segunda-feira, 20 de abril de 2015

Vida e Obra de Tiradentes

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é um dos maiores símbolos nacionais de todos os tempos. Mesmo estando presente em moedas de cinco centavos, ele não deixa de ser uma figura misteriosa. Afinal, como é que um dentista rudimentar conseguiu se transformar em um mártir? Como ele conseguiu provocar a ira de um dos impérios mais poderosos do mundo? E mais, como é que ele conseguiu se transformar em um feriado nacional, que anualmente proporciona enorme felicidade para o povo brasileiro, especialmente em anos como este, em que temos um glorioso feriado prolongado. Nesse post vamos abordar alguns aspectos da vida deste ícone. Viva Tiradentes!

O Menino Joaquim nasceu na Fazenda do Pombal em 12 de novembro de 1746. Ao que tudo indica, seu parto não ocorreu em nenhum manjedoura, nem teve estrelas guias do céu, muito menos reis de lugar nenhum trazendo presentes sem graça para o bebê. Tudo o que se sabe é que essa fazenda não existe mais e seu território sagrado fica localizado em Minas Gerais. Pelo menos três municípios brigam pelo direito de ter Tiradentes como seu mais ilustre contemporâneo, mas os historiadores acreditam que a fazenda ficava na hoje portentosa cidade de Ritápolis.
Ritápolis, o berço da revolução

Filho de portugueses, Tiradentes teve uma infância aparentemente normal para uma criança da época. Claro que o normal daquela época seria o mesmo de uma infância de merda nos tempos atuais, sem videogame, sem futebol, sem chocolate e acredito que até sem tomar banho, cagando em latrinas coletivas que fediam como o inferno.

Joquinha tinha oito irmãos (cinco mais novos) e ficou órfão de mãe aos nove anos e de pai aos 11 anos. Uma tragédia infantil, mas que também devia ser normal naqueles tempos. Sem ter onde morar, ele foi criado por seu padrinho, que era dentista e com quem aprendeu as técnicas que fariam o seu nome.

O que poucas pessoas sabem, é que Tiradentes ainda era minerador – um destino natural para o homem da época, afinal a economia do país girava ao redor do ouro, tropeiro – um tipo de feijão muito apreciado, comerciante, militar e alferes. Não me pergunte o que é que um alferes faz, mas na época eles deviam ser importantes e existiam aos borbotões. Aposto que ele também era poeta, porque é um charme dizer que uma personalidade histórica escrevia poesias em suas horas vagas.

Tiradentes cresceu perambulando pelas cidades que hoje são consideradas históricas e formam um dos mais famosos passeios de guias turísticos do Brasil. Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey e etc. Conspirou na terra em que Aleijadinho faria esculturas clássicas e em que dezenas de universitários promoveriam cachaçadas homéricas com muito coma alcóolico nos tempos atuais.

Apesar de ser dentista, muito pouco se sabe sobre os dentes que ele extraiu ou obturou. Falam que ele demarcava terras, que exercia alguma função no exército, mas nada sobre nem uma limpeza de canal. A hipótese é que ele escolheu o nome artístico “Tiradentes” por soar muito mais imponente do que “Mineiro”, por exemplo. Se o cara tira dentes, pouco importa se ele utiliza seus punhos ou alicates. O cara é mau.

Xavier acabou se envolvendo de alguma forma com a Inconfidência Mineira, uma espécie de Movimento Cansei do Brasil Colônia. A elite local, cansada com a crise econômica e com os aumentos dos impostos definidos pelos portugueses resolveu se rebelar. Curioso é que o imposto português era conhecido como “Quinto”, uma vez que retirava 20% das riquezas produzidas. Os revoltosos da época nem imaginavam que anos depois o Imposto de Renda iria abocanhar 27% do salário de muita gente.

Certo que mais do que os impostos, o que irritava a população da época era o método de cobrança. A Coroa Portuguesa instituiu a “Derrama”, que autorizava a cobrança violenta dos impostos. Imagine que todo mês os auditores da Receita Federal batessem na sua porta para pegar o IR e ainda lhe dessem tapas no rosto, cuspissem na sua cara e chutassem seu corpo caído no chão e cheio de escoriações. Seria difícil aguentar calado.

Ao que tudo indica, Tiradentes era apenas mais um no meio da multidão da Inconfidência. Aliás, ao que tudo indica, a Inconfidência nem foi tão forte assim, foi um movimento que rapidamente se desarticulou e nem chegou a promover alguma atitude mais drástica. Mesmo assim, os portugueses resolveram reagir com violência para demonstrar poder.

Tiradentes e outros conspiradores foram presos. Tiradentes que era o único pobre resolveu assumir que ele era o responsável por todo o movimento e acabou condenado a morte. Outros membros também receberam a pena capital, mas acabaram absolvidos pela Rainha. Tiradentes que era o único pobre do grupo foi o único a não ser perdoado pelo crime de “lesa-majestade”. Sim, a monarquia era um negócio tão gay que condenava a morte por um crime boyola desses.

A morte de Tiradentes foi um espetáculo grandioso. No dia 21 de abril de 1792, antes de completar 46 anos, Joaquim José da Silva Xavier desfilou pelas ruas do Rio de Janeiro entre a cadeia pública e o local em que seria enforcado. Sua sentença foi lida durante 18 horas consecutivas, sucedida por apresentações artísticas em louvor de vossa majestade. Após o enforcamento, seu corpo foi esquartejado e seu sangue utilizado para escrever sua certidão de morte – não havia canetas BIC na época.

As partes de seu corpo foram espalhadas pelo caminho entre o Rio e Minas, sua cabeça pendurada em um poste em Ouro Preto. Sua casa foi destruída e jogaram sal grosso sobre o terreno, para que nada mais ali crescesse. Seus descendentes foram declarados infames. Ao que tudo indica, Tiradentes teve apenas uma filha e nunca foi casado (seria ele um mártir gay?) e teve uma porção de netos, bisnetos e etc, que recebem pensão do Governo Federal até hoje.

Esta morte dramática preservou a memória de Tiradentes entre a população. Se a Coroa Portuguesa resolvesse apenas ter metido um balaço na sua cabeça e o enterrado em vala comum, provável que ninguém mais se lembrasse dele.

"Pai, porque me abandonaste?"
Uma curiosidade sobre Tiradentes é que provavelmente ele nunca usou barba em sua vida, preferindo o rosto limpo ou no máximo um bigodinho maroto. Lembremos que o cara era militar, área que tem uma verdadeira neura pela depilação, além de ser dentista e desde que o mundo é mundo, um dentista barbudo não seria bem aceito. No entanto, suas reproduções históricas sempre o mostram com uma barba mesopotâmica. Por que? Porque sua morte violenta o fez ser comparado a Jesus Cristo, histórico barbudo. Existem até pessoas que acreditam que Tiradentes foi crucificado, após ser traído por um dos outros 12 membros da Inconfidência Mineira e que três dias após sua execução, as partes esquartejadas do corpo de Tiradentes se uniram e ele voltou a andar sobre a terra durante mais ou menos dois meses e meio até ascender aos céus repentinamente. (Também vamos pensar que é mais legal retratar um revolucionário barbudo do que um revolucionário imberbe).

Os ideólogos positivistas que formaram a República da Ordem e do Progresso enxergaram em Tiradentes um símbolo ideal para contrapor a finada Monarquia dos Orleans e Bragança e o transformaram em mártir, criando um feriado em sua homenagem. E é isso que importa. Amanhã é feriado. Viva Tiradentes!

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