segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Tortura.3


Não sei explicar direito, mas, eu sempre sei quando eu não vou gostar de um filme ou de uma peça de teatro apenas pelo cartaz. Só preciso bater o olho para identificar que aquilo ali vai ser uma bomba, que a obra irá me torturar durante todos os minutos de sua duração. No caso do teatro, a impressão é reforçada com as fotos de divulgação e sinopse. Se o texto fala em movimentos lentos, exploração do corpo, releitura… vai ser uma merda.

Entre todas as manifestações artísticas, acredito que o teatro é aquela que mais sofre na disputa entre o entretenimento e o exercício intelectual. Música e cinema tendem mais para o entretenimento, literatura e artes plásticas para a intelectualidade. O teatro já é uma arte identificada como sendo de elite e por isso, as peças densas e difíceis costumam a ser mais elogiadas. No entanto, os atores também tem que comer e uma peça popular é a oportunidade para as pessoas se vestirem bem para ir ao teatro. Peças são vistas como evento.

Da minha parte, prefiro o entretenimento puro e simples. Sei que isso pode ser uma mancha para minha aura intelectual e a partir de agora poderei ser excluído de vários círculos e tratado como um fã de Zorra Total. Mas é a minha opinião.

Em um determinado dia da semana passada, estive em Brasília onde me foi conferida a possibilidade de presenciar a encenação da peça Trágica.3. O nome já era um aviso. As fotos que exploravam a escuridão também. Na hora em que as portas se fecharam o locutor anunciou que a peça era uma releitura das tragédias gregas, explorando a expressão corporal e a música contemporânea, a tortura estava consumada.

Um cara atrás de mim ainda estava impressionado por descobrir quem era o diretor da peça, provavelmente alguém muito bom, quando as cortinas se abriram e revelaram Letícia Sabatella num vestido branco, sentada ao piano e cantando uma música indecifrável.

A peça é dividida em três atos. Em cada um deles, uma atriz incorpora uma personagem de uma tragédia grega – daquelas, cheias de parricídios, fratricídios, incesto e sadismo – e faz um monólogo, com breves interrupções de um dos dois atores que estão sempre no palco, fazendo as vezes de sonoplastas e músicos de acompanhamento.

Pois bem, depois de cantar sua tragédia, Letícia se levantou até o próximo microfone e continuou a história, que seguia a seguinte ordem dramática: pois então, quando imaginaria eu que meu PAI SERIA TRAÍDO PELO EXÉRCITO DE HERONTE. Ele, QUE DEU SUA VIDA PELA GRÉCIA AGORA ESTÁ MORTO! MORTO POR ESTE EXÉRCITO VIL, MOVIDO PELA GANÂNCIA QUE CEGA O HOMEM! Seguido de uma pausa dramática que poderia revelar o fim da fala, mas que infelizmente era apenas uma breve interrupção, antes da próxima sequência catastrófica. Letícia ainda fez exercícios vocais no meio de uma confusão sonora, tocou tambor e cantou uma música em espanhol que terminava dizendo “mortos para sempre”, encerrando sua parte.

Este é aquele momento chave da peça. Você está achando aquilo uma porcaria mas está preocupado com a sua reputação intelectual, pensando se é o único que está se sentindo torturado com essa pasmaceira. Por sorte, não vi ninguém chorando e mais tarde descobri que as pessoas que estavam comigo – várias ligadas ao teatro – acharam a peça uma das maiores ciladas da história.

A segunda parte contava coma uma atriz de origem oriental que passou o tempo inteiro ajoelhada com os braços incrivelmente para cima, já que ela interpretava uma mulher enterrada. Seguia aquele padrão descrito acima, com muitos gritos. Poucas coisas podem ser mais assustadoras/constrangedoras do que um grito dramático no teatro. Sempre penso no que aconteceria caso alguém da plateia começasse a gritar também, ou se atirasse objetos no palco. Ninguém jamais saberia se aquilo foi uma intervenção programada ou uma atitude lunática. Isso é assustador, não é?

Ainda haveria uma terceira parte, na qual a protagonista interpretaria a Medéia e chamaria a atenção por usar várias vezes a palavra “puta”. Todos fomos unânimes em escolher esta como a melhor parte do espetáculo, mas é preciso avaliar que talvez já estivéssemos anestesiados depois do choque inicial, ou que o fim eminente daquilo nos deixou mais felizes e receptivos.

Ao final, o público aplaudiu e ainda de pé. O que para mim parecia um exagero, mas para outros significaria toda a minha limitação intelectual. Numa clara demonstração de que nós estávamos numa cidade grande, os atores retribuíram os aplausos friamente. Em Cuiabá, os atores quase que agradecem e abraçam quem estava na plateia.

Um comentário :

Gressana disse...

Pelo menos ninguém desceu do palco e começou a lamber suas orelhas.
Eu prefiro não abordar o tema porque nunca sei diferenciar arte legítima de charlatanismo barato.