quinta-feira, 9 de março de 2017

Notícias do Tempo (2ª parte)

Acordei naquela madrugada de terça-feira com o barulho de um raio. Não era um simples raio. Parecia realmente que o teto da casa havia se partido ao meio, que um muro havia desabado, que algum grande objeto havia caído de uma altura considerável a uma distância muito próxima de onde eu estava. A esse grande estrondo se seguiram outros três, de uma intensidade menor, mas ainda assim assustadores. Fiquei naquele estado meio sonâmbulo em que imaginamos as coisas, mas não temos muita certeza se estamos acordados ou sonhando. Pensei em ir desligar alguns eletrodomésticos, mas não tive força. Passei o resto do período teoricamente reservado ao sono vagando entre a vigília e os devaneios, sem conseguir me aprofundar neste exercício diário de recuperação corporal.

Depois dos raios, veio um temporal alarmante, desses que nos fazem pensar em rios subindo, barrancos despencando, tragédias naturais que receberão cobertura exaustiva no Jornal Hoje. A chuva deveria ser uma resposta ao calor terrível da segunda-feira, quando, ao contrário dos dias anteriores, nenhuma gota caiu do céu e o calor permaneceu insuportável o tempo inteiro.

Quando a manhã finalmente chegou, havia uma vaga expectativa de que o clima estivesse mais ameno, graças ao dilúvio da madrugada, mas essa expectativa durou o tempo suficiente de abrir a porta do quarto e perceber que o sol brilhava fortemente do lado de fora e já era capaz de ofuscar a visão. Abri a janela e a umidade associada ao calor fazia com que Cuiabá parecesse a maior sauna do mundo.

Como Cuiabá é uma cidade em que o calor predomina durante mais de 300 dias do ano e, em alguns deles, com tons dramáticos para a existência humana, todos os carros tem ar-condicionado, boa parte do transporte coletivo é refrigerada e quase todos os locais de trabalho tem um desses aparelhos, ou pelo menos grandes ventiladores que irão aliviar um pouco a agonia existencial provocada pelo calor. Desta forma, sofre-se com o calor no trajeto entre o carro e os locais, ou em eventuais caminhadas ao céu aberto.

Cheguei ao meu trabalho e observei o céu sem nenhuma nuvem. A chuva absurda da madrugada parecia ser alguma lenda, talvez um sonho. Só precisei sair do ar condicionado na hora do almoço. Caminhei até o restaurante próximo ao meu trabalho e senti durante o breve trajeto que esse dia iria me render algum câncer de pele no futuro. Imaginei que eu seria um exemplo de reportagem sobre o que não se fazer nessa época do ano. O clima estava tão insuportável que o almoço no obtuso restaurante do Centro Político ficou ainda pior. Mal consegui comer e pensei comigo mesmo que nos próximos dias eu devesse optar por não almoçar, a fome não seria pior do que esse calor.

Na volta ao serviço, o céu continuava absolutamente limpo sem nenhum sinal de chuva, aquela chuva que refrescava um pouco o fim do dia. A volta do almoço é tradicionalmente o momento do dia em que o ar condicionado do serviço mais sofre. Há a sensação térmica terrível após ter enfrentado o sol mesmo que por alguns poucos minutos e há também o fato de que esta é cientificamente a hora mais quente do dia. Cientistas teriam sérias dúvidas em definir se é pior se expor ao sol neste horário ou tomar veneno.

Mas nesta terça-feira a coisa parecia muito pior. O ar condicionado foi reduzido a um mero aparelho de barulho, responsável por aumentar ainda mais a irritação das pessoas que estavam ali trabalhando. O calor parecia uma barreira insuperável e eu sentia o suor das minhas costas em contato com a minha camisa que fazia contato com o encosto da cadeira e provocava um incomodo terrível.

Aproveitei o que restava do meu horário de almoço para ler algumas notícias aleatórias, dessas que você não tem a menor vontade de ler, mas invariavelmente é chamado pelo título, clica para que ela seja aberta em uma nova aba, volta a ler o título na nova janela e percebe que não há nada de interessante nisso. Mas, de certa forma, o ato de abrir a notícia e ler o seu título em uma janela própria é uma espécie de confirmação, um reforço de que aquilo realmente aconteceu. Tudo o que você precisava saber estava no título que já estava lá capa, mas apenas quando a notícia é aberta é que ela parece ser verdadeira.

