sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Grandes dúvidas que não têm explicação (22)

Comidas de Fim de Ano

A ceia de natal está posta sobre a mesa, os familiares levemente alcoolizados já estão a postos e assim que a autorização for concedida, todos poderão destroçar o majestoso peru assado. Algumas pessoas irão entrar em luta física pelas coxas e sobrecoxas, muitos se contentarão com o volumoso peito. Mas, a grande questão é: por que comemos peru no Natal? Aliás, por que comemos tantas coisas diferentes, que não fazem parte do nosso cardápio usual, durante as festas de fim de ano? Por que essas frutas cristalizadas, frutas secas, sementes, rabanadas, lentilhas?
Pense rápido: Peru, frango ou chester?

Certo que nós temos outras datas com cardápio restritivo ao longo do ano. Na sexta-feira santa é proibido comer carne vermelha – caso o contrário o sangue de Cristo escorrerá pelos seus lábios – e um bacalhau, ou outro peixe qualquer, é muito apreciado. Mas, o consumo de peixes é liberado no resto do ano, ao contrário do peru e da rabanada. Isso não é curioso?

A principal restrição quanto ao peru é de cunho orçamentário. Você já deve ter percebido nos supermercados como está caro levar para casa esse pedaço de carne cheio de possibilidades de trocadilhos. Ok, mas o bacalhau também é caro e isso não exclui a possibilidade de você eventualmente ir até um restaurante com talheres bonitos e pedir um.

Também podemos dizer que no fundo o peru é meio sem graça e de fato é. Ele nada mais é do que um tipo de frango maior e do qual você sentirá muito mais pena de comer se olhar o animal vivo antes. Mas o bacalhau – voltamos a ele – também nada mais é do que uma palha de peixe salgado que precisa estar com muitos acompanhamentos para ser desfrutado prazerosamente.

Pois bem, se nós comemos peru, a culpa é dos norte-americanos. Em um século bem remoto, uma determinada região do país era povoada por perus e como perus são maiores do que os frangos – consequentemente mais difíceis de matar e preparar – eles eram abatidos para grandes ocasiões e alimentavam uma multidão. O peru ficou associado aos grandes momentos e é por isso que a grande família brasileira se senta em volta de uma mesa para comer um peru no natal.

(Já o Chester, o Fiesta e outros similares nada mais são do que aberrações genéticas derivadas do frango para ficarem mais gordos e parecidos com os perus. Do ponto de vista da ética animal, o Chester é uma aberração, um animal que quase não consegue se movimentar, criado e manipulado apenas para servir como uma opção mais barata ao peru no natal. Sem contar que no mínimo ele deve ser uma bomba hormonal e daqui a muitos anos um estudo qualquer vai relacionar o Chester a algum tipo de câncer).

As frutas secas e cristalizadas também tem uma explicação. Pense que o natal é uma festa surgida no hemisfério norte – inclusive a origem da comemoração pagã é o solstício de inverno, data que marca o dia mais curto do ano. A partir dela, os dias começarão a ser mais longos, teremos mais sol e agricultura voltará a prosperar. Digamos que é uma data que mostra que o pior já passou.

O natal é comemorado no hemisfério norte em meio a um frio desgraçado, no meio de um monte de neve como as pessoas cantam naquelas canções. No meio da neve você não conseguiria sair pelas colinas para pegar as mais frescas frutas, porque tudo está congelado. Aliás, você não consegue nem sair de casa. O que resta? Comer as frutas secas através de rudimentares processos químicos. Ou então as inúmeras sementes e castanhas que resistiam ao frio intenso. Se hoje elas são caras para caramba é por conta do valor agregado ao longo do tempo, porque quando os nossos antepassados começaram a degustá-las, faziam isso porque não havia mais nada para fazer.

Apesar disso, o consumo de panetone continua injustificável. Hoje em dia nós temos condições de comer algo melhor – inclusive algo melhor e mais barato porque aquelas tâmaras são caríssimas – e não há mais a necessidade de se enfiar uvas passas no arroz, na farofa, no molho, no peru, no pavê e até mesmo no cu.
Vamos concordar: a rabanada é tão boa quanto a resolução dessa foto

Já a rabanada, as lentilhas e a porra toda são de origem de alguns colonos que vieram para cá e trouxeram juntos os seus costumes. Agora, porque é que eles comem isso só no fim do ano em seus respectivos países, eu já não sei. Provavelmente eles vão dizer que é algum costume originado dos tártaros, dos eslavos, bretões, ou o que quer que seja e como esses povos já estão todos miscigenados por aí eu teria que fazer uma longa pesquisa para trazer a resposta e eu não ganho por isso. De qualquer forma, aposto que as lentilhas eram uma semente da época na Itália e que a rabanada era uma forma de aproveitar aquele monte de pão duro que sobrava no fim de ano.

Ah, por fim nós temos o já citado pavê. Um doce que leva camadas de bolachas de maisena e creme doce. Algumas pessoas a consomem em outras ocasiões, mas ele é quase universal no final de ano. Podemos dizer que é porque o pavê é um doce fácil de ser feito, fácil de ser apreciado e por isso popular. Mas, na verdade, o pavê só está aí para permitir os famosos trocadilhos de tios, algo que está incluído na declaração universal dos direitos humanos.

Um comentário :

Gressana disse...

Há ocasiões em que os anfitriões deixam de fazer pavê para evitar a infame piada. Mas isso costuma gerar rupturas na família, tamanha a frustração do tio.
"Como assim não tem pavê nessa porra de ceia?"