sexta-feira, 17 de março de 2017

Notícias do Tempo (3ª parte)

Sem dúvida, o pior momento do dia sempre é o momento em que você acorda. São muitos os motivos: ter que sair da sua cama aconchegante, dos lençóis que tão bem te acolheram a noite e ir encarar o mundo. Ter que levantar da cama e deixar todo esse conforto para trás com o objetivo de ir trabalhar. Se fosse proposta uma enquete mundial perguntando as pessoas se elas preferiam continuar na cama ou levantar para ir trabalhar, duvido que alguém respondesse a segunda opção. Principalmente se a enquete for sigilosa e se as respostas não fossem mostradas para os chefes dos questionados.

Ok, admito que eu possa estar exagerando. Existem outros momentos no dia que podem ser igualmente ruins. O momento em que você sofre uma fratura. Quando você tem uma diarreia. Possíveis perfurações com armas de fogo ou armas brancas. Diversos momentos em que você pode ser exposto as mais diversas dores físicas ou psicológicas. Momentos em que você encontra uma pessoa que você detesta. Mas, estas são variáveis do dia-a-dia, podem eventualmente acontecer ou não. Acordar você vai ter que acordar todos os dias, até que você morra ou eventualmente entre em coma, induzido ou não.

Nesses dias tem sido ainda mais difícil acordar, por conta do calor. Sair do quarto gelado e adentrar a sala quente, para enfim chegar à cozinha não é fácil. Seria muito melhor se fosse possível se teletransportar apenas para ambientes já previamente climatizados. O ar-condicionado, coitado, resiste bravamente durante a noite, mas assim que ele é desligado o calor já começa a tomar conta de tudo.

Depois de todos os procedimentos padrões de uma manhã, fui para o meu trabalho. O prédio onde labuto fica localizado no alto de um morro – não que exatamente se pareça com um morro e sua visão estereotipada da mídia de massa, digamos então que ele fica em um lugar mais alto – e ao estacionar pude perceber pelo menos seis focos de fumaça pela cidade. Cuiabá é uma cidade com tendência a piromania e parece que qualquer mínima estiagem é o suficiente para que a população comece a incinerar restos de lixo, terrenos baldios, florestas inteiras, automóveis, cadáveres, enfim. Tudo, absolutamente tudo pode ser incendiado.

Mal sentei em meu posto de trabalho fui informado que a Defesa Civil já havia emitido um alerta para a população, para que evitassem aglomerações, a prática de atividades físicas nos horários de pico de calor, o que, muito provavelmente, significa evitar atividades físicas em qualquer horário. As escolas estaduais que ainda estivessem repondo eventuais aulas atrasadas devido a greve dos professores talvez tivessem que suspender as atividades. Se possível, seria publicado um decreto que obrigasse o uso de ar condicionado para manutenção da vida humana na cidade.

O calor era o único assunto possível entre as pessoas. Quem por algum acaso houvesse ido ao banco, saído para almoçar, enfim, tivesse por alguma desgraça qualquer precisado sair as ruas anunciava um cenário de caos, horror e destruição. A pele queimando, o bafo quente, o ar seco, a fumaça que começava a tomar conta do ambiente. O termômetro do celular anunciava que havíamos finalmente superado a barreira dos 40 graus centígrados. O telejornal local anunciava que a sensação térmica já superava os 50 graus. “Haja ar-condicionado”, brincava a apresentadora.

A onda de calor era nacional. Todos os estados registavam temperaturas absurdas mesmo para essa época do ano. Os hospitais na região sul recebiam um número maior de pessoas que viram suas pressões aumentarem, baixarem, enfim, que estavam passando mal por conta dessa temperatura para a qual o corpo delas não estava preparado. Por outro lado, o frio seguia forte no hemisfério norte. Estados norte-americanos, sem energia elétrica, mais de cem pessoas morreram congeladas apenas na última noite. A nevasca isolou algumas cidades polonesas. O expediente foi cancelado em várias repartições públicas devido ao frio mais forte dos últimos cem anos. O frio também chegou à China. A nuvem de poluição já havia ocupado um pequeno pedaço do território, conforme mostravam as imagens de satélite. O dia parecia noite, devido a camada de poluição. O governo chinês prometia tomar medidas drásticas.

A previsão do tempo era alarmante, por trás do sorriso sempre simpático do garoto do tempo. Mais calor para o Brasil. O mapa inteiro estava vermelho, com exceção a algumas partes alaranjadas no Amazonas, provavelmente em trechos de floresta densa e profunda. Os cabalísticos 40 graus eram previstos em pelo menos seis capitais, Cuiabá inclusive. “Haja ar-condicionado”, repetiu como em um deja vu a Sandra Annenberg.

