segunda-feira, 8 de junho de 2015

As Músicas de Sérgio Mallandro - O mundo já podia ter acabado em 1991

Sempre surge por aí algum profeta do apocalipse para afirmar que o mundo como nós conhecemos está para acabar. Poucas vezes as razões para este fim são embasadas em conhecimentos científicos que envolvam o aumento da temperatura média do planeta, o consequente derretimento das calotas polares e o aumento do nível dos oceanos. Ou nem mesmo um meteoro da paixão que chegará e nos arrebatará e arrebentará

Eis um fato: os fins do mundo são baseados em previsões e superstições. Nostradamus disse que no crepúsculo da segunda era os irmãos se oporão e das chamas do embate nascerá o infinito veraneio. Os Incas só fizeram o calendário até o final de 2012, a Xuxa não desejou boa sorte para a humanidade no ano de 2019, a Bíblia disse.

Boa parte das pessoas que afirmam que o mundo está acabando, o dizem com base na decadências dos costumes e da moral cristã. Mulher beijando mulher, homem chupando saco de homem, mulheres usando minissaia, negros recebendo dinheiro pelo seu trabalho, a existência do sertanejo universitário. Toda e qualquer contrariedade pode ser uma razão para alguém dizer “é o fim do mundo”. Mais do que uma previsão, é uma praga. Ou talvez, um ato de misericórdia. Do jeito que as coisas estão é melhor essa porra explodir de uma vez.

Ledo engano. Quem afirma que a humanidade vive seu pior momento do ponto de vista moral, está completamente equivocado. Quem fala isso está faltando com a verdade. Não se lembra que um dia, remoto dia, Sérgio Mallandro já foi cantor.

As novas gerações, pobres e sortudas, talvez não conheçam essa figura emblemática dos anos 80. Misto de apresentador de TV e ator, Sérgio Mallandro protagonizou alguns momentos marcantes. Como se esquecer da Porta dos Desesperados que faziam criancinhas serem perseguidas por monstros peludos, sendo que tudo o que elas esperavam era um Atari. Ou de seus programas no começo dos anos 2000 com mulheres seminuas e pegadinhas nonsense em que um cidadão chorava achando que tomaria um tiro na cabeça.

Sérgio Mallandro também gravou músicas. No total, ele pôs no mundo cinco discos, cada um pior do que o outro e incrivelmente eles fizeram um tremendo sucesso na época e não aparecia nenhum filho da puta pra dizer que o mundo estava acabando por conta disso.

Seu primeiro trabalho foi lançado em 1983, autointitulado Sérgio Mallandro, e continha o maior sucesso da sua carreira. “Vem fazer glu-glu” continha os enigmáticos versos “vem meu amor, vem meu chuchu, vem bem pertinho fazer glu-glu, glu-glu pra mim, glu-glu pra tu, vem meu amor, I love you”. Uma música que consegue ao mesmo tempo ser o pior momento da história da língua portuguesa e da língua inglesa.

Pois bem, não havia nenhum apocalíptico na época em que alguém rimava glu-glu com chuchu, tu e you.

Para provar que o seu primeiro disco não foi uma aberração isolada, Mallandro voltou a lançar um disco em 1986, também autointitulado Sérgio Mallandro, mostrando que este filha da mãe não tinha a menor criatividade. Além de uma enigmática faixa chamada “Pot-Pourri Glu Glu”, o cantor lançou outro sucesso “O Escândalo”, aquela que diz “Conheci, o capeta em forma de guri”¹.

Como desgraça pouca não é bobagem, o ano de 1989 viu Mallandro lançar dois discos: o curioso Oradukapeta (com a misteriosa Mallandrovsky) e o infantil “Pula, Brinca, Agita”.

Até que em 1991 o caos, o pandemônio, a cólera, a fome, a miséria e os oito cavaleiros do apocalipse se juntaram. Sérgio Mallandro gravou uma música em parceria com o Faustão. Sim. Sérgio Mallandro. Gravou um música. Em parceria com o Faustão. A música fazia parte da trilha sonora de uma comédia nacional® com os dois, para você ver como aqueles eram tempos difíceis.



Assistam essa porra e observem a desgraça com os seus próprios olhos. É um rap! Com o Sérgio Mallandro dançando e fazendo caretas? Um menino gordinho fazendo figuração.

Onde estava o Silas Malafaia nessa época? O Datena? O Movimento Muda Brasil? O Ronaldo Fenômeno? Onde estavam os revoltados online que não foram para as ruas protestar contra esse latrocínio da ordem pública?

Não tinha ninguém para falar para o Sérgio Mallandro que ele, porra, que ele canta pior do que uma avó banguela? E o que é a parte em que o Faustão aparece dizendo “falando em ovo, eu gosto é de Cozido”. Essa letra não faz sentido, nada nesse clipe faz sentido.

O mundo já devia ter acabado em 1991 e se não acabou ali, não acaba nunca mais.

¹Um amigo meu cresceu sua vida inteira entendendo que a letra dizia “Gonocir, o capeta em forma de guri”, o que talvez tenha lhe dado uma interpretação mais surrealística da canção.

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