segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Seminário sobre a Tortura



No último final de semana, a cidade de Volgogrado foi o palco do 1º Seminário Internacional sobre a Tortura. Como não poderia deixar de ser, a tortura foi o principal tema abordado por seminarista que vieram do mundo inteiro. Eram especialistas em diversas áreas, inclusive alguns futuros padres que entenderam errado o sentido do "Seminário" e acabaram se chocando com o tema discutido.

A programação foi torturante para os seus participantes, que tiveram que discutir o assunto por mais de 36 horas consecutivas, recebendo choques toda vez em que alguém deixasse a cabeça cair pelo sono. Para piorar, a maionese servida durante o breakfast apresentou uma qualidade terrível, o que provocou longas filas nos banheiros e um mau-cheiro tremendo no ambiente.

O eterno pesquisador Alfredo Humoyhuessos foi o responsável pela abertura do seminário. Ao longo de seis horas, ele discorreu sobre os primeiros registros de tortura e os seus números nos últimos anos. Humoyhuessos projetou a quantidade de pessoas torturadas em cada país do mundo em cada um dos últimos 15 anos. Um dado extremamente detalhado e jamais demonstrado antes. Ficamos todos sabendo que três pessoas foram torturadas com elásticos de cabelo na Eslováquia em janeiro de 2008. Impressionante.

Após a palestra, todos puderam a assistir o clássico Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, com os comentários do especialista em segurança da Rede Globo de Televisão e ex-comandante do Bope carioca, Rodrigo Pimentel.

O evento começou a esquentar com a primeira palestra, do sargento Pimentel, da Polícia Militar de São Paulo. O sargento falou sobre os rumos da tortura neste mundo globalizado e midiático. Ele lembrou que a tortura precisa estar bastante institucionalizada e pacificada no imaginário popular para que ela seja  posta em prática no dia-a-dia. Lembrou que há 20 anos atrás era tranquilo dar umas surras em uns vagabundos, aplicar correntes elétricas no ânus e o popular pau-de-arara, que não acontecia nada. Hoje em dia, ele pondera, há um grande risco de que alguém filme o evento e o distribua pelo maldito whatsapp, causando um grande prejuízo para a corporação. "Tortura boa, é aquela que todo mundo sabe que existe, mas que ninguém vê", afirmou.

Os organizadores do seminário montaram então uma demonstração real dos mais variados métodos de tortura. Praticantes do bondage fizeram uma demonstração ao longo de uma hora, se utilizando de alicates, velas, fios desencapados, cassetetes, ratos, cobras, insetos e um curioso filhote de jacaré. Algumas horas e unhas arrancadas depois, a apresentação foi encerrada e o cheiro de vômito pairava no ar.

Os seminaristas chegaram a conclusão de que realmente a tortura física não era a mais eficiente, uma vez que as marcas deixadas nos corpos dos torturados causam um enorme prejuízo de imagem. Iniciou-se então uma mesa redonda em que discutiram métodos de tortura física que não deixem marcas nos participantes. Falou-se muito sobre o uso de papelão e do gelo, mas não se chegou a uma conclusão. Foi acordado que os participantes buscarão, junto as suas organizações, fundos para bancar pesquisas sobre a tortura física que não deixa marcas. "Hoje em dia não dá nem mais para marcar uns árabes e uns comunistas que os bunda-moles dos direitos humanos já reclamam", afirmou um ex-funcionário de Guantánamo. Aliás, a primeira pausa para o café contou com o grupo Los Mariachi, cantando a clássica "Guajira Guantanamera", em homenagem a cidade.

Uma vez que a tortura física claramente tem seus problemas, o restante do seminário se centrou na questão da discussão sobre a tortura psicológica. Claramente mais eficiente, ela não deixa cicatrizes visíveis, coloca o cidadão em uma situação mental muito mais frágil e instável e pode ser facilmente explicável. "O indivíduo desaparece por uns dias e nós os devolvemos a sociedade com alguns tiques nervosos e espasmos. Sempre podemos falar que ele estava usando crack", afirmou o sargento Pimentel.

O professor eslovaco Zvilaj Dosek fez uma longa abordagem sobre as mais eficientes formas de se torturar alguém psicologicamente. Ele falou dos tradicionais métodos, como: deixar a pessoa num quarto escuro, amarrada, com uma gota caindo na testa, ou pendurar a pessoa de cabeça para baixo e pingar água no seu nariz, simulando um afogamento. No entanto, o momento que mais chamou a atenção foi quando Dosek falou sobre o uso da tecnologia moderna associada a tortura psicológica.

Os smartphones, esses aparelhos sensacionais, são ótimas ferramentas. Dosek demonstrou como, deixar a vítima amarrada, com o seu celular a vista apitando mensagens do whatsapp é uma ótima forma de tortura. "Melhor ainda se você puder ficar contando que, olha só, você está com 308 mensagens não lidas e 48 são da sua namorada. É batata, ele logo vai abrir o bico". Segundo o professor, ninguém resiste a situação quando o nível da bateria caí para menos de 15% e a chance de ficar sem ler as mensagens é clara.

Outro método, é submeter a pessoa a assistir os vídeos do canal parafernalha em sequência, assim como vídeos de gatinhos cantando e ler todos os Tweets do Lobão. Em casos mais extremos, vale ameaçar fazer check-in em uma boate gay, curtir páginas suspeitas do Facebook e compartilhar imagens do TV Revolta.

Sem dúvida, todos saíram impressionados com a palestra do professor eslovaco e com muitas ideias para se aplicar na prática. O 1º Seminário Internacional sobre a tortura cumpriu o seu objetivo de discutir este assunto polêmico e marginalizado, de forma aberta e direta. Sua segunda edição foi marcada para março de 2016 na República Tcheca e até lá novos métodos de tortura devem ser desenvolvidos, inclusive com novidades em relação ao uso do Instagram.

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