuck Norris deixa a vida, ou, como se diria à época, permitiu que a morte o alcançasse porque tinha assuntos a resolver com Deus. Ainda assim, sua trajetória recente revelou facetas menos mitológicas: posicionamentos antivacina, teorias conspiratórias e uma adesão a discursos que sintetizam o status quo reacionário que carrega o mundo para o fim. Talvez Carlos já tivesse passado desta para a pior.
Mas em 2006 nada disso era visível. Havia uma separação mais confortável entre obra e autor, facilitada pela menor exposição constante às opiniões pessoais das figuras públicas. Por isso, fica aqui esta homenagem póstuma ao homem que, ao menos por um momento, foi maior que a própria internet.

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