Haja ar-condicionado, um mantra para esses dias. Mantra interrompido a partir do momento em que um silêncio se fez na sala do trabalho. A luz havia acabado, a energia havia acabado, não sei direito qual é o termo tecnicamente correto para dizer que o fornecimento de energia elétrica havia sido temporariamente interrompido pela concessionária responsável. Ficamos todos parados por ali esperando que a luz logo voltasse ou talvez em uma tentativa involuntária de fazer o mínimo esforço possível e não gerar calor, que logo iria aquecer o ambiente.

No entanto, estávamos no famigerado horário de volta de almoço, quando o pobre ar-condicionado por si só não consegue manter a temperatura agradável. O sol ardia nos vidros das paredes e não deve ter demorado muito mais do que vinte minutos para que todos começassem a sentir o suor escorrer pelas pernas. Ficamos ali, ardendo, esperando uma decisão superior, a vontade divina, ou o que fosse.

Não demorou muito e veio um aviso do setor de RH. A Secretaria de Gestão entrou em contato com a concessionária de energia que avisou que a queda era geral. Não havia energia elétrica em Cuiabá, nas cidades do entorno e sabe-se lá mais aonde. Não havia previsão de quando a energia poderia voltar e por conta disso o expediente estava suspenso naquela tarde.

Já havia presenciado situações semelhantes outras vezes em minha vida. O Centro Político Administrativo é um dos poucos lugares do mundo em que não é preciso treinar as pessoas para evacuar um local as pressas. Basta informar a todos os servidores que o expediente foi suspenso que em poucos minutos todas as baias estarão vazias, os equipamentos desligados e um silêncio sepulcral será escutado nos corredores. Se um dia pegar fogo no prédio em que eu trabalho, será necessário apenas falar as palavras mágicas “o expediente está suspenso, podem ir para casa”. Sem alarme de incêndio, sem avisos de fogo para não criar pânico. Em poucos minutos, o prédio será evacuado.

Claro que todas essas pessoas que abandonaram seus postos de trabalho vão embora para suas casas de algum jeito e o trânsito fica um inferno. As poucas ruas que dão acesso ao CPA ficam congestionadas, abarrotadas de automóveis. Não há solução possível para resolver o trânsito nesta situação e eu pensei que iria demorar mais de uma hora para chegar em casa. Bem, era difícil, mas pelo menos dentro do carro eu estaria no ar-condicionado e pensei por um instante que isso seria melhor do que arder na sala quente do meu trabalho.


Abri a porta do meu carro e senti que estava abrindo um forno, que poderia ter deixado uma pizza lá dentro que ela estaria pronta para comer. Creio que demorei pelo menos vinte minutos para conseguir sair do estacionamento do meu trabalho. Meu carro entrou na reserva e precisei parar em um posto de gasolina para abastecer. Havia um posto relativamente perto do meu trabalho, ao qual eu não demoraria mais do que cinco minutos para chegar em um dia normal, mas neste dia eu demorei outros vinte. Passei 40 minutos temendo que meu carro pudesse parar sem gasolina, o que me renderia uma multa, xingamentos pelo trânsito ainda pior provocado por mim e a miséria de caminhar no sol em busca de um galão que poderia, sei lá, entrar em combustão espontânea se exposto ao sol.

Cheguei ao posto e fui informado que o cartão não estava passando, porque as baterias das máquinas haviam acabado. O frentista lamentou o azar de, justo no dia em que acaba a luz, ninguém ter lembrado de colocar as maquininhas para carregar. Por sorte eu tinha uma nota de 100 reais na carteira, dinheiro guardado para pagar a academia no dia em que o clima me permitisse voltar até lá.

Já havia escutado um disco inteiro dos Strokes desde a hora que eu sai do trabalho e lá estava eu de volta a Avenida congestionada. O trânsito andava a milímetros por hora. Os ônibus estavam lotados. As pessoas nos pontos de ônibus pareciam duelar com a morte. O ar-condicionado do meu carro estava ligado no máximo, mas o ambiente lá dentro estava no máximo fresquinho. O sol que batia na janela do carro me fazia suar. O semáforo pifado não ajudava o trânsito a fluir. A fila de carros ia até o fim da minha visão. Naquele momento, naquela situação, eu tive a certeza de que nós não estávamos apenas vivendo uma grande onda de calor, estávamos sendo vítimas de algo muito maior. O aquecimento global havia começado pra valer. Ou talvez fosse uma dessas etapas bíblicas de provação, do sofrimento que precede a benção divina. Ali no meu carro, preso no trânsito eu tive a certeza de que não era apenas calor: o mundo estava acabando.

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