sexta-feira, 24 de abril de 2015

Bolha Imobiliária


Imagino a cena de dois velhinhos que dividem um apartamento alugado em alguma capital brasileira. Apesar da idade avançada, eles discutem a possibilidade de comprar um imóvel em definitivo. Essa possibilidade existe e é real, eles só estão esperando uma coisa: o estouro da bolha imobiliária. “Estamos esperando ela estourar desde 1937. Mas agora, é certeza de que vai acontecer”.

Comprar um imóvel é uma das maiores dificuldades pela qual um ser humano pode passar em toda sua vida. Há a questão do local, do trânsito que você irá enfrentar até o trabalho, a proximidade com locais de interesse e centros comerciais. Há a questão da construtora, que pode ser boa ou ruim e fazer uma obra de boa ou má qualidade. O prazo de entrega. E há, é claro, o preço.

De um tempo para cá, o preço dos imóveis cresceu em progressão geométrica enquanto o salário do brasileiro cresceu em progressão aritmética. Nem vou escrever nada mais nesse parágrafo, porque essa frase ficou muito foda. Admirem-na e imaginem-na sendo usada em debates de alto nível por grandes intelectuais.

Um apartamento de 48 m², que antes era um quarto e sala na periferia, hoje já é considerado um latifúndio em área central e vendido por vários seis dígitos. Temos apartamentos de mais de um milhão de reais até aqui em Cuiabá. Nas maiores cidades, se o apartamento tem banheiro já é o suficiente para custar mais do que o prêmio do Big Brother.

Existem muitas razões para a expansão desses preços. Primeiro, o Governo do PT concedeu facilidades no crédito para fazer o capital circular e aquecer a economia. Com mais gente tendo acesso ao dinheiro, mais pessoas resolvem fazer investimentos altos, mais pessoas procuram apartamentos e aí entra a velha lei da oferta e da procura. Os preços disparam.

Seu, por apenas 800 mil reais.
Também há a especulação imobiliária. Empresários começam a anunciar que um local irá receber um grande empreendimento e tudo isso valoriza a região e passa a ser possível cobrar mais caro pelo metro quadrado. “Aqui do lado vai ter o maior shopping Center arborizado da América do Sul, todo mundo vai querer vir pra cá”. As pessoas são convencidas de que devem ir pra lá e a oferta e procura volta a agir.

E há a bolha imobiliária. Na economia, o preço das coisas tende a crescer, crescer, crescer até chegar a um patamar insustentável e aí a bolha estoura. Volta lá para baixo. Aconteceu com as empresas de tecnologia no final da década de 90, aconteceu com metade do mundo em 1929, aconteceu com as tulipas holandesas em um século distante, aconteceu com os imóveis nos Estados Unidos em 2008.

A proximidade com a bolha imobiliária norte-americana acaba por criar essa expectativa sobre o consumidor. É melhor não comprar agora, porque essa porra vai explodir e seu negócio vai ser uma merda. E de fato é. Quem compra alguma coisa um pouco antes da explosão da bolha se ferra brutalmente. Pense que você compra um apartamento de 450 mil reais. Dá uma entrada de 80 mil reais, crédito facilitado e financia inacreditáveis 370 mil. Um ano depois você pagou 20 mil e restam 350 mil e aí a bolha explode. Seu apartamento passa a valer 250 mil. Você ainda tem que pagar 350 mil. Se você resolve se desfazer do imóvel, ele já vale menos do que a sua dívida. Caralho, você se fudeu muito.

A dúvida da bolha sempre bate na cabeça de quem vai comprar o imóvel. Apocalípticos e integrados se digladiam nesse embate. De um lado, aqueles que afirmam que a bolha é inevitável e citam as notícias de que a procura por imóveis caiu em quase 50% no ano passado. Do outro, aqueles que dizem que imóveis jamais irão perder valor. E você fica ali no meio, sem saber se compra agora ou daqui a seis meses, quando o apartamento pode estar pela metade ou pelo dobro do preço. Você jamais saberá. Ninguém jamais saberá.

E, durante esse processo, você sempre estará acompanhado por uma figura especial: o corretor imobiliário. Um corretor imobiliário é como uma doença venérea. Você dificilmente irá conseguir se livrar dele(a). Saiba disso quando você for buscar o serviço de um deles.
- Oi, eu vi um anúncio aqui sobre o condomínio Village das Trufas Marítimas.
- Então, esse aí eu não estou mais tendo, mas eu tenho similares, quer que eu passe uma lista para você?
- Pode ser.
- Te encontro nesse número mesmo?
- Sim.

E você nunca mais irá ter um dia de sossego. Como essa é uma vida poligâmica, você irá entrar em contato com mais de um corretor e aí sim sua vida será um inferno.

Corretores são insistentes como vendedores de shopping, com a diferença de que são muito mais enfáticos e não medirão esforços a te convencer de que aquele imóvel é o melhor jamais lançado sobre a face da terra. “Os imóveis da Homeland Incorporadora tem 99% de sua planta aproveitável, melhor qualidade, enquanto, francamente, a Santo Antônio é uma merda flutuante, metade dos empreendimentos deles desabam logo no segundo mês”.

Eles tentarão te convencer de que o sol não bate naquela janela durante a tarde inteira porque geralmente há uma nuvem fixa no quadrilátero 87 que faz sombra no seu quarto, transformando o no melhor investimento da região. O condomínio é o único que já vem com todos os espaços em comum equipados e aparelhados. Sim, todos os condomínios são os únicos. Não tem nenhuma vaga de garagem, mas a região é segura, em 2019 será instalada uma base da PM e os nossos porteiros são todos treinados em jiu-jitsu.

E a bolha jamais vai explodir. Eles garantem.

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