Adorável Vizinhança (1)


A relação com os novos vizinhos não poderia ter começado de maneira pior. Ou, se essa frase soar muito exagerada, esta relação não poderia ter começado mais embaraçosa. Enquanto recebia uns amigos em casa para comer uma pizza e falar sobre a vida, a campainha tocou e era o segurança do condomínio, perguntando se o carro parado em frente a casa ao lado era de sua responsabilidade. Sim, era dos amigos que estavam comendo pizza. Foi nesse momento em que o homem soube que agora a casa ao lado tinha novos moradores, eles se mudaram justamente naquele dia mais cedo e foram surpreendidos pela sua garagem obstruída. Desculpas pedidas, desculpas aceitas, o carro foi retirado e tudo voltou a normalidade.

Ainda naquela noite, já deitado na cama, ele conversou com sua esposa sobre a situação. Comentou que os vizinhos deveriam ter uma péssima impressão inicial sobre eles, achando-os uns folgados que ocupam garagens alheias. Comentou ainda que azar naquela situação, já que eles quase nunca recebem ninguém em casa e justo nessa noite excepcional os vizinhos se mudaram. Enfim, pequenos contratempos. Pelo lado bom, aquela enorme casa que há muito esperava para ser alugada finalmente encontrou novos inquilinos.

No dia seguinte, enquanto colocava o lixo para fora, ele se encontrou com o vizinho que carregava algumas coisas do carro para dentro da casa. Se apresentaram de maneira mais formal, mas sem entrar em muitos detalhes. Ele voltou a pedir desculpas pela situação do dia anterior, mas o vizinho voltou a repetir que não tinha problema. Disse que o segurança chegou a indicar que entrassem com uma reclamação formal na portaria, mas que ele, o vizinho, prefere resolver tudo amigavelmente, melhor assim. O vizinho ainda contou, de maneira enfática que ele também receberia amigos em casa, que faria festas. Disse que não costuma a ter som alto, só conversa mesmo, que ele faria obras na área dos fundos, mas que qualquer problema, qualquer reclamação, eles poderiam conversar diretamente, não haveria necessidade de levar a situação para instâncias superiores.

O homem voltou para dentro de casa pensando nesta conversa. Lamentando que aquela primeira noite provavelmente tenha passado a impressão de que eles eram festeiros, iguais aos que os vizinhos prometiam ser. Pensou na ameaça velada de ter sido denunciado ao condomínio e pensou que, caramba, ele não havia feito nada tão sério assim, que os seguranças eram muito radicais. Enfim, era esperar para ver como é que as coisas seriam.

De fato, os vizinhos não mentiram quando disseram que fariam festas. No primeiro fim de semana deles na nova casa, foi possível escutar as conversas, a música sertaneja tocando ao fundo, o barulho de garrafas, mas nada que atrapalhasse. O processo se repetiu nos sábados subsequentes, em festas que começavam muitas vezes ainda no período da tarde e seguiam até depois da hora de ir para cama. Sim, dava para dormir, eles estavam em seu direito, provavelmente apresentando a casa nova para os amigos.

Os domingos de manhã eram marcados pelo barulho das garrafas de vidro sendo colocadas dentro de sacos plásticos. Um dia, ele reparou que o carro do vizinho estava estacionado de uma maneira um tanto quanto excêntrica, tendo inclusive batido no muro de sua própria casa. Por dentro, ele começava a nutrir a sensação de que os vizinhos eram uns idiotas, mas que, enfim, eles não atrapalhavam ninguém e não há nada na constituição que impeça alguém de ser idiota, desde que alguns limites sejam observados.

Uns dias depois os vizinhos começaram a fazer uma obra em suas casas, conforme eles haviam prometido. Isso significava que eles precisavam acordar cedo, porque os pedreiros do vizinho começavam a trabalhar sempre por volta das 7h da manhã, conforme estava previsto nas regras do condomínio. Inclusive aos sábados. Durante um mês, tornou-se comum ir na cozinha e avistar um homem sentado em cima do muro, trabalhando meticulosamente com espátulas, fios e pedaços de madeira.

Em um sábado de manhã, o interfone tocou e não devia ser nem oito horas ainda. O vizinho pediu se eles podiam abrir o portão lateral da casa deles, para que o pedreiro conseguisse finalizar um procedimento necessário para obra. Quase travado de sono, ele seguiu as ordens, claro que achando que o vizinho era um tanto quanto folgado por interfornar para a casa de alguém antes das oito da manhã de um sábado e pedir o que quer que fosse. Mas o que ele poderia fazer? Ia negar? Depois o vizinho poderia criar uma má-impressão deles e, além disso, vai que um dia eles precisassem da ajuda do vizinho para o que quer que fosse? Não custava ser gentil. Depois de abrir o portão, voltou para a cama e a esposa perguntou o que estava acontecendo, ele deu uma explicação um tanto quanto entorpecida pelo sono, murmuraram alguma coisa e voltaram a dormir. Quando acordaram, o portão já estava fechado novamente.

Quando as obras terminaram, aí sim é que os vizinhos começaram realmente a fazer festas. Além dos sábados, nas sextas-feiras a casa deles se tornou um ponto de encontro. O cheiro de churrasco era interminável e, no dia em que o homem colocava o lixo para fora, era impossível não perceber como o lixo dos vizinhos era realmente fétido, um cheiro de carniça intolerável.

Não chegou a surpreender, portanto, quando os vizinhos começaram a fazer festas também em todas as quartas-feiras. O esquema era o mesmo: cheiro de churrasco, conversa fiada, música sertaneja baixa e no dia seguinte a sinfonia das garrafas de vidro nas sacolas plásticas. Era possível dormir, portanto, não havia o que se reclamar da situação. O casal apenas comentava entre si que a disposição dos vizinhos era realmente algo impressionante. Fazer festas três vezes por semana não era para qualquer um que tivesse uma vida normal.

(continua)

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