segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Questões técnicas sobre o reembolso de dinheiro em caso de insatisfação com um determinado produto

Ao longo de sua vida você deve ter perdido a conta do número de vezes em que se deparou com a frase “nós garantimos a sua satisfação ou o seu dinheiro de volta” em alguma propaganda sobre um produto qualquer. A frase é impactante e atrativa. Você tem um problema e esse produto promete resolver esse problema. Se não der certo, você recebe o seu dinheiro de volta. Sensacional.

Mas, há uma série de questões técnicas sobre esse processo que não são explicadas no comercial e que me parecem um tanto quanto complexas.
1) A pessoa precisa ter um problema e comprovar que tem esse problema.
2) A pessoa precisa comprar o produto e comprovar que ela comprou esse produto.
3) A pessoa precisa provar que utilizou o produto corretamente durante o prazo estipulado.
4) A pessoa precisa provar que o produto não surtiu o efeito necessário.

Tenho para mim que a maior parte dos produtos e empresas que oferecem essa devolução de dinheiro em caso de insatisfação são do ramo da higiene. Sabão em pó é o que me vem à cabeça. E aí o processo é tranquilo: você tem uma roupa suja, lava ela com OMO Multiação e a roupa continua suja. Manda o vídeo para a OMO, junto com a nota fiscal do supermercado e recebe seu dinheiro de volta. No caso, uma quantia estimada em quinze reais.

Amiga, qual é o seu segredo?
No entanto, esse desafio já foi utilizado para outros produtos sendo que o caso mais famoso é o do Activia. Todos nós nos lembramos de Dira Paes informando que o segredo para o seu corpo era tomar o iogurte que estimula o trabalho intestinal e estimulava as pessoas que sofriam de prisão de ventre a realizarem o Desafio Activia. Deviam tomar o iogurte durante uns dias e, caso ele não surtisse o efeito desejado (cagar), seriam reembolsados.

Aqui a situação começa a ficar mais complexa. Vamos voltar aos passos esquematizados alguns parágrafos acima.

A pessoa precisa ter um problema e comprovar que tem esse problema. Acredito que já existam exames, ou laudos médicos que comprovem que a pessoa sofre de prisão de ventre e que só senta no vaso sanitário para amarrar o sapato. Vale aqui ressaltar que a incapacidade de cagar é um dos problemas mais constrangedores pelo qual uma pessoa pode passar. É difícil falar abertamente sobre assuntos fecais, mas, no entanto, vamos nos lembrar que cagar é uma necessidade fisiológica do ser humano e é terrível não conseguir cumprir com essa tarefa básica para a nossa sobrevivência.

Pois bem, comprovado o problema fisiológico a pessoa compra o produto e qualquer nota fiscal com CPF consegue comprovar a aquisição. Mas é aí que situação começa a ficar mais complexa. A pessoa precisaria provar que utilizou o produto e que ele não surtiu efeito. Como alguém consegue provar que não cagou ao longo dos últimos dez dias, pelo menos não com a frequência desejada? Existe algum teste que enfie uma sonda no ânus alheio para verificar se há resquícios de merda ali e há algum teste que possa ser feito para calcular a idade dessa merda? Muito complexo. E tudo isso por um iogurte que vale seis reais. Mas enfim, dinheiro é dinheiro.

O desafio da vez é o do Dermacyd. Para quem não sabe, trata-se de um sabonete íntimo para mulheres o mais recomendado pelos ginecologistas. Ele é vendido em quatro sabores e, além de tudo, ajuda a melhorar o equilíbrio do corpo, relaxa a mente e enfim. Quase uma droga.

Bem, esse sabonete regularia o PH Vaginal, manteria a mulher cheirosa em suas partes íntimas por 24 horas e é isso aí. Esse sabonete é bem constrangedor.

O Desafio Dermacyd consiste em estimular as mulheres a comprarem o produto e o utilizarem por 15 dias. Se as mulheres não se sentirem mais protegidas e frescas, o fabricante do sabonete devolve o valor do produto que é de aproximadamente vinte reais.

Voltamos ao esquema: a mulher precisa ter um problema constrangedor - odor vaginal - comprar o sabonete, utilizá-lo durante quinze dias e comprovar que o negócio não funcionou. Ela precisaria gravar uns quinze vídeos dela tomando banho e utilizando Dermacyd o que já transformaria esse concurso em uma filial do XVideos. Ou precisaria de testemunhas registradas em cartório? No final, precisaria comprovar que o sabonete não funcionou. Como? Um representante da marca precisaria ir até a casa da participante do desafio, dar uma fungada nas partes íntimas e falar “realmente, minha senhora”.

Tudo bem, no site a questão é mais simples. Eles trabalham com essa sensação de frescor e proteção, o que também é algo muito complexo. O que é, para uma mulher, se sentir protegida neste mundo moderno cheio de tarados e estupradores de plantão prontos para achar uma brecha que legalize o abuso sexual? Proteção é PH vaginal regulado?

Fora isso, o regulamento prevê que é uma questão muito pessoal, a mulher simplesmente tem que afirmar que está desprotegida e nem um pouco fresca e der fé pública no veredito. Diante disso, a Dermacyd vai te dar os vinte reais. Lembramos que a devolução é aplicável apenas para a compra de um sabonete por CPF.

Você deve estar pensando “vou comprar essa porra, usar e depois pedir meu dinheiro de volta”. É algo possível. Ninguém é capaz de controlar a má-fé alheia. Mas há um ônus. Para pedir o dinheiro de volta é necessário assumir que você constrangedoramente sofre do problema que o sabonete promete resolver e que nem ele foi capaz de solucionar o odor. Não há vinte reais de volta que valham essa humilhação.

Nenhum comentário :