quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Humilha que eu gosto

A terça-feira é o pior dia para se entrar nas redes sociais. Nas noites desse dia a internet é tomada por uma enxurrada de comentários sobre o reality show culinário da Rede Bandeirantes, o Masterchef. São tantos comentários que é praticamente impossível chegar ao fim da timeline, é como tentar subir uma escada rolante pela contramão.
Teu cu arrombado

Acho curioso que muitos dos comentários são feitos por pessoas que, em todo começo de ano, escrevem bíblias explicando porque não aguentam mais ver ninguém falando sobre o Big Brother Brasil. Com um agravante: apesar de ser patético, o BBB ainda pode ser muito mais interessante do que o MC.

Atirem as pedras, mas há muito mais sentido em um reality show que confine pessoas dentro de uma casa espaçosa onde a balada nunca acaba, do que numa competição de cozinheiros wannabes. O BBB ainda pode ser uma experiência antropológica, enquanto que o que move o Masterchef é o puro sadismo do telespectador em assistir a humilhação de outras pessoas.

O reality culinário segue a fórmula de todo e qualquer show de calouros, existente desde a.C. (Antes do Chacrinha): pessoas insignificantes tentam mostrar o seu talento para um corpo de jurados gabaritado. Jurados esses que acabam incorporando personagens, sendo que o mais popular é sempre o carrasco. Até aí não há nada de diferente entre o Masterchef e o The Voice. Ou entre o Masterchef e o programa do Raul Gil. Com a diferença de que o Masterchef consegue ser ainda pior.

Nos shows de calouros tradicionais, os participantes tentam exibir seus talentos e por mais que você não seja nenhum especialista em música, você consegue ter alguma opinião sobre a qualidade do cidadão. Você tem ouvidos e consegue pensar se ele é bom ou ruim na tarefa que ele se propôs a executar. É possível criar empatia com alguém e torcer por esse alguém, o que no fundo é o que move a televisão.

No Masterchef não. Você pode dizer “aim, assisto pra ver quem faz os melhores pratos”, mas isso é uma mentira. Por mais que a apresentação visual dos pratos seja um requisito importante, a principal qualidade, aquilo que marca uma boa comida é o seu sabor e isso nenhum telespectador será capaz de julgar. O Masterchef tampouco ensina alguma receita, como outros programas de culinária tão populares na televisão.

Não há o menor sentido em assistir um reality show em que você não tem como avaliar a real capacidade dos participantes. Os telespectadores criam uma opinião de quem é o melhor a partir da opinião dada pelos jurados do programa, o que pouco significa. Eles podem ser chefs famosos e requintados? Podem. Mas ninguém garante que eles não tenham algum gosto absurdo por sabor de merda e gostem de pratos assim.

O que move a engrenagem do Masterchef é a humilhação. Nestas intermináveis noites de terça-feira, a internet é tomada por imagens dos jurados e suas frases, digamos, polêmicas. Todos gostam da maneira como eles humilham os participantes. Porque eles dizem que o prato que alguém fez parece que foi atropelado por um caminhão. Porque eles dizem para a pessoa que ela jamais será uma cozinheira. Porque eles fazem com as pessoas, coisas que fariam você chorar no banheiro, caso você fosse a vítima. Que faria qualquer um se revoltar, caso acontecesse com um amigo ou parente próximo.
Ouvi falar que sua mãe gosta dessa comida

Há, na televisão, essa glamurização do chefe carrasco que pratica assédio moral contra os seus funcionários. Programas com personagens assim se popularizam facilmente e as pessoas acham o máximo. É ótimo ver uma pessoa ter seus sonhos destruídos por um cara que fala francês e que supostamente é bom no que ele faz. Lembramos do Aprendiz? Outro programa baseado na humilhação alheia.

O que move o Masterchef é o puro sadismo. Seus telespectadores são sádicos que acreditam estar consumindo alguma produção cultural, mas se divertem com o sofrimento alheio. Por isso eu digo que ele deve ser o pior programa da televisão brasileira e as noites de terça-feira são sempre terríveis no Twitter.

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