Lanche de avião

Houve uma época em que, além de viajar no avião, você tinha que depená-lo. Sabe-se lá o porquê. Se era por conta da altitude, da diferença de pressão, o frio, o barulho, o medo ou se era só o preço alto. O que é que fazia com que as pessoas achassem que tinham o direito de levar tudo de dentro do avião?

Os talheres de metal – principalmente as colherzinhas, os copinhos de refrigerante. Os paninhos que ficam no encosto da cabeça, os cobertores, as revistas. Sei de pessoas que conseguiram levar o aviso para não fumar e manter os cintos afivelados e até sujeitos que conseguiram levar o assento da poltrona. Sim, o famoso assento que flutua em caso de pouso sobre a água. Não sei como é que eles conseguiram fazer isso. Mas é provável que existam pessoas que tenham levado a poltrona inteira, o manche, as máscaras de ar que caem em caso de despressurização, a calcinha da aeromoça.

O fato é que ninguém fazia isso quando se viajava de ônibus. Não existem sujeitos alucinados querendo levar as cortinas ou o adesivo para não apoiar os pés no vidro.

Com o tempo, a diversão dos saqueadores aéreos foi acabando. Depois do 11 de setembro, os talheres de metal foram abolidos, visto que eles poderiam ser mortíferos. Seus substitutos, os talheres de plástico, tiveram vida curta, uma vez que é uma porcaria tentar cortar qualquer coisa com aquilo. Deu se preferência a coisas que não precisam ser cortadas.

Com o tempo, talvez devido ao governo Lula, as pessoas passaram a viajar mais de avião e ninguém liga mais para encostos de cabeça e copinhos plásticos. E deve-se vigiar melhor, para que ninguém saia como um assento escondido, porque, porra, como é que conseguiram fazer isso? Os cobertores foram cortados junto com os gastos, sobraram apenas às revistas amassadas e de conteúdo desinteressante.

Existem, portanto, poucas coisas para se fazer durante uma viagem. Puxar papo com a pessoa mal encarada sentada ao seu lado, fazer palavras cruzadas, rir do nome bizarro do piloto e, claro, esperar o serviço de bordo.

Assim que Santos Dumont aterrissou o 14 Bis no solo parisiense, a primeira pergunta que lhe fizeram foi “O que você comeu lá em cima?”. Ao responder que nada havia comido nos 10 segundos de vôo, a imprensa se decepcionou e foi atrás dos irmãos americanos que juram ter comido um queijo quente.

É um mistério da humanidade, mas o lanche de avião fascina as pessoas. Quando você viaja de avião, todos te perguntam “viajou bem? Qual foi o lanche?”.

Uma viagem de avião dificilmente demora mais do que duas horas (não falo de viagens internacionais). Você logo irá fazer alguma conexão se a viagem for mais longa que isso. Mas, não sei se pelo preço, as pessoas esperam ter uma refeição de restaurante de luxo nesse período em que se fica na aeronave.

E houve, sim houve, um tempo em que se comia alguma carne vermelha acompanhada de arroz com vegetais e purê de batata. Sanduíches gelados ou quentes, biscoitos doces, bolinhos, que você guardava para entregar para algum familiar. Eram tempos em que para ir de Cuiabá para Porto Alegre, você faria 3 escalas e uma conexão e faria 4 lanches. Sairia do avião entupido de tantos lanchinhos.

Quando a GOL surgiu em 2002, ela surgiu com uma proposta de proporcionar viagens aéreas por um preço menor. Entrou com tudo no mundo da internet, agilizou processos e diminuiu custos. Entre eles, o lanche. Pra que fazer os passageiros comerem tanto durante um vôo que dura uma hora? Ninguém come tanto assim. Bastaria servir uma coisa básica.

Entraram em cena as famosas e impopulares barrinhas de cereais. E depois os amendoins, bolachas de água e sal, biscoitos de coco. A população se revoltou. Nos primeiros anos era normal ver pessoas protestando contra as barrinhas, proclamando que “o foda de viajar de GOL é aturar os lanches”.

Como se muitas vezes você não ficasse mais de uma hora no trânsito para voltar para casa e nesse período você não ficasse sem comer nada. Como se as viagens de ônibus não demorassem 12 vezes mais tempo e te oferecessem paradas em bibocas que servem pão de queijo com mosca e coxinhas fritas em óleo de caminhão.

Criou-se essa cultura de pessoas que quando iam viajar, nem jantavam para comer no avião. Eu acho que o mesmo é só um meio de transporte que agiliza a sua vida e que a cada dois anos protagoniza uma tragédia que assusta todo mundo. Se eles quisessem servir um copo de água e duas jujubas numa ponte aérea, seria mais do que justo.

Comentários

Luciana disse…
AHAHAH Genial. Também não entendo porque as pessoas exigem tanto de uma viagem de 2horas. Até porque se comer demais como vai se virar naquele banheiro?