Ciclo de Festas

A sua vida gira em um ciclo de festas. Você sempre está frequentando determinados tipos de festas que marcam determinados períodos da sua vida. Isso não significa necessariamente que você é um baladeiro que desperdiça suas noites de sono rondando as mais fétidas e pútridas casas de diversão noturna da sua região. Nem que você goste de festas. Mas elas são parte da sua vida.

O ciclo começa com as festas de criança. Geralmente você se lembra pouco das primeiras festas, porque você passou a maior parte do tempo babando e chorando, e só se recorda dos fatos narrados por terceiros e de algumas fotos em que você está usando roupas engraçadas. Junto com você, tantos outros bebês que você nunca mais viu.

Quando você faz uns quatro anos, as coisas mudam e você começa a ter memórias. Daquelas festas cheias de crianças em que os pais precisavam arrumar um jeito de o tempo passar até a hora do bolo. Na minha época ficávamos brincando de esconde-esconde, hoje imagino que a criançada fique no videogame mesmo. Chegava o momento do bolo e, claro, dos disputados brigadeiros. Além do parabéns, seguido pelo temível “Com quem será?”.
- Com quem será? Com quem será? Com quem será que a Marcinha vai casar?
- Com o Vinícius heim!
- Não cara, comigo não! Não, sacanagem!
- Vai depender se o Vinícius vai querer!
- Não!!!!!!!!!!

As festas mais badaladas ainda tinham o papo de peru. Quantas linhas já não gastei para falar dessa experiência moldadora de caráter e os amigos que se foram neste momento.

Quando chegávamos aos 11, 12 anos, começavam os aniversários de pré-adolescente. Provavelmente o momento mais deprimente de nossa existência humana. Todos tentando se comportar como adultos, bebendo Coca-Cola enquanto contavam mentiras sobre sua ativa vida sexual.

Depois vêm as festas de colégio, na época do ensino médio. Todo mundo começa a beber e passar os primeiros vexames, como dançar bêbado até vomitar e cair sobre o próprio vômito. E ter que ligar para o pai às 2h da manhã perguntando se ele podia te pegar. O momento mais constrangedor de nossas vidas. O amor de um pai é algo que realmente não tem explicação.

Este ciclo termina na sua formatura de colégio, uma espécie de despedida da adolescência. A Formatura do Ensino Médio tem um ar depressivo, porque, pensando bem, você não se forma em nada e não tem direito sequer a uma prisão especial. Além disso, você vai fazer Zootecnia em Campos do Jordão e nunca mais verá ninguém.

Na faculdade, as festas são experiências que duram um dia inteiro, uma noite inteira, abastecida com bebidas alcoólicas da pior qualidade possível. Invariavelmente, você termina a noite seminu na casa de alguém que você não conhece, murmurando que quer ser besuntando, antes de entrar em coma alcoólico.

Chega a sua formatura. Ou melhor, a época das formaturas. Porque seus amigos de colégio e outros conhecidos também estão terminando a faculdade. É hora de gastar o terno em buffets de nome imponente, comer lagarto ao molho madeira até ficar cansado, decorar todos os axés que estão fazendo sucesso, cansar de assistir as entradas triunfais dos formandos e as pessoas se arrastando no chão, quando tudo terminar.

Ao invés de jujubas, um casamento
Mal termina o ciclo de formaturas, começa o ciclo de casamentos. Não necessariamente o seu casamento, mas o casamento dos seus amigos da faculdade, colégio, colegas de trabalho, primos. Hora de peregrinar por diversas igrejas escutando os mais variados sermões, presenciar o ataque à mesa de doces e o momento do buquê. Este sublime momento em que as mulheres voltam a se comportar como as crianças embaixo do papo de peru. Presenciar a tensão no rosto dos homens e ver o desespero estampado na face do cidadão que viu sua namorada agarrar o buquê depois de quebrar a costela de três oponentes. Além da clássica pergunta: “e você? Casa quando?”.

Aí então acontece a mágica na vida das pessoas. Como se você estivesse no eterno dia da marmota, o ciclo se reinicia e nós voltamos às festas de criança.

As festas dos filhos dos seus amigos, seu sobrinho. A festa do seu filho, dos colegas de sala dos seus filhos. Crianças que passam de mão em mão, enquanto rola aquela preocupação se elas não vão se matar no escorregador.

Começam as festas de adolescente do seu filho e dessa vez é você que vai ficar acordado até às duas horas da manhã esperando um pedido de busca. Começam as formaturas do seu filho, dos seus sobrinhos, com você entediado, esperando o jantar para ir embora. Os outrora recém-nascidos se casam e têm filhos e você vai ao aniversário dos seus netos. Cuidado com o vovô!

Se você tiver sorte, verá seus netos se formando, quem sabe se casando. Com mais sorte ainda, verá o aniversário dos seus bisnetos.

Até o dia em que você encontra seus amigos em uma última celebração.

Comentários

Viajei, lembrando de como sempre odiei as festas na infância, de como nunca era convidado para as festas na adolescência, pensando em como não consigo fugir das festas familiares dos sobrinhos e, principalmente, em como festas me fazem desejar a tal última celebração com os amigos. Este realmente é o ciclo da vida, não aquele que o Elton John canta no REI LEÃO...