segunda-feira, 27 de abril de 2015

Entrevista fracassada

A cena se repete com alguma frequência sempre que um jogo importante de futebol está para ser realizado. Os programas esportivos cortam suas discussões nos estúdios para ir até o Maracanã, onde a delegação do Botafogo acaba de chegar para disputar a final do Campeonato Carioca.

As imagens mostram aquele ônibus enorme e coberto pelo reflexo de flashes, enquanto o repórter passa algumas informações sobre o confronto. O ônibus estaciona, alguns seguranças deixam a viatura e então os jogadores e comissão técnica começam a descer e os repórteres tentam entrevistá-los. Em vão.

“Começam a descer os jogadores, tá ali o Garrincha, GARRINCHA, ele que era dúvida para o jogo, Garrincha, uma palavrinha aqui para a TV Tupi, o Garrincha passou reto sem falar com a imprensa, vem aí o Didi. Didi uma falinha aqui, estamos ao vivo, Dido seguiu direto para os vestiários sem falar com a imprensa. Vamos tentar o Zagallo, ZAGALLO, só um palavrinha, Zagallo foi embora, está com fones de ouvido escutando o walkman dele. Vem aí o Nilton santos, o capitão do time, Nilton! Passou sem falar” e assim por diante com todos os 18 jogadores que estavam dentro do ônibus, mais o técnico, massagista e um monte de pessoas que ninguém nunca viu antes.

Em 119 anos de futebol no Brasil, já vimos diversos ônibus estacionando para partidas decisivas e nunca um repórter conseguiu obter alguma informação nesse momento. Geralmente, o máximo que consegue é uma palavrinha mesmo, do tipo:
- Confiante pro jogo, Tostão.
- Confiante.
- Tá aí, o Tostão está confiante.

E convenhamos, que essa informação não fará a menor diferença para a vida de ninguém. O mínimo que se espera de um jogador é que ele esteja confiante para qualquer coisa. Surpresa seria se o Tostão respondesse.
- Ah, estou com um mau presságio hoje. Acho que vamos levar uma goleada histórica.

Os jornalistas esportivos, mais do que nenhum outro, estão acostumados a conduzir péssimas entrevistas. Apesar de serem rotineiras, nada pode ser mais frustrante para um jornalista do que uma entrevista ruim.

Acontece quando a fonte não é gabaritada, ou trava diante do microfone.
- Então, a senhora é moradora aqui de Chapada?
- Sim.
- Vocês tem muito problema com o abastecimento de água?
- Sim.
- Há quanto tempo?
- Muito tempo.
- Você acha que essa obra vai melhorar a situação?
- Sim.

Acontece quando o entrevistado se confunde com o retorno no fone de ouvido.

Acontece diariamente nas ruas dos mais diversos países para a frustração dessa categoria tão sofrida.

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