Notícias do Tempo (1ª parte)

O calor finalmente havia chegado a Cuiabá. Esta é uma frase estranha de ser dita, uma vez que Cuiabá é notoriamente uma das cidades mais quentes do Brasil e o calor que faz por aqui chega a ser absurdo, surreal, inimaginável para os povos que vivem em outras civilizações.

No entanto, desde o fim de 2016 nós liámos as notícias sobre a onda de calor que invadiu cidades do sul e do sudeste. Parentes do Rio Grande do Sul passaram um natal desesperador naquela terra em que as pessoas não fazem um investimento consistente em aparelhos de ar-condicionado e ventiladores. Turistas assando em Florianópolis. Pessoas passando mal em São Paulo. As praias lotadas no Rio de Janeiro, com direito a dezenas de reportagens de jornalistas engraçadinhos que capricham nos trocadilhos caricatos. Até em Curitiba, vejam só vocês, Curitiba a capital nacional do frio inigualável, até lá estava fazendo um calor imprevisível.


Não que aqui em Cuiabá não estivesse calor, entendam, o calor é um estado natural para nossa espécie. Mas era um calor totalmente suportável, um calor até agradável e surpreendentemente menos quente do que nas cidades do sul e do sudeste. Estava sim é chovendo muito, a cidade enfrentava algumas das maiores tempestades jamais vistas por essas bandas. Andando pela minha vizinhança podia observar todos os meus vizinhos realizando obras estruturantes para evitar que suas residências fossem tomadas por alagamentos. Eu mesmo fiz isso, depois de chegar um dia e encontrar minha sala submersa em dois dedos de água. O gramado da minha casa vivia encharcado. Andava por ele sentido a água espirrando e já era possível perceber a terra por baixo da grama com uma aparência lodosa, como se estivesse sendo tomada por musgos, prestes a apodrecer.

No entanto, do calor nós não poderíamos reclamar. Era possível sair de casa e encontrar as ruas com receptivos 30 graus de temperatura. Passávamos o dia inteiro dentro dos ambientes climatizados em que trabalhamos, estudamos, ou, enfim, sobrevivemos. Quando chegávamos em casa de noite era possível tomar um banho e até sentir um frescor, dormir com ventilador como se nosso clima fosse civilizado. As contas de luz nunca estiveram tão baixas.

Bem esse tempo acabou. Não sei dizer exatamente qual foi o ponto de ruptura, mas deve ter sido na sexta-feira, primeira sexta-feira do ano em que nós nos olhamos e percebemos: estava muito quente. O fim de semana foi bastante sofrido, com pessoas enfurnadas em suas casas, abusando do ar-condicionado, indo aos shoppings centers para não extrapolar a conta de energia. O clima ficou um pouco mais ameno depois que mais uma chuva monstruosa caiu sobre a cidade, criando diversos rios urbanos por lugares onde antes havia avenidas. No domingo, novo dia de calor insano, procedido por mais uma chuva dessas que estão descritas na bíblia, que derrubou árvores, muros, gerou matérias emotivas no jornal matinal.

No domingo a noite o clima estava ameno, mas existia um calor entranhado nos objetos da casa, o que fazia a temperatura ambiente subir. Abrimos a janela para que ele se dissipasse e ainda foi possível dormir com alguma tranquilidade.

Acordei às 6h na segunda-feira para correr, como eu geralmente faço às segundas-feiras. Coloquei minha roupa e calcei meu tênis. Enquanto eu tomava o meu café da manhã, as minhas costas já estavam ensopadas de suor. Olhei pela janela e o sol ardia. O gramado estava finalmente seco e em alguns pontos parecia esturricado, como folhas de alface em um sanduíche quente. Pensei em desistir por um momento, mas acabei dando sequência a minha missão.

Minha expectativa era correr pelo menos seis quilômetros, quem sabe um pouco mais, dando duas voltas pelo trajeto que eu elaborei, passando por algumas subidas e descidas em frente aos condomínios da região em que moro. Em um dia normal, este seria um percurso que eu levaria 40 ou 45 minutos para percorrer, a tempo de chegar em casa, tomar um banho e me arrumar para ir ao trabalho.

Ganhei as ruas e logo após a primeira subida eu comecei a sentir minha testa quente e o suor escorrendo pelas pernas. Meu batimento cardíaco disparou como se eu já estivesse em um trecho final da corrida e eu mal havia completado meu primeiro quilômetro. Prossegui mais um pouco, completei o segundo quilômetro e já sentia que eu não mais corria, apenas me arrastava pelo chão. Mais ou menos na metade do terceiro quilômetro eu desisti, antes de completar a primeira volta. Cheguei a pensar em sentar no chão e lamentei que o teletransporte continuasse sendo apenas um elemento da ficção científica.