Perdido no tédio, olhei a previsão do tempo. A tendência em Cuiabá é que o clima ficasse ainda mais quente a cada novo dia. Os cabalísticos 40º estavam se aproximando e é claro, não há nada que pudéssemos fazer para que eles sejam evitados. Talvez esse seja um dos motivos para que o clima seja tão discutido por pessoas que não tem assunto. Nós não temos o menor controle sobre ele em um curto e médio prazo. A ciência já até provou que em longo prazo a humanidade exerce um impacto miserável sobre o clima planetário e que nossas emissões de gases poluentes vão fazer com que tudo fique cada vez mais extremo. Curiosamente, podemos trabalhar para evitar nevascas, tempestades e ondas de calor daqui a 50 anos. Mas não há nada que se possa fazer para evitar a chuva que ameaça cair daqui a pouco, por mais que alguns índios discordem dessa opinião.

Me lembrei das notícias sobre o frio no hemisfério norte e dei um google sobre o assunto. Mais seis pessoas morrem na Polônia, mais vinte na Europa, o número de mortos já supera 80, Moscou registrou temperatura de 30 graus negativos, o que provocou o ano novo ortodoxo mais frio dos últimos 120 anos. O frio matou pessoas nos Balcãs, voos cancelados. Morte, morte, caos.


Resolvi pesquisar também por calor e descobri que Florianópolis registrou sensação térmica acima dos 50 graus. Uma notícia afirmava que este era o dia mais quente em Cuiabá no ano, o que me pareceu um tanto idiota já que estávamos apenas no décimo dia do ano. Não era uma façanha, mas a notícia informava que estávamos quatro graus acima da média histórica de calor nesta época do ano. Calor no rio. Recorde de calor em Campo Grande. Calor em Belo Horizonte. Atores de novela reclamam de calor. Ao que me parecia o mundo estava bem dividido em polos de calor extremo e de frio extremo.

A tarde demorou a passar em meio as reclamações de que o clima estava insuportável. Vez por outra entrava no Facebook e era confrontado por imagens de pessoas que aproveitavam suas férias de janeiro em piscinas, praias, lagos, enfim, em qualquer lugar em que fosse possível banhar o seu corpo em água. O Facebook já é uma rede social baseada na intenção de exibir a existência de uma vida plena e perfeita, mas essas pessoas que estavam mergulhadas dentro de água certamente provocavam uma sensação ainda maior de perfeição. Chegava a ser um pouco humilhante. Diria que ultrajante.

Tenho a impressão de que fui embora do trabalho um pouco mais tarde do que o usual. Estamos no horário de verão e o sol já se põe mais tarde normalmente. Mas neste dia o sol estava tão forte que se alguém por algum acaso caísse em uma espécie de coma sonífero e acordasse às 18h, muito provavelmente ao acordar, ainda atordoado, perguntaria se estava na hora do almoço. A impressão era um pouco a de que o sol jamais iria se por e viveríamos como naquelas cidades próximas aos polos, onde o dia dura alguns meses em algumas épocas do ano. Quando fui ver, já era quase oito da noite quando o céu ganhou sua característica alaranjada de fim de dia. O calor persistia.

Olhei pela janela do meu trabalho e vi que o recém inaugurado parque da lagoa estava praticamente vazio, sem o trânsito caótico que o marcou desde sua inauguração no fim de 2016. Talvez um sinal de que as pessoas já não conseguissem mais sair de casa para fazer nada. O parque tinha uma lagoa, mas essa não era uma lagoa própria para o banho, era muito mais um grande recipiente de dejetos humanos. Passado o breve efeito novidade, não havia motivos plausíveis para deixar o conforto do lar e fazer o que quer que fosse.

O trânsito para casa estava absolutamente tranquilo. Em parte por conta do horário mais avançado, em parte por conta do período de férias escolares que esvazia bastante as ruas das nossas cidades. Mas dentro de mim, criava uma teoria pessoal de que o calor impedia as pessoas de saírem às ruas. Imaginei os bares vazios, seus alto-falantes tocando música sertaneja para ninguém, exceção feita a um bando de garçons que odiavam sua existência mais do que nunca naquele dia. As pessoas não teriam o que fazer fora de casa. Estavam todas petrificadas, magnetizadas pelos seus ares-condicionados, que, antes de mais nada, são uma palavra difícil de acertar no plural.

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