segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Pizzas Caridosas

Em algum momento de sua vida é provável que você tenha chegado a um ponto tão baixo em que precisou vender pizzas por alguma coisa. Pode ter sido para sua formatura no colégio, ou na faculdade, para reformar alguma coisa, pagar uma cirurgia ou financiar sua startup. Curiosamente, a venda de pizzas se mantém há anos como uma das mais seguras formas de arrecadar fundos para uma causa.

Confesso que não achei nenhuma foto dessa pizzas na internet.
Talvez porque eu não saiba pesquisar, ou porque ninguém
tenha tido coragem de fotografá-las. Sabe como é. Diante de
uma tragédia pronta diante dos nossos olhos, ninguém tem
coragem de tirar fotos. Fica então minha homenagem para
o David Bowie
Dia desses mesmo, aliás, em vários dos últimos dias, tenho encontrado um grupo de jovens que certamente nasceu depois do tetracampeonato, vendendo pizzas em um semáforo para sustentar alguma coisa na qual eles se envolveram que tem alguma relação com o catolicismo. Nunca comprei, o que talvez garanta minha vaga para o inferno, mas o que me chamou o interesse é o preço das pizzas: dez reais.

Quando eu me formei no colégio no já distante ano de 2004 eu vendi pizzas pelo exato valor de dez reais. Já era barato na época, quando uma pizza na pizzaria deveria custar uns 28 reais. As pizzas já eram ruins naquela época e você, pobre estudante de ensino médio, só conseguia vendê-las para os seus familiares, os únicos dispostos a comprar aquela porcaria para te ajudar. Família é para isso, afinal.

Nos tempos atuais, em que as pizzas já superam a casa dos 50 reais, uma pizza custar 10 reais chega a ser algo absurdo, diria que até ridículo. No mundo moderno, praticamente mais nada custa dez reais. E aí é que cabe um questionamento: do que são feitas essas pizzas?

Pense comigo, se um produto é vendido por 10 reais ao seu consumidor final, isso significa que ele custou menos do que isso, caso o contrário, ele não faria sentido. No caso das pizzas de caridade, elas precisam custar bem menos. Não faria sentido que alguém que quer pagar um evento cuja cota custe uns quatro mil reais venda um produto no qual ele vai ter dois reais de lucro. Diria que o lucro deve ser pelo menos de 50% o que significa que seu preço de venda original seja de cinco reais. Sim, porque a pizza não é fabricada pelo cidadão que está lá no semáforo. Alguém fabrica essa pizza e acaba vendendo-a para alguém que precisa de dinheiro que a revende por dez reais. Portanto, se essa pizza foi vendida originalmente por cinco reais, eu diria que o seu custo de produção não deve superar os três reais por unidade.

Tente fazer uma pizza por três reais, na sua casa. Você talvez consiga, mas o resultado provavelmente será uma porcaria. Mas, tudo bem, não é muito diferente do que já acontece com essas pizzas de caridade. Elas já são horríveis por natureza e nós apenas a compramos porque realmente queremos ajudar uma pessoa que realmente está precisando muito disso.

Invariavelmente, na época em que vendíamos essa pizza no colégio, nossos pais acabavam comprando metade delas e ficávamos com aquela quantidade absurda de pizzas ruins estocadas no congelador, pensando no que é que iríamos fazer com elas.

Geralmente agíamos com boa fé diante da primeira pizza. Dávamos uma chance para o destino e encontrávamos aquele apresuntado salpicado sobre uma massa dura e sem gosto, com um queijo que talvez não mereça esse adjetivo - caso mudemos as regras do português e decretemos que queijo passe a ser um adjetivo a partir de agora - e invariavelmente uns tomates alegóricos que tinham o gosto da morte depois de tantos anos no congelador, além do fato de que provavelmente eles foram obtidos em hortas clandestinas, montados sobre solo provavelmente contaminado com urânio enriquecido.

Para as pizzas seguintes, era a hora de usar a imaginação e depositar quantidades enormes de queijo sobre aquela pizza sem graça. Também ia um pouco de óregano, quem sabe umas azeitonas e os tomates eram substituídos por frutos verdadeiros. Não funcionava muito bem e logo você estava apelando para uma saída mais fácil: o catupiry.

Não, não iria dar certo. Esse é o momento em que você descobre que não há como essas pizzas ficarem boas. Não há como você obter algum prazer a partir dessas pizzas, elas serão eternamente ruins apenas para te lembrar que você não fez aquilo por prazer, mas pela vontade de ajudar alguém. Essas pizzas são uma prova do seu esforço e quem sabe uma forma de penitência que irá garantir seu lugar diretamente no céu. Irei amanhã mesmo comprar umas cinco com os meninos da igreja do semáforo.

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