Voltei a passos lentos para minha casa, com o coração acelerado e com o corpo envolto em uma ilha de calor. Percebi que eu era a única pessoa que havia saído para correr naquela manhã, sendo que geralmente eu sempre encontro uma dezena de cidadãos se dedicando a atividade física ao ar livre. Lembrei que estávamos no dia seguinte a Corrida de Reis e muitos corredores amadores já haviam cumprido seu objetivo no ano e mereciam um descanso. Mais do que isso, muitos deveriam estar descansando, se recuperando depois de percorrer dez quilômetros no calor infernal que já fazia no domingo de manhã. Deveriam estar se hidratando ainda e não duvido que boa parte da chuva do dia anterior foi proveniente do suor que evaporou de seus corpos.

Cheguei em casa e fui a cozinha para beber dois copos de água. Senti um princípio de dor de cabeça, provavelmente provocado pela desidratação. Fui logo tomar um banho, que teoricamente deveria ser gelado, mas a água saiu morna dos chuveiros, provocando uma sensação desagradável. Sai do banho praticamente seco e me vesti. Percebi no relógio que, como minha corrida havia sido curta, eu ainda tinha uns 20 minutos de folga antes de ir para o trabalho. Liguei a televisão para assistir o Bom Dia Brasil, sempre naquela expectativa de saber se alguém já havia sido preso em uma nova fase da Operação Lava Jato.

Acompanhei as notícias esportivas desinteressantes dessa parte do ano e logo depois o clima pautou o noticiário. Como sou jornalista, sei que as matérias sobre o tempo ganham um destaque extra no começo do ano pela pura e absoluta falta de pautas. Recesso parlamentar, muita gente de férias, nada acontece de muito sério, feijoada. Por isso, assistimos matérias de seis minutos sobre o calor e a chuva, pessoas sofrendo com o suor e com a inundação. Não era muito diferente nesta segunda-feira, mas dessa vez eu até entendia. Realmente o calor correspondia aos atributos da notícia.

O noticiário se deslocou até o hemisfério norte. Os Estados Unidos enfrentavam a maior onda de frio dos últimos tempos. Nova York registrou 15 graus negativos. Um acidente com 20 carros que deslizaram no gelo fechou uma rodovia. Camadas de neve cobriam a Pensilvânia e uma das duas Viríginas, não sei qual delas direito. O repórter brasileiro informava que sentiu sua orelha congelada e se questionava se iria perder ela. Os moradores entrevistados blasfemavam contra o clima. Um deles afirmava que no Brasil é que as pessoas deveriam ser felizes, porque naquele frio ninguém conseguia ser feliz. O gelo provocava lama, que provocava sujeira. A situação parecia mesmo melancólica. O repórter brasileiro até havia aberto a matéria dizendo que os brasileiros estavam reclamando do calor, mas que eles lá também tinham o direito de reclamar. Realmente parecia que tinham.

Na sequência, Cecília Malan entrou direto de Londres utilizando um cachecol que me parecia um tanto quanto exagerado para um ambiente fechado e certamente com climatizado. Ela trazia notícias sobre o frio que também se abatera na Europa. Vinte pessoas haviam morrido na Itália e também na Polônia, quase todos moradores de rua. Londres sofrera com nevascas. Uma daquelas fontes milenares da Itália havia congelado e as imagens mostraram o gelo grudado melancolicamente naqueles pedaços de pedra. Para finalizar até mesmo as ilhas gregas estavam cobertas de neve. Lugares paradisíacos abençoados pelo sol eterno estavam congelados.

Ainda assisti a uma matéria daquele carinha de óculos que é correspondente no Japão, cujo nome eu nunca me lembro, mostrando a situação caótica em Pequim. A poluição havia chegado a níveis jamais vistos e o governo chinês resolveu criar uma espécie de polícia que iria prender civis que poluíssem o ambiente. Nem os churrascos seriam tolerados. O cara de óculos deu uma ênfase muito grande ao churrasco, o que talvez fosse um sinal de crise de abstinência. Não deve haver churrasco bom no Japão. As pessoas lá costumam a comer a carne crua mesmo. O jornal ainda anunciou para o próximo bloco: Alagoas enfrenta sua maior seca nos últimos anos, com imagens aéreas mostrando açudes secos. Calcei os sapatos e fui para o trabalho.